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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As necessidades fundamentais do desenvolvimento



Melhorarmo-nos e (no caso de Gente cuja paixão é formar) melhorar os outros deve ser uma preocupação diária. Importa perceber as devidas diferenças entre o ensinar e o criar condições para que se aprenda e ainda que não fale disto ao longo das seguintes linhas importa ter isso presente, para se perceber que o ideal é que a vontade de melhorar parta de cada um ainda que hajam variadíssimas formas de “espicaçar” essa vontade.
 
Ora, para que se dê este "melhorar" constante, há algumas condições fundamentais:

1. "Amar o que fazemos!" (que não é o mesmo que "fazer (só) aquilo que gostamos"). Entender o conceito de “amar o que fazemos” como catalisador da aprendizagem é fácil. O que acontece é que, erradamente, damos por muita gente que quer retirar do processo tudo aquilo que a criança não gosta ou a faz sentir-se frustrada - “Medalhas para todos!”, “Não gostas de defender? Ok, tu só atacas!”, “Não se fala em perder ou ganhar no treino, porque isso faz ‘sofrer’ quem perde!”… é nefasto retirar do caminho da criança tudo aquilo que a incomoda, mas que faz parte da vida eu diria até que algumas coisas (na devida proporção) devem ser promovidas para que o desconforto surja e assim haja a possibilidade de ser ultrapassado, como uma vacina.

2. "Ter a noção de que não somos bons o suficiente!" - somos sempre um processo inacabado, por isso “aprender” é algo que nos deve acompanhar toda a vida. Esta noção temos que a ter dentro de nós, mas o contexto (quem nos rodeia e contra quem "competimos") tem que nos fazer sentir isso mesmo. Se o contexto for demasiado fácil e não nos causar qualquer desconforto, então a necessidade de melhorar nunca será tão grande. Não devemos depender exclusivamente da nossa consciência de que temos muito que melhorar, é necessário que o dia-a-dia nos faça sentir isso, precisamos de nos colocar em situações que provoquem em nós o aparecimento da mentalidade certa e que mantenham em nós os hábitos que nos aproximam da evolução.

3. "Saber que melhorar é algo difícil!" O desafio, o desconforto e o obstáculo como parte importante da aprendizagem. Isto está em tudo relacionado com o ponto anterior. Não se dar às facilidades. Ver na dificuldade um desafio e não um impedimento para alcançar o que queremos. Perceber que a dificuldade me dá um “empurrãozinho” até encontrar as melhores soluções, enquanto que a facilidade me permite resolver o problema de qualquer maneira – bem ou mal o resultado será sempre positivo, no imediato. Ter este gosto pela dificuldade é algo essencial para melhorar. Ter gosto por aquilo que nos custa alcançar, retirar prazer desse processo sentindo que por esse caminho há mais hipóteses de nos tornarmos melhores. Formar neste ambiente é sempre mais saudável do que mascarar tudo com injecções de confiança sem sentido do que é a realidade.

4. "Máxima <<ilusión>>!" Esta palavra que no vídeo aparece traduzida como "paixão" é mais do que isso, é um misto de muita coisa. É um conceito que envolve paixão, entusiasmo, esperança, sonho, vontade, crença... é tudo aquilo que nos leva à transcendência, é aquilo que perante todas as adversidades faz com que nos superemos, é o que, perante um problema difícil e que nos demonstra mais uma vez que "não somos bons o suficiente", nos faz procurar as soluções para a sua resolução.

Mas deixo-vos o vídeo onde fala quem sabe melhor.


a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dar o Melhor de Nós (Toni e Rafael Nadal)



O que é o desporto? Que valores implica? Que estado de alma fará sentido em quem o pratica? Formar, para além da especificidade que determinada forma de jogar o jogo exige é também formar ou tentar influenciar (dentro do possível, limitados que estamos pelo tempo) o carácter de quem treinamos.

Não há dúvidas de que com a formação se pretendem criar hábitos (nas várias dimensões que abrangemos enquanto humanos) e esses hábitos começam-se a criar desde cedo, tentando assim aproveitar todo o potencial com que nascemos. Como é óbvio isto implica a família como a grande responsável por uma formação que tenha por base (de preferência) bons valores. Começamos por algo essencial, que passa pelo tempo em que crianças se enamoram, se apaixonam por algo que irá gerar o impulso, o desejo de experimentar, só assim se pode chegar ao prazer de jogar (futebol, neste caso - sou bastante “egoísta” e acabo sempre por ir dar no mesmo tema). Mas é essencial que esse prazer por jogar tenha outra paixão e uns determinados hábitos associados, ou seja de preferência que jogar só faça sentido se for no sentido de buscar melhorar, que haja essa paixão (íntima - de quem pratica) por aprender, por fazer o melhor que se pode, de se implicar todo na intenção de fazer as coisas bem. Que a paixão pelo jogo seja com naturalidade e normalmente algo que acarreta exigência.

Fazer por fazer, quando falamos em formar para a vida e para o desporto de alta competição, não faz qualquer sentido para Toni e Rafael, nem para mim. Se o fazemos terá que ser com a máxima exigência. E aqui parece-nos essencial que o hábito seja promovido no sentido da exigência vir do próprio jogador, e não do treinador nem dos pais. Só assim se tornará num estado tão natural que de tão normal, de tão apaixonante passa a ser prazeroso até nos momentos de perda. Porque a tristeza momentânea não lhes retira o prazer. A frustração da derrota passa mais rápido quando vivemos para nos melhorarmos e para dar o melhor de nós. A realidade é que a felicidade (enquanto estado e não enquanto momento) transcende o resultado e transcende a emoção momentânea.

Na exigência e na intensidade máxima é quando o jogador se diverte, doutra maneira deixa de fazer sentido. Também é verdade que há quem só se consiga divertir, no desporto, sem a exigência de ter que dar o melhor de si. Tudo bem! Não se poderá é almejar grande aprendizagem com essa postura. Os miúdos devem ter espaço para decidir o que querem, conhecer as suas paixões e colocarem em si a exigência que eles quiserem, só assim eles serão honestos com eles próprios e com os outros, especialmente quando o desporto é colectivo. Mas reforço, mais uma vez, que é perfeitamente possível a diversão num contexto de exigência máxima (assim a exigência seja intrínseca e não extrínseca na forma de pressão) onde o “sofrimento” causado pelo esforço está presente, e há inclusive muita gente que só se consegue divertir desta forma.

Isto assemelha-se um pouco à questão do "ganhar" ou até à “paixão” na formação, por vezes esquecemo-nos que aquela ambição que, enquanto treinadores (ou os pais), temos de triunfar ou a enorme paixão que levamos cá dentro, deve existir no sentido de a transmitir aos jogadores, não como um fim em si mesmo, mas porque é neles que a exigência deve estar, é deles que deve partir essa vontade de ganhar e essa paixão, porque é essa vontade que gera neles a necessidade de solucionar os problemas do jogo. Com essa vontade de (solucionar os problemas para) ganhar e com essa tal paixão surge naturalmente a intensidade máxima, que lhes permite concentrarem-se no quebra cabeças que é determinado exercício/jogo. A partir daqui estão criadas as condições para um certo “auto-didatismo” que é muito importante, pois devemos reconhecer o nosso papel, essencialmente, de catalisadores de hábitos para que a cada dia haja maior autonomia; devemos ser alguém que os guia e intervém neste sentido de tornar normal esta capacidade deles exigirem o melhor possível de si próprios, sem necessitarem dum “fiscal da exigência”, quando chegam à adolescência e necessitam constantemente de alguém que os alerte para a importância de se focarem – a paixão não é suficiente ou a auto-exigência não condiz com o nível que o contexto/equipa exige. Daí a importância de se formar para que a paixão e a dedicação seja algo que desde cedo seja uma algo que está neles como vontade própria e não como exposição constante a uma pressão exterior para ter que gosta, só dessa forma autónoma a exigência se irá entranhar de tal modo que já não haverá outra forma de ser divertido.

Para além destes hábitos que acreditamos que lhes vão dar jeito para competir, isto é duma tremenda importância para a vida. Ultrapassar os momentos menos bons que a vida tem. O serem felizes (não a cada segundo, mas como algo que impele a resolução das frustrações), mesmo na adversidade, só é possível nesta capacidade de nos momentos complicados resistir. E sou da mesma opinião do Toni Nadal, de que o estado de felicidade e de satisfação pessoal é maior quando as coisas são difíceis de alcançar, mesmo quando temos que nos levantar uma e outra vez, por não termos conseguido ou porque sofremos algum imprevisto grave.

Cada um da sua forma... mas, no que puder contribuir, espero que "dar o melhor de nós" seja cada vez mais uma forma normal de actuar. E sem medo de que fiquem frustrados, porque com estes valores o prazer e esse estado de felicidade, vem essencialmente do esforço implicado no processo, e não exclusivamente do ganhar aos outros (ainda que conseguindo triunfar saiba muito melhor).



Proveniência dos vídeos (cortes):
a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;
d) Entrevista a Rafael Nadal retirada do documentário “Strokes of Genius” (Bonus Clips), 2018