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domingo, 28 de abril de 2019

Toni Nadal: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida!"


No outro dia publicamos 👉 aqui um vídeo em que Sarri e Guardiola falavam da importância do foco estar naquilo que poderemos controlar, aquilo que depende da nossa equipa – "Melhorar o Desempenho" e vermos nas dificuldades uma oportunidade de nos superarmos.

Toni Nadal e o seu sobrinho, Rafael Nadal, são um exemplo de como a mentalidade certa nos permite alcançar ou até transcender o nosso potencial presente. Uma mentalidade que não se refugia na desculpa fácil, faz-nos sentir responsáveis pelas coisas boas que fazemos e mais importante e raro por aquilo em que não estivemos tão bem e que se repercute nos erros que cometemos. Perceber e aceitar isto com naturalidade e com o menor conflicto (interno/externo) possível é essencial para a evolução.

Importantíssimo lidar com esta responsabilidade desde o ponto de vista do desenvolvimento e não do ponto de vista da frustração (prolongada), algo que nos afunda na apatia e no "colocar de lado" algo pelo qual tivemos, em tempos, uma enorme paixão. Isto necessita de educação, não é fácil nem aleatório que se adquira esta predisposição para ser “alguém que assume a responsabilidade" de forma natural e positiva. Se não houver bons exemplos à nossa volta, ou seja, se não houver uma cultura onde o "fracasso" é uma oportunidade para melhorar e não uma oportunidade para arranjar desculpas que atenuem esse mesmo fracasso, então a formação fica comprometida.

Que auto-estima terá alguém que busca uma desculpa completamente irrelevante a cada obstáculo que encontra no caminho? E mais, o que tem uma criança a melhorar quando todos os erros são culpas do árbitro, do colega ou do treinador?

Relembramos que se trata de um jogo. Mas até tratando-se de uma doença a lamentação da desgraça, ou a procura de culpados para a nosso estado não traz a cura, pelo contrário. Assim como existe o "efeito placebo" que nos demonstra como a crença (por si só) de que algo é bom já produz uma melhoria, também existe o "efeito nocebo" cuja crença de que algo nos prejudica (por si só) já piora a nossa condição.

Por isso é tão importante não buscar culpados para o resultado. Procuremos aquilo que depende de nós, até porque "o que não tem remédio remediado está". A partir daí procuremos aquilo que pode ser solucionado e busquemos soluções que nos ajudem a resolver os problemas que nos são colocados (no futebol como na vida). É na busca das soluções, na busca daquilo que depende de nós que está o segredo para o desenvolvimento e o fundamental da formação/educação.


a) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Talento vai muito além da banalização de “Talento” (caso Manu Ginobili)


A banalização da palavra talento desvirtuou o conceito. Sabem quando de tanto utilizarmos determinada palavra erradamente acabamos por lhe perder/mudar o significado, foi isso que aconteceu ao “talento”. Ou isso ou então andamos a dar valor a coisas que por si só não são suficientes para serem tão valorizadas como são. Vou tentar dar uma ideia daquilo que para mim é o, chamemos-lhe, TALENTO TOTAL.

Quando se fala em talento referimo-nos sempre a algo que pode muito bem ser efémero, por se passar uma ideia de facilidade para o alcançar o estado a que se chegou e que dá uma autoridade eterna. Talento na boca do Mundo é sempre apenas parte daquilo que é necessário para se ser talentoso, é sempre o superficial e resume-se ao visível - o produto “final”. Isto para mim é o maior erro e é o que mais nos afasta da formação do/para o TALENTO TOTAL. Geralmente num jogador de futebol a análise do talento é circunscrita ao que faz com bola, porque só queremos fazer o que gostamos e geralmente quem só faz o que gosta perde qualquer hipótese de manter o talento, porque fazer só o que se gosta impede o talento de aparecer e impede até que apareça aquilo que gostamos de fazer. O segredo, como diz Toni Nadal, não é fazer só o que gostamos, mas sim gostar do que fazemos. E por isso não podemos desligar aquilo que fazemos, da mentalidade que permite manter e alcançar a cada dia "níveis maiores de talento". Sem tudo isto, talento seria algo passageiro, quando na verdade deveria ser continuidade e consistência, para que a resolução de problemas no jogo (também a nível emocional) fosse uma constante e deveria conseguir sobressair mesmo na adversidade sem cair em desculpas.

No fundo, defendo que o talento é muito mais do que aquilo que normalmente se diz. A mentalidade que demonstramos no jogo e no treino é talento e é duma importância enorme. Quem é que já ouviu o seguinte: "Eu se quisesse era melhor do que o Messi ou do que o Ronaldo. Tinha pés mas não tinha cabeça."? O que não tinha era capacidade para aproveitar o tal talento que se banalizou, e que não é mais do que uma mera habilidade sem potencial para ser mantida ou melhorada. Não tinha o talento necessário para se deixar treinar e desenvolver a cada dia, não tinha este talento de sacrificar tantas outras coisas em prol de melhorar a cada treino. Portanto é óbvio que o talento também está na mentalidade, uma grande ajuda para se melhorar por é ela que vai permitir ser talentoso no jogo, na época, na carreira, na vida.

O grande exemplo de Manu Ginobili - sendo ou não adepto de basquete, estes exemplos fascinam-me sempre, têm que ser estes os modelos a seguir, para mim serão sempre. Por tudo, no fundo pela “TOTALIDADE do seu TALENTO”.

Imaginem que aquele que é reconhecido como o que melhor joga, aquele que é o mais respeitado por todo o grupo, o líder natural, é também o que melhor treina e aquele que mais se deixa guiar pelo treinador no sentido de perceber o que se pretende dele e da equipa. É que não se trata de valorizar o treinador, esta mentalidade de deixar-se guiar está muito além dos benefícios para o treinador, é um benefício colectivo que o "líder natural" se deixe treinar sempre nos limites.

Isto é para mim o TALENTO TOTAL, tudo aquilo que ajuda a resolver da melhor forma possível cada situação.


a) extracto do programa: “La pasión según Sacheri” con Pepe Sanchez - 29 de julho de 2018

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As necessidades fundamentais do desenvolvimento



Melhorarmo-nos e (no caso de Gente cuja paixão é formar) melhorar os outros deve ser uma preocupação diária. Importa perceber as devidas diferenças entre o ensinar e o criar condições para que se aprenda e ainda que não fale disto ao longo das seguintes linhas importa ter isso presente, para se perceber que o ideal é que a vontade de melhorar parta de cada um ainda que hajam variadíssimas formas de “espicaçar” essa vontade.
 
Ora, para que se dê este "melhorar" constante, há algumas condições fundamentais:

1. "Amar o que fazemos!" (que não é o mesmo que "fazer (só) aquilo que gostamos"). Entender o conceito de “amar o que fazemos” como catalisador da aprendizagem é fácil. O que acontece é que, erradamente, damos por muita gente que quer retirar do processo tudo aquilo que a criança não gosta ou a faz sentir-se frustrada - “Medalhas para todos!”, “Não gostas de defender? Ok, tu só atacas!”, “Não se fala em perder ou ganhar no treino, porque isso faz ‘sofrer’ quem perde!”… é nefasto retirar do caminho da criança tudo aquilo que a incomoda, mas que faz parte da vida eu diria até que algumas coisas (na devida proporção) devem ser promovidas para que o desconforto surja e assim haja a possibilidade de ser ultrapassado, como uma vacina.

2. "Ter a noção de que não somos bons o suficiente!" - somos sempre um processo inacabado, por isso “aprender” é algo que nos deve acompanhar toda a vida. Esta noção temos que a ter dentro de nós, mas o contexto (quem nos rodeia e contra quem "competimos") tem que nos fazer sentir isso mesmo. Se o contexto for demasiado fácil e não nos causar qualquer desconforto, então a necessidade de melhorar nunca será tão grande. Não devemos depender exclusivamente da nossa consciência de que temos muito que melhorar, é necessário que o dia-a-dia nos faça sentir isso, precisamos de nos colocar em situações que provoquem em nós o aparecimento da mentalidade certa e que mantenham em nós os hábitos que nos aproximam da evolução.

3. "Saber que melhorar é algo difícil!" O desafio, o desconforto e o obstáculo como parte importante da aprendizagem. Isto está em tudo relacionado com o ponto anterior. Não se dar às facilidades. Ver na dificuldade um desafio e não um impedimento para alcançar o que queremos. Perceber que a dificuldade me dá um “empurrãozinho” até encontrar as melhores soluções, enquanto que a facilidade me permite resolver o problema de qualquer maneira – bem ou mal o resultado será sempre positivo, no imediato. Ter este gosto pela dificuldade é algo essencial para melhorar. Ter gosto por aquilo que nos custa alcançar, retirar prazer desse processo sentindo que por esse caminho há mais hipóteses de nos tornarmos melhores. Formar neste ambiente é sempre mais saudável do que mascarar tudo com injecções de confiança sem sentido do que é a realidade.

4. "Máxima <<ilusión>>!" Esta palavra que no vídeo aparece traduzida como "paixão" é mais do que isso, é um misto de muita coisa. É um conceito que envolve paixão, entusiasmo, esperança, sonho, vontade, crença... é tudo aquilo que nos leva à transcendência, é aquilo que perante todas as adversidades faz com que nos superemos, é o que, perante um problema difícil e que nos demonstra mais uma vez que "não somos bons o suficiente", nos faz procurar as soluções para a sua resolução.

Mas deixo-vos o vídeo onde fala quem sabe melhor.


a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dar o Melhor de Nós (Toni e Rafael Nadal)



O que é o desporto? Que valores implica? Que estado de alma fará sentido em quem o pratica? Formar, para além da especificidade que determinada forma de jogar o jogo exige é também formar ou tentar influenciar (dentro do possível, limitados que estamos pelo tempo) o carácter de quem treinamos.

Não há dúvidas de que com a formação se pretendem criar hábitos (nas várias dimensões que abrangemos enquanto humanos) e esses hábitos começam-se a criar desde cedo, tentando assim aproveitar todo o potencial com que nascemos. Como é óbvio isto implica a família como a grande responsável por uma formação que tenha por base (de preferência) bons valores. Começamos por algo essencial, que passa pelo tempo em que crianças se enamoram, se apaixonam por algo que irá gerar o impulso, o desejo de experimentar, só assim se pode chegar ao prazer de jogar (futebol, neste caso - sou bastante “egoísta” e acabo sempre por ir dar no mesmo tema). Mas é essencial que esse prazer por jogar tenha outra paixão e uns determinados hábitos associados, ou seja de preferência que jogar só faça sentido se for no sentido de buscar melhorar, que haja essa paixão (íntima - de quem pratica) por aprender, por fazer o melhor que se pode, de se implicar todo na intenção de fazer as coisas bem. Que a paixão pelo jogo seja com naturalidade e normalmente algo que acarreta exigência.

Fazer por fazer, quando falamos em formar para a vida e para o desporto de alta competição, não faz qualquer sentido para Toni e Rafael, nem para mim. Se o fazemos terá que ser com a máxima exigência. E aqui parece-nos essencial que o hábito seja promovido no sentido da exigência vir do próprio jogador, e não do treinador nem dos pais. Só assim se tornará num estado tão natural que de tão normal, de tão apaixonante passa a ser prazeroso até nos momentos de perda. Porque a tristeza momentânea não lhes retira o prazer. A frustração da derrota passa mais rápido quando vivemos para nos melhorarmos e para dar o melhor de nós. A realidade é que a felicidade (enquanto estado e não enquanto momento) transcende o resultado e transcende a emoção momentânea.

Na exigência e na intensidade máxima é quando o jogador se diverte, doutra maneira deixa de fazer sentido. Também é verdade que há quem só se consiga divertir, no desporto, sem a exigência de ter que dar o melhor de si. Tudo bem! Não se poderá é almejar grande aprendizagem com essa postura. Os miúdos devem ter espaço para decidir o que querem, conhecer as suas paixões e colocarem em si a exigência que eles quiserem, só assim eles serão honestos com eles próprios e com os outros, especialmente quando o desporto é colectivo. Mas reforço, mais uma vez, que é perfeitamente possível a diversão num contexto de exigência máxima (assim a exigência seja intrínseca e não extrínseca na forma de pressão) onde o “sofrimento” causado pelo esforço está presente, e há inclusive muita gente que só se consegue divertir desta forma.

Isto assemelha-se um pouco à questão do "ganhar" ou até à “paixão” na formação, por vezes esquecemo-nos que aquela ambição que, enquanto treinadores (ou os pais), temos de triunfar ou a enorme paixão que levamos cá dentro, deve existir no sentido de a transmitir aos jogadores, não como um fim em si mesmo, mas porque é neles que a exigência deve estar, é deles que deve partir essa vontade de ganhar e essa paixão, porque é essa vontade que gera neles a necessidade de solucionar os problemas do jogo. Com essa vontade de (solucionar os problemas para) ganhar e com essa tal paixão surge naturalmente a intensidade máxima, que lhes permite concentrarem-se no quebra cabeças que é determinado exercício/jogo. A partir daqui estão criadas as condições para um certo “auto-didatismo” que é muito importante, pois devemos reconhecer o nosso papel, essencialmente, de catalisadores de hábitos para que a cada dia haja maior autonomia; devemos ser alguém que os guia e intervém neste sentido de tornar normal esta capacidade deles exigirem o melhor possível de si próprios, sem necessitarem dum “fiscal da exigência”, quando chegam à adolescência e necessitam constantemente de alguém que os alerte para a importância de se focarem – a paixão não é suficiente ou a auto-exigência não condiz com o nível que o contexto/equipa exige. Daí a importância de se formar para que a paixão e a dedicação seja algo que desde cedo seja uma algo que está neles como vontade própria e não como exposição constante a uma pressão exterior para ter que gosta, só dessa forma autónoma a exigência se irá entranhar de tal modo que já não haverá outra forma de ser divertido.

Para além destes hábitos que acreditamos que lhes vão dar jeito para competir, isto é duma tremenda importância para a vida. Ultrapassar os momentos menos bons que a vida tem. O serem felizes (não a cada segundo, mas como algo que impele a resolução das frustrações), mesmo na adversidade, só é possível nesta capacidade de nos momentos complicados resistir. E sou da mesma opinião do Toni Nadal, de que o estado de felicidade e de satisfação pessoal é maior quando as coisas são difíceis de alcançar, mesmo quando temos que nos levantar uma e outra vez, por não termos conseguido ou porque sofremos algum imprevisto grave.

Cada um da sua forma... mas, no que puder contribuir, espero que "dar o melhor de nós" seja cada vez mais uma forma normal de actuar. E sem medo de que fiquem frustrados, porque com estes valores o prazer e esse estado de felicidade, vem essencialmente do esforço implicado no processo, e não exclusivamente do ganhar aos outros (ainda que conseguindo triunfar saiba muito melhor).



Proveniência dos vídeos (cortes):
a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;
d) Entrevista a Rafael Nadal retirada do documentário “Strokes of Genius” (Bonus Clips), 2018