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sábado, 25 de maio de 2019

"Pode-se escolher como jogar, mesmo quando se perde?"


Esta é a pergunta que tanto atormenta o futebol, no geral, e aqueles que gostam de ver os seus clubes ganhar, em particular.

Referir que duas semanas após esta conferência Berizzo acabou (“inevitavelmente”) por sair do Athletic de Bilbao, após a sua saída a equipa obteve muitos melhores resultados e escalou na tabela classificativa a ponto de quase alcançar um lugar europeu. Mas como acreditamos que se aprende de toda gente, mesmo de quem perde, aqui fica a nossa reflexão sobre este assunto.

Como se contraria o insucesso? "Sem rumo" é a solução? Qualquer rumo? Sem sentires no fundo da tua alma aquilo que vais ajudar a construir? Será que quando perdes constantemente te podes dar ao luxo de jogar de uma determinada forma, de ter um estilo de jogo e continuar a fazê-lo crescer? (aqui encontram uma das possíveis responstas a esta questão) Nesses momentos parece o que se deve fazer é "ganhar de qualquer maneira", mas o que é isso exactamente? Como é que se treina/joga para se "ganhar duma maneira qualquer"?

Treinar/jogar é sempre no sentido de melhorar e isso implica haver algo que oriente esse processo. Portanto, "qualquer coisa serve" não fará muito sentido. Se depois, no jogo, a vitória acontece de forma fortuita e pouco condizente com o estilo para o qual nos dirigimos (a tal intenção), não deixa de ser festejado, porque todos os treinadores querem ganhar, mas lá estarão no treino seguinte a melhorar a equipa de acordo com os seus princípios de jogo e não é um resultado fortuito que lhes tolda o ver o quão longe a equipa está do ideal. Porque é disso que se trata, de melhorar para ganhar de uma determinada maneira e não duma maneira qualquer (tal como no último post assinalámos usando o exemplo do Vitória SC de Luís Castro).

Eduardo Berizzo, preferiu manter-se no caminho em que acredita, com os seus valores e princípios, do que ser incoerente. Estará errado em tudo porque perde?

O insucesso de alguém dá-nos o atrevimento para interferir e dá uma segurança (insensata) de que a nossa opinião é válida perante o fracasso do outro. Coloca-nos em pé de igualdade com quem perde.

A ideia do treinador (no geral) e as características dos jogadores (no pormenor) dão o rumo a seguir, trair isto é abdicar do sentido que guia a equipa e isto dificilmente levará à vitória. Devemos até ter em conta que cada treinador vê nos mesmos jogadores possibilidades diferentes, condicionados que estão pelas suas experiências passadas e pela forma como foram idealizando o jogo na sua cabeça. A vontade de ganhar tem que estar sempre articulada com a forma de o fazer. Preocupante é quando o fim justifica "qualquer maneira".

"Se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve." Lewis Carroll


a) conferência de imprensa pré-jogo de Eduardo Berizzo ao serviço do Athletic de Bilbao durante a época 2018/2019
 
P.S. Fascinam-nos aqueles treinadores que mesmo nas dificuldades e nos maus resultados se mantém fieis aos seus princípios (no jogo e no carácter). Daí esta reflexão. Pena que poucas vezes no futebol se vê um treinador (junto com os jogadores… e todo um clube) ter oportunidade de dar a volta a uma situação complicada, pois ninguém dá tempo para que isso suceda, à mínima dúvida já está tudo à espera da solução "inevitável" (que já é cultural) e que promove a desistência para se recomeçar de novo. Faz-nos pensar no que é verdadeiramente essencial, porque nos maus momentos é a isso que nos devemos agarrar. Num momento de tantos conflitos torna-se ainda mais importante conseguir distinguir o essencial do acessório, estabelecendo prioridades e arranjando soluções, este contexto de dificuldade sem dúvida que tem tanto de aliciante como de difícil. Daí que estes exemplos fossem um grande motivo para aprendermos... todos.

terça-feira, 21 de maio de 2019

O Caminho faz-se caminhando...


Luís Castro – O discurso em sintonia com o percurso

As palavras podem ser muita coisa... por vezes leva-as o vento dada a sua leviandade, outras vezes procuram esconder a verdade, mas também podem ser uma manifestação sincera das nossas intenções, ainda que não se manifeste essa intenção na acção, no imediato.

O tempo, para Luís Castro, tem-se traduzido num grande crescimento como treinador e é um daqueles casos em que o discurso (intenção-ideia de jogo) está em completa sintonia com o percurso (acção-jogar das suas equipas).

Para nós é claro que aquilo que pretende se vê como intenção desde os primeiros jogos da sua equipa, mas há algo fundamental e que por muitos é confundido com incoerência das ideias. Muita gente se manifestou contra escolhas ("já se está a vender em função do resultado"), porque mais uma vez a pressa cega-nos e não se percebe que criar algo leva tempo, dar um sentido comum a 25 cabeças leva tempo. Já para não falar na perda da espontaneidade que origina a pressa de forçar o aparecer de um padrão, o jogar tem que ser inCORPOrado e não memorizado, tem que ser sentido. Leva tempo, ainda mais em contextos onde não se admite o erro e muito menos o errar sobre algumas ideias pré-concebidas, por se jogar em zonas onde se gera ansiedade em quem não tem controlo sobre a bola - claramente quem está fora pouco controla, ainda que o assobio e o “não jogues aí” sejam uma tentativa de controlar algo que se está a tentar criar em treino, quase como que um tentar destruir aquilo para o qual se anda a trabalhar e isto é algo com o qual se deve contar e por isso se deve preparar com treinos no limite onde o risco se sinta como tal e se trabalhe para alcançar a segurança em qualquer zona do campo. É precisamente para isso que cada exercício existe, para criar uma estabilidade naquilo que é o jogar que o treinador pretende que a equipa alcance.

Luís Castro, nunca abdicando das suas ideias, soube equilibrar a sua interferência na equipa. Ou seja, não procurou mudar tudo à pressa nem à pressão, mas ao mesmo tempo notou-se que desde o início do processo o caminho se fez no sentido do jogar que pretende para este (também) seu Vitória SC.

A escolha do 11 sempre respeitou aquilo que a equipa necessitava em função do que já tinha alcançado em termos de jogo (notou-se essa intenção clara). Ou seja o jogo vai-se construindo com jogadores e sendo pessoas são fruto de experiências e é na repetição que a cultura se vai instalando, alguns treinos criam alguma coisa, mas não são suficientes para criar nada tão complexo, portanto é preciso ir vendo como está o jogo e que estabilidade ele tem e que jogadores precisa para colmatar a falta de fluidez em determinados momentos e ir vendo se alguns jogadores funcionam bem com outros, tendo em conta o jogar actual (que efectivamente a equipa joga).

Pareceu-nos que as suas primeiras prioridades para controlo do jogo foram na tentativa de dar equilíbrio à sua equipa por forma a impedir o adversário de ser vertical no momento de perda. Indicadores claros de que o caminho se faz caminhando, mas como qualquer construção requer tempo e mesmo depois de se alcançar a dita estabilidade muito tem que se continuar a aprender para nos mantermos estáveis, algo que ao longo da época se percebeu que não é coisa fácil. Ganhar dá-te tempo e dá crença naquilo que se faz, é óbvio que o resultado como que dá ritmo ao processo, por isso mesmo é necessário que o jogar se construa a ganhar. A forma como entendemos isto, é que nunca o jogar pode ser comprometido pelo ganhar, nem o ganhar pode ser comprometido pelo jogar, porque um contribui para o alcançar do outro… vida de treinador é viver com a sua ideia de como ganhar, num jogo onde tem que convencer “25” jogadores das suas ideias. O treino é a melhor forma de se convencer o grupo, porque os prepara (consciente ou inconscientemente) para que se sintam capazes de ir cumprindo com aquilo que é a proposta de jogo do treinador.

Fica então um vídeo onde o discurso demonstra aquilo que foram as intenções do Mister Luís Castro e da sua equipa técnica ao longo da época 2018/2019. Ficamos a perceber um pouco daquilo que foi o caminho, com altos e baixo, mas em crescendo, até ao jogo contra o Moreirense que permitiu subir ao 5º lugar. Fica bem patente que para alguns treinadores/jogadores o resultado faz mais sentido quando alicerçado num jogo que une toda a gente em torno de um jogo de qualidade.


a) conferências de imprensa pré- e pós-jogo de Luís Castro ao serviço do Vitória SC durante a época 2018/2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Guardiola e a pergunta esperada!


Agora fala-se de recordes e do lindo que é o sucesso de treinadores, de jogadores, e de todo o staff de um clube, mas aqueles que hoje ganham (e perdem) percorreram um caminho... o deles, melhor ou pior, com altos e baixos... o fundamental é que sintam que esse foi o caminho que escolheram, aquele que quiseram percorrer independentemente do resultado final, mas sempre pensando que esse seria o percurso que os aproximaria do triunfo e do crescimento.

Ora, há uns meses Manchester city estava a 7 pontos do Primeiro classificado (Liverpool), condenado a entregar o campeonato caso nada mudasse na forma como procuravam disputar o jogo. Nessa altura surgiu a inevitável e previsível pergunta, que nada mais é que o espelho duma sociedade superficial e com um pensamento que, de tão linear, reduz o potencial de transcendência que temos dentro de nós. Urge maior diversidade para que haja mais alternativas e assim espaço para quem valoriza mais o que é feito sem espera que surja o resultado.

Vencer é o raro, não o comum. Ser o melhor mais vezes do que aquelas em que não se é o melhor, é algo raríssimo (se é que existe... durante uma vida inteira). Portanto, o essencial é melhorar sempre, isso está ao alcance de todos, ao passo que vencer (no sentido de ser o Primeiro) está ao alcance duma minoria. Em centenas de equipas que integram todas as divisões do futebol Inglês, por exemplo, só uma vai ser "a melhor". Portanto, vencer é para UMA só, mas melhorar tem que ser para todas, e temos que encontrar motivos para melhorar tanto nas vitórias como nas derrotas (o caminho é tudo e tem de tudo).

Dito isto, vencer não pode ser um medidor da qualidade dos estilos, vencer (no máximo, se tudo correr bem) é o medidor da qualidade das equipas, dos seus jogadores e da forma como jogaram numa determinada época.

Vamos lá imaginar que toda a gente jogava segundo um só estilo e só existia um tipo de jogador, ainda assim só um ganharia. 20 equipas com um só estilo implicava (na mesma) ter 19 equipas a fracassar, e só uma a vencer. O fracasso desse estilo seria muito maior do que o triunfo (19 - 1, goleada das antigas).

A questão é: o que resta aos normais? No fundo, o que resta aos treinadores (humanos) que perdem mais títulos quando comparado com o número de títulos que ganham? (Ou seja todos os treinadores). Se todos queremos ganhar mas quase ninguém ganha, o que é que nos move?

Consideramos duas coisas fundamentais:

- a superação que se reflecte na procura de soluções para os problemas (do jogo, essencialmente) que geram aprendizagem e por isso desenvolvimento;
- as crenças (que se traduzem em princípios/valores que definem aquilo que nos guia) que são fruto das nossas experiências. As crenças vão-se aperfeiçoando desde que não deixem de orientar o processo de crescimento (da forma de jogar da equipa).

Estas são duas condições fundamentais e que devem ser à prova de bala (neste caso de derrotas ou de dificuldades), tal como Guardiola fala.

Melhorar implica uma mudança, mas melhorar não é mudar. Porque procurar soluções para aquilo que não fazemos bem não implica mudarmos aquilo que é o nosso estilo ou a nossa essência, é simplesmente corrigir erros. Mudar de crenças/de ideias/de filosofias (que no fundo são também muito de que nos caracteriza) é perder o rumo e assim sendo é deixar o processo entregue ao aleatório e à anarquia. Porque saltitar entre "crenças" é não ter crenças nenhumas, é perder sentido da nossa missão e é perder a capacidade de orientar o processo. Neste caso, o que nos moveria e segundo que perspectiva iríamos ver o jogo para procurar o porquê de ganharmos e porquê de perdermos?

A crença é o que nos mantém no caminho do desenvolvimento independentemente das dificuldades e dos obstáculos. A superação é aquilo que nos permite melhorar a cada momento do processo e assim aprender a melhor ultrapassar os obstáculos. Assim sendo ambas nos colocam mais perto de ganhar.

Sem crenças (algo que nos define e guia no jogo e na vida) e sem a vontade de nos superarmos seria uma questão de tempo até que tudo deixasse de fazer sentido, para nós e para quem nós orientamos.

A pergunta que deveríamos fazer a nós próprios em momentos difíceis não é aquela que foi feita ao Pep, deveria antes ser a seguinte: Como e em que é que eu, com as crenças que me definem e me dão uma tendência para resolver os problemas do jogo de uma determinada forma, posso CONTINUAR a melhorar a minha equipa e os meus jogadores?


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

quinta-feira, 21 de março de 2019

Respeitar o presente da equipa/dos jogadores com o futuro no horizonte


Já muito aqui se falou da necessidade de uma Ideia de Jogo por parte do treinador que, resumidamente, é um conjunto de princípios (orientadores) de jogo, absolutamente fundamentais para sustentar e dar um sentido a todas as dinâmicas, todas as decisões e toda a expressividade individual dos jogadores. São no fundo os pilares com os quais o treinador acredita estar mais perto de controlar, dominar e ganhar o jogo.

O treino tem sempre como propósito construir uma EQUIPA, no sentido de gerar interacções cada vez mais coerentes, fluídas e que dêem espaço para que cada jogador se possa expressar em campo de acordo com o seu potencial. Mesmo que não houvesse treinador a equipa iria sempre crescer qualquer coisa com o facto de jogar junta, o entrosamento iria ser cada vez maior e iria gerar-se ali uma auto-organização e uma cultura própria. Por exemplo, se o Guarda-redes (independentemente do potencial para fazer diferente) nunca tivesse tido referências de sair curto em segurança o mais provável é que não se sentisse confortável em fazê-lo mesmo com algum espaço para e por isso a saída iria sempre ser longa a não ser que os Centrais insistissem com ele ou o contrário ele querer e os DCs. ou Laterais insistirem para meter no Ponta, mas e se o Ponta não conseguisse sequer promover a segunda bola?

Talvez tenha sido daqui que se tenha pensado: "E se nomeássemos alguém para orientar isto? Para dar um sentido comum a todos?" Mas, como é óbvio, a necessidade de haver treinador não surgiu com a intenção de subtrair potencial aos jogadores, nenhum treinador que entenda o jogo quererá que isso aconteça, por mais que não seja, porque sabe que isso o afastará de triunfar. O que preenche verdadeiramente muitos treinadores é chegar a todos os jogadores do plantel e ajudá-los a crescer e a perceber/senitr que a sua evolução individual depende muito dos companheiros que os rodeiam – isto tem que ver com os tais princípios que promovem a interacção de determinada forma específica.

Queremos com isto chegar ao ponto em que o treinador que fecha todas a possibilidades do jogo na sua ideia, não está a respeitar o conceito de "Princípios". "Se são princípios é porque não são fins" (Professor Vítor Frade) e não sendo "fins" não são fechados, simplesmente procuram orientar e este orientar não é limitar, bem pelo contrário, é ampliar as possibilidades de cada jogador poder antecipar aquilo que mais ou menos poderá acontecer, pois há referenciais que permitem isso e, num jogo onde os jogadores têm que decidir em fracções de segundo, ter esta ajuda (sim estamos para ajudar) é claramente uma mais valia e eles próprios sentem isso.

Precisamente porque o treinador não limita as possibilidades do jogar da equipa aos grandes princípios, é que Guardiola dá imenso espaço para também ele se “deixar guiar” pelos seus jogadores, pelas suas qualidades e pela sua qualidade, pelo que vai aferindo no dia-a-dia. Assim, tendo Busquets, Xavi, Iniesta e Fabregas decidiu que poderia muito bem jogar num 3-4-3 de forma o poder tê-los a todos em campo e assim estar mais perto de controlar o jogo tal como o entende e como a sua equipa estava preparada para o jogar, porque isto influencia muito.

Aquilo que orienta as decisões/escolhas do treinador, tanto em termos de exercícios, como do que irá ser a semana em termos aquisitivos/recuperação e até a convocatória, o onze titular e as próprias substituições é: a sua concepção de jogo que dá uma lógica a longo prazo ao processo, é o potencial dos jogadores para crescerem nesse mesmo processo, é o adversário, é aquilo em que a partida se tornou e a necessidade de dar continuidade ou de recuperar o controlo, etc., mas também é aquilo que a equipa faz no presente e que lhe garante a possibilidade ou não de controlar/dominar o jogo, ou seja, “nós queremos caminhar neste sentido e estamos a tentar evoluir os jogadores desta forma para lhes dar mais condições para que esta identidade seja cada vez mais coerente e sem ‘dúvidas’, mas tendo em conta o que somos enquanto equipa HOJE, com que jogadores (não esquecendo os seus estados de espírito) estaremos mais perto de o fazer neste momento?”

Consideramos ser esta uma das questões mais difíceis de responder, porque se trata de avaliar constantemente e de decidir em função dos jogadores e daquilo que juntos (jogadores e treinador) fomos capazes de construir até ao “aqui e agora”, porque isso é o que somos (não somos no passado nem o futuro, somos o que somos) Conciliar isto com a importância de seguirmos o caminho que nos garanta melhorar... é esta a arte, a de misturar isto tudo e conseguir, a cada passo que a equipa vai dando (no sentido de construir uma identidade e um estilo “à prova de bala”), perceber aquilo que é necessário, em função do momento em que nos encontramos, para que os jogadores se sintam bem e consigam controlar e dominar da melhor forma possível o jogo (o próximo).

Esta sensibilidade foi a que fez o Guardiola avançar para o 3-4-3 percebendo que havia condições para o fazer sem perde de fluidez em todos os momentos e com ganhos de criatividade e de entrosamento entre todos. Noutros casos é o jogador de determinadas características e que ainda não tem o estatuto necessário e por isso mesmo, por causa desta mesma questão, o treinador sente que não será o momento, não há o mínimo de sustentabilidade do jogo da equipa para que ele possa ir e mesmo que a coisa não seja perfeita a equipa tem bases para suportar as suas debilidades.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

"Jogar com coragem e carácter!" Pep Guardiola


A coragem (eventualmente também a garra, a vontade de ganhar) deve surgir sempre ligada a princípios que são aquilo que dá sentido a todas a emoções e que nos orientam nos bons e maus momentos. Estes dois conceitos – coragem e carácter – têm que estar sempre relacionadas com a ideia da equipa, uma vez que nos dão uma enorme capacidade de gerir as dúvidas na adversidade. No fundo, é o que nos faz acreditar que aquilo que repetimos, que treinamos sempre, que nos define como equipa diferente das outras é o que tem que se manifestar, especialmente nos momentos onde tudo nos faz questionar se não será melhor abandonarmos o que nos define em termos de valores/princípios.

É aí, no meio da ruidosa e impaciente dúvida, que assalta os seus jogadores, que o treinador procura transpirar e inspirar quem o rodeia desde a ideia e desde a crença, de forma a mudar o sentimento negativo e fazer emergir novamente o entusiasmo pelos princípios que sempre nos caracterizaram e que são no fundo o caminho que liga a equipa e por isso a coloca mais perto de ganhar. A melhor forma de dissipar as dúvidas quando não há tempo é mudando o estado de espírito e para isso muito mais do que passar informação importa passar emoções (ainda que sempre associadas a um conteúdo). Agora, não custa nada reconhecer que não é fácil mudar as más emoções de um, imagine-se de 18. Por isso é que, sem se sentir o jogo que se transmite acima de qualquer coisa, a tarefa torna-se impossível.

Optar por abandonar aquilo que sempre fomos num momento de aperto é como atirar uma moeda ao ar e perceber se isso resolve os nossos problemas. Como é óbvio, fazer isto constantemente (alterar o que somos) é não ter um rumo, é não sermos nada, é sermos (ou não sermos) algo que existe exclusivamente em função dos outros, sem nos termos a nós próprios em conta. Temos que nos assumir mais vezes (treinadores e jogadores - Equipa) como preponderantes na forma como vamos jogar, por uma questão muito simples: nós somos aquilo que se repete em todos os jogos e portanto tem que haver algo que alimente o processo a longo prazo e isso são os princípios da equipa e as características dos jogadores.

Na adversidade busquemos as emoções que nos trazem de volta àquilo que somos. Tenhamos a coragem de sustentarmos o nosso jogar na essência que nos define e a partir daí buscar as nuances que podem solucionar os problemas que os outros nos colocam.


a) o vídeo aqui publicado é um extrato do documentário “All or Nothing” lançado pelo Manchester City a 17 de Julho de 2018

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Simbiose: "IDEIA do TREINADOR - QUALIDADES dos JOGADORES" Parte III



A derrota não nos muda. A derrota, como qualquer experiência, faz-nos aprender, se atentos estivermos e formos capazes de perceber o que devemos fazer, para que, com a nossa ideia e os nossos jogadores, possamos encontrar as soluções para os problemas.

É sempre o mesmo: experienciar (bons momentos ou maus momentos), perceber o porquê de ter corrido bem ou mal e aprender com isso.


- Trata-se de querer ganhar "a jogar assim" e se perder que seja "a jogar assim" e se empatar é "a jogar assim". Melhorar para "jogar melhor assim". Felicidade é ganhar "a jogar assim"... uma coisa não existe sem a outra. Não, não nos serve de qualquer maneira.
- Onde nascem os nossos valores? Crescem connosco influenciados por uma cultura que nos cerca e também por pessoas ou experiências mais particulares que nos possam ter marcado mais;


- As intenções honestas estão super desvalorizadas na sociedade, as boas são sempre e só aquelas que têm sucesso e é precisamente pelo sucesso que somos sempre julgados. Melhorar é o sucesso de todos, triunfar será o sucesso de alguns.

- Fim -

sábado, 12 de janeiro de 2019

Simbiose: "IDEIA do TREINADOR - QUALIDADES dos JOGADORES" Parte II

  

O respeito pelas características dos jogadores será sempre tido em conta, mais ainda à medida que o treinador os vai conhecendo, como é óbvio. Mas não poderá haver qualquer tipo de negociação no que aos grandes princípios diz respeito, a continuidade destes é a garantia de estabilidade e por isso de crescimento individual e colectivo. Essa ordem, dada pela operacionalização da ideia, permite que os jogadores joguem uns em função dos outros e que se vão conhecendo entre eles também (dentro dessa ordem), de forma a poderem antecipar uma série de coisas que no jogo se reflectem em mais tempo e mais espaço para poderem ser eles (segundo as suas melhores características) mais vezes.


De forma resumida, também temos o recrutamento dos jogadores que se enquadraram melhor naquilo que é o estilo de jogo da equipa e a ideia do treinador. Esta é uma parte fundamental para encurtar o tempo desta adaptação, de forma a que o treinador não tenha que perder tanta energia a convencer um jogador que não se quer deixar guiar e também para que o jogador se sinta mais “confortável” na forma de jogar da sua equipa o mais rápido possível. O "deixar-se guiar" é muito importante, assim como a capacidade do treinador convencer os jogadores, mas sem a primeira é certo que a segunda será uma tarefa impossível.O treinador e a sua ideia como um conector dos jogadores (com as suas qualidades) e da forma como ele entendem que o jogo deve ser jogado. Ainda que estejamos sempre num segundo plano, porque a decisão final é sempre do jogador (e assim deve permanecer, porque o jogador tem que ser sempre proactivo na resolução dos problemas que o jogo coloca), nós treinadores temos que assumir a tarefa de levar a cabo a nossa ideia e através dela darmos um sentido comum a todas as "cabeças" da equipa.


A importância de conhecer os jogadores que temos e essencialmente aquilo que eles são dentro do jogo que a nossa equipa joga (no presente), que não é o mesmo com uma semana de treinos ou com 4 meses, por isso é necessário ir percebendo que mudando o contexto (com o crescimento/a melhoria da forma de jogar) muda também aquilo que o jogador dá e a sua adaptação (individual) pode torná-los em jogadores mais capazes de acrescentar qualidade ao "estilo". É importante ir conhecendo e moldando, dando sempre espaço para que as qualidades que diferenciam uns jogadores dos outros possam sobressair e acrescentar qualidade ao jogo.

 

São então esses princípios que dão semelhanças às diferentes equipas que o mesmo treinador for treinando ao longo da sua carreira. Por outro lado a mudança de jogadores (com a mudança de equipa por parte desse mesmo treinador ou pelas eventuais contratações) também nos fazem identificar detalhes diferentes. Exemplos:

- tendências na forma como servem para golo;
- numa equipa maior acentuação do jogo interior do que noutra.

A estabilidade dos princípios (no percurso do treinador) tem que ser entendido como algo essencial. Não é uma teimosia, é uma necessidade, é uma crença, é um sentimento, são valores e só quando assim é se torna possível contagiar toda a gente no sentido de criar algo que nos une a todos. Mas nunca os grandes princípios interferem nas características dos jogadores, pode acontecer que o estilo promova uns mais uns jogadores em detrimento de outros, mas ao mesmo tempo é capaz de permitir que as individualidades acrescentem qualidade/imprevisibilidade/diversidade/criatividade à forma de jogar da equipa.

Continua...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Simbiose: "IDEIA do TREINADOR - QUALIDADES dos JOGADORES" Parte I


Há a qualidade do jogador e há as qualidades do jogador.

Há princípios, que orientam a equipa, e há características dos jogadores.

A adaptação (que é um processo complexo) da ideia do treinador aos jogadores, e vice-versa, pretende-se que seja uma simbiose… todos saem a ganhar.

Este processo em que o treinador procura convencer os jogadores necessita de uma certa abertura, de um deixar-se guiar por parte dos jogadores, para mais tarde se gerar uma crença que dá mais tempo e serenidade para que a equipa possa crescer com o crescimento da ideia que se concretiza na forma como se joga.

Isto é, sem dúvida, o que mais interfere na forma como a equipa joga. Por um lado a capacidade do treinador convencer os seus jogadores a ligarem-se aos seus princípios por outro as características que os jogadores têm, que são sempre muito importantes porque é no fundo o que dá imprevisibilidade e criatividade à forma de jogar. Poderíamos falar em centenas de exemplos de treinadores que não abdicam do que sentem (este SENTIR vem das entranhas) que é fundamental, mas vamos focar-nos no Pep Guardiola (tão pouco foi um acaso), recorrendo a entrevistas que foi dando ao longo dos anos, desde que assumiu o cargo de treinador do F.C.Barcelona.

Esta será a Parte I de III, onde a reflexão estará direccionada para o tema: a simbiose entre a ideia de treinador (princípios inegociáveis) e aquilo que são as características dos jogadores que irão determina a dimensão mais micro (que é o "estilo" de cada jogador) da forma de jogar, sem interferir naquilo que é o "padrão macro" do jogo que o treinador sente como sendo o melhor caminho para ganhar (que no fundo é a forma como o treinador vive, vê e entende o jogo).


Quando o grande desafio é implementar uma ideia para com ela se ganhar. Nunca pode ser de qualquer maneira ou ganhar por ganhar. Tem sempre que haver algo que nos guia. Os valores que queremos construir e ver dentro das quatro linhas são o desafio, valores que vão além dos princípios de jogo, pois também se manifestam no carácter humano.

Percebe-se também que há uma infinidade de coisas que vão exigir da ideia determinadas soluções, para que a forma de jogar se manifeste fluída e para que possamos controlar o jogo em função daquilo que, não dependendo de nós, irá criar possíveis problemas. Uma dessas influências externas pode ser a permissividade dos árbitros. Esse "critério" irá interferir na forma como o jogo se desenrola e portanto a nossa equipa terá que ser preparada para lidar com isso e ainda assim impôr aquilo que nos caracteriza como equipa (os tais macro princípios que "viajam" com o treinador).


Cada país, cada campeonato têm o seu padrão de problemas e claro que isso deve ser tido em conta nas soluções/dinâmicas a criar para resolver esses mesmos problemas. Não me refiro ao que é específico de cada adversário, refiro-me antes àquilo que se manifesta com regularidade nos adversários que compõem a competição.
Isto exige que o nosso jogar esteja preparado, para que, mais uma vez, sem nos mudarmos, nos possamos adaptar, de forma a encontrar os melhores caminhos que levam o jogo para o registo que melhor se enquadra com aquilo que somos enquanto equipa.


Perceber que o "estilo" e "ganhar quase sempre" podem caminhar juntos ou não. O que aproxima o estilo do triunfo uma grande quantidade de vezes (e que conduz a títulos conquistados) é a qualidade dos jogadores. Porque quanto maior for a qualidade dos jogadores e a harmonia deles com a ideia de jogo do treinador, maior será a eficácia daquilo que são os detalhes e por isso maior será a possibilidade de ganhar títulos. Mas para se jogar de determinada forma não é necessário ter os melhores. Um estilo manifesta-se melhor ou se preferirem manifesta-se de forma mais harmoniosa e em menos tempo, com jogadores de determinadas características, isso sem dúvida, mas não necessariamente têm que ser os melhores para que determinado estilo surja numa equipa.

Se ganhar for exclusivamente o que nos guia, sem que haja uma forma, uma identidade que sustenta a procura da vitória, acabaremos por nos perder no caminho. A ideia tem que prevalecer e essencialmente tem que existir, porque quando perdermos (toca a todos) haverá sempre algo mais importante para nos manter no caminho certo.

Continua...

Sentir para fazer Sentido



Entender não basta, pois só sentido ganha sentido máximo!! Como a emoção que vem antes do pensamento. Jogar tal como respiramos. Jogar como se dependêssemos da forma de jogar, da ideia acima de tudo, para sobreviver

Treinador domina muitos porquês, vive 24 horas o jogo e os jogadores da sua equipa, mas para decidir de forma coerente tem que vir do fundo da alma, tem que estar em cada célula como o ADN!

Grandes os que sentem e pensam o mesmo. São raros e geniais aqueles que conseguem, com clareza, pensar sobre o que sentem e fazem.