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quarta-feira, 8 de maio de 2019

A necessária busca da perfeição para combater a “alta pressão”

Credit: Getty Images

O feito de ontem comprova a dificuldade que é lidar com esta pressão do Liverpool... a insistência do Manchester City é mais do que uma teimosia é uma necessidade transformada em cultura, onde são mais as certezas do que as dúvidas.

Importa reforçar que a dinâmica é sempre orientada por princípios (sejam eles mais colectivos ou mais individuais) que procuram dar sentido ao que envolve a equipa e, no fundo, levar a bola a progredir no campo e chegar perto da baliza em boas condições. Como os princípios estão antes da dinâmica posicional e das trajectórias da bola, é natural que os jogadores tenham que agir uns em função dos outros (interacção) como necessidade de não se desviarem dos tais princípios orientadores. Isto que facilita enormemente a auto-organização e a cooperação, conceitos que só são possíveis quando todos se orientam pelos mesmos valores do jogo.

Se no vídeo da publicação anterior (aqui) se via Stones (também Fernandinho) a pedir a bola "cravado" na 1ª linha de pressão do adversário e Walker a criar superioridade desde trás como opção para o GR sair curto, libertando Bernardo para uma "zona morta", neste vídeo vemos que a dinâmica do jogo e a necessidade de ajustar não impede a manifestação dos princípios, bem pelo contrário (tal como que referimos acima esse ajuste é crucial para que eles se manifestem e dêem sentido à dinâmica). É como se a equipa fosse um organismo vivo onde cada parte se coordena com as restantes para manter o normal funcionamento em função da necessidade e da circunstância.


- Walker em "zona morta" (entrelinhas); - Bernardo+Fernandinho “incorporados” na 1ª linha de pressão do adversário (quase como que para a “espremer”, obrigando-os a fechar mais, para libertar espaço por fora, mas também são uma possibilidade de progressão, com um toque podem deixar essa linha para trás); - Stones a criar superioridade desde trás, com Ederson e Laporte - atrair a 1ª linha de pressão do Liverpool e libertar jogadores numa "zona morta" (passe para o "2º andar") - Homem Livre


No próximo vídeo dá para perceber como o atraso ao Guarda-Redes é uma necessidade de ganhar tempo, para que toda a gente da equipa se oriente de forma a poder receber a bola com uma visão ampla do campo e com o corpo orientado para poder dar vários seguimentos à bola e assim reduzir o risco de ser completamente limitado e ainda criar dúvida na pressão adversária . Este “jogar para trás” nunca pode ser um passe como quem passa um problema e "diz": "Resolve tu!"


Todos estão envolvidos na resolução do problema e o passe vai para quem nos garante mais tempo para voltarmos a ver tudo o que se passa no campo, para ter a bola em segurança e/ou para quem está em condições para a fazer progredir. O GR, neste caso, é mais um que coopera nesta tarefa de progredir em segurança.

Para além de todos estes princípios e sub-princípios, de que fomos falando, que na repetição sistemática dá confiança a toda a gente para se guiar por eles, é importante perceber que o erro não pode ser o medidor do certo e do errado no que aos princípios diz respeito, ou seja o erro, ou mais precisamente a sua correcção não pode acontecer no sentido de alterar a essência do jogo que a nossa equipa joga e por isso é que uma perda de bola atrás que quase dá golo não altera nada, por isso a jogada seguinte leva a aprendizagem das experiências anteriores sem perda daquilo que nos orienta. Como os skaters, que depois de uma queda voltam a tentar 1001 vezes até acertarem com a “acrobacia”, como nós quando aprendemos a andar e como qualquer outro processo de aprendizagem.

Impressiona a crença e o orgulho na forma como tentam disputar o jogo e consequentemente o resultado, algo que se transmite na enorme serenidade com bola... de todos, até do GR que é onde (tantas vezes) tudo começa.

Porque é nos momentos de aperto que se vê o que é cultural (o que é hábito e nos sai espontaneamente) e o quão entranhados estão determinados princípios.


a) jornada 8 da Premier League 2018/2019 – Liverpool vs Manchester City

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bernardo pode não encher a camisola, mas enche o campo


Ontem o City, onde Bernardo Silva, David Silva e Gundogan constituiram o meio campo na 2ª Parte (comparar com Fabinho, Henderson e Wynaldum - Liverpool), chegou aos 157 golos nesta época, em todas as competições - recorde de sempre entre equipas da Premier League. Isto só prova que a visão de que impera no “futebol moderno” um “jogo físico” é uma visão muito redutora deste desporto. Claramente não há, nem nunca houve, uma só forma, nem um só tipo de jogadores, capaz de dominar o jogo, levando-o para o registo que mais nos caracteriza e favorece durante mais tempo nos 90 minutos. Será sempre uma questão de ter em campo inteligência/talento, ser coerente nas escolhas e naquilo que se treina para construir, muito além duma forma de jogar, uma cultura de jogo dentro da equipa... dentro do clube.


No final David Silva (sem marcar qualquer golo) foi eleito homem do jogo (absolutamente nada contra). Poderia muito bem ter sido o outro Silva, o Bernardo, aquele menino que entre os 14 e os 17 anos, por ser franzino e abalroado pelos que tinham mais força, pouco jogava. Aquele menino que deu a volta a uma situação aparentemente desvantajosa recorrendo ao domínio do seu corpo e dos timings/espaços para o usar, evitando assim o contacto quando isso o colocava em problemas. Aquele menino que teve que se desenrascar recorrendo à única coisa que não engana, o jogo, arranjando soluções dentro do mesmo para a tal “desvantagem”, porque claramente não foi pelo aumento muscular que resolveu o problema e para surpresa de muitos fê-lo treinando no limite, num treino onde o essencial era jogo.

O Bernardo fez mais um jogo que transcende o físico e exalta o jogo, porque enche o campo com aquilo que deveria ser essencial – o entender e saber jogar o jogo, pelos timings de ocupação dos melhores espaços (a defender e a atacar), pela forma como domina o seu corpo e o usa para tirar vantagem dos desequilíbrios momentâneos de jogadores com o dobro da sua massa muscular, com o dobro da sua força e da sua velocidade de deslocamento.

Este “encher o campo” não é o mesmo que “estar em todo o lado”, é antes um estar onde precisa de estar no momento certo para lá estar, quer quando joga por fora – extremo – como quando joga por dentro - médio.

Acho que o “futebol moderno” que criou o “reforço muscular” já teve mais que tempo de criar exercícios de “reforço de inteligência”, de “reforço de entendimento do jogo”, de “reforço do saber como tirar partido de situações onde o meu corpo (franzino) é aparentemente uma desvantagem”, mas parece que andamos distraídos com outras coisas que claramente não merecem nada o protagonismo todo que têm. O “reforço” essencial faz-se no treino jogando. Agora, se nos dizem que há jogadores que sentem necessidade de fazer outras coisas, porque valorizam e acreditam que é isso que os torna melhores, resta-nos dizer que sabemos dessa realidade.

<<Se achamos que o mais importante é o que eu programo (toda a parte burocrática e científica), estamos enganados, é mais importante que o jogador (estando em condições) acredite que o que faz no treino é o melhor para ele e então aí chega ao jogo no seu máximo potencial para ganhar.>> Lorenzo Bonaventura (elemento da equipa técnica de Guardiola, no Barcelona, no Bayern e agora no Man.City)

Temos perfeita noção do poder das crenças e já o referimos várias vezes aqui. Não é isso que nos preocupa, o que verdadeiramente nos preocupa é que no futebol os jogadores passem a atribuir maior importância ao físico do que ao jogo em si. Que se comece a ver jogadores dizer que foi o ginásio ou o treinar sozinho que me tornou um jogador que pode jogar na 1ª liga.


Por isso trazemos aqui o Bernardo (podíamos falar do David Silva, da mesma equipa, e de muitos outros), porque é um jogador que no seu todo (corpo/mente) tem o essencial do futebol e que contraria o “paradigma do atleta”. Isto é FUTEBOL, não se trata de “atletismo com bola”, e portanto o corpo para jogar o futebol do Guardiola ou o futebol do Paulo Fonseca não pode ser o mesmo corpo de alguém cuja ideia de jogo é algo semelhante a “atletismo com bola”.

Já sabemos que isto choca muita gente, mas o essencial é a ideia de jogo e o jogador, o resto é gente a querer o protagonismo que não deve ter, para o bem do futebol e de criar uma cultura que permite o florescimento de jogadores que realmente percebem o que é importante. Para que quando eles sintam dificuldades em entrar no “ritmo competitivo do jogo” percebam que provavelmente terão que entender melhor os timings do mesmo e que correr mais, mais rápido ou durante mais tempo provavelmente não lhes irá resolver o problema. E por isso tem que haver harmonia/conexão entre todas as dimensões.

Para as pessoas que rotulam isto de contraproducente, aconselho a falarem com alguns pais que, para que os filhos melhorem (no futebol) os põem a fazer abdominais e flexões com 7 anos e que vão fazer treino intervalado para os parques com miúdos de 9 anos.

Obrigado aos "Bernardos" que sabem que melhorar está no jogo, sejam eles grandes, pequenos com muita ou pouca massa muscular. O Bernardo sem saber criou um contexto onde depende de nós usarmos o seu exemplo para mudarmos o Paradigma do treino e do jogador, respeitando a possibilidade de surgirem jogadores como ele. Porque o objectivo não é encher a camisola, mas sim encher o campo.