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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dar o Melhor de Nós (Toni e Rafael Nadal)



O que é o desporto? Que valores implica? Que estado de alma fará sentido em quem o pratica? Formar, para além da especificidade que determinada forma de jogar o jogo exige é também formar ou tentar influenciar (dentro do possível, limitados que estamos pelo tempo) o carácter de quem treinamos.

Não há dúvidas de que com a formação se pretendem criar hábitos (nas várias dimensões que abrangemos enquanto humanos) e esses hábitos começam-se a criar desde cedo, tentando assim aproveitar todo o potencial com que nascemos. Como é óbvio isto implica a família como a grande responsável por uma formação que tenha por base (de preferência) bons valores. Começamos por algo essencial, que passa pelo tempo em que crianças se enamoram, se apaixonam por algo que irá gerar o impulso, o desejo de experimentar, só assim se pode chegar ao prazer de jogar (futebol, neste caso - sou bastante “egoísta” e acabo sempre por ir dar no mesmo tema). Mas é essencial que esse prazer por jogar tenha outra paixão e uns determinados hábitos associados, ou seja de preferência que jogar só faça sentido se for no sentido de buscar melhorar, que haja essa paixão (íntima - de quem pratica) por aprender, por fazer o melhor que se pode, de se implicar todo na intenção de fazer as coisas bem. Que a paixão pelo jogo seja com naturalidade e normalmente algo que acarreta exigência.

Fazer por fazer, quando falamos em formar para a vida e para o desporto de alta competição, não faz qualquer sentido para Toni e Rafael, nem para mim. Se o fazemos terá que ser com a máxima exigência. E aqui parece-nos essencial que o hábito seja promovido no sentido da exigência vir do próprio jogador, e não do treinador nem dos pais. Só assim se tornará num estado tão natural que de tão normal, de tão apaixonante passa a ser prazeroso até nos momentos de perda. Porque a tristeza momentânea não lhes retira o prazer. A frustração da derrota passa mais rápido quando vivemos para nos melhorarmos e para dar o melhor de nós. A realidade é que a felicidade (enquanto estado e não enquanto momento) transcende o resultado e transcende a emoção momentânea.

Na exigência e na intensidade máxima é quando o jogador se diverte, doutra maneira deixa de fazer sentido. Também é verdade que há quem só se consiga divertir, no desporto, sem a exigência de ter que dar o melhor de si. Tudo bem! Não se poderá é almejar grande aprendizagem com essa postura. Os miúdos devem ter espaço para decidir o que querem, conhecer as suas paixões e colocarem em si a exigência que eles quiserem, só assim eles serão honestos com eles próprios e com os outros, especialmente quando o desporto é colectivo. Mas reforço, mais uma vez, que é perfeitamente possível a diversão num contexto de exigência máxima (assim a exigência seja intrínseca e não extrínseca na forma de pressão) onde o “sofrimento” causado pelo esforço está presente, e há inclusive muita gente que só se consegue divertir desta forma.

Isto assemelha-se um pouco à questão do "ganhar" ou até à “paixão” na formação, por vezes esquecemo-nos que aquela ambição que, enquanto treinadores (ou os pais), temos de triunfar ou a enorme paixão que levamos cá dentro, deve existir no sentido de a transmitir aos jogadores, não como um fim em si mesmo, mas porque é neles que a exigência deve estar, é deles que deve partir essa vontade de ganhar e essa paixão, porque é essa vontade que gera neles a necessidade de solucionar os problemas do jogo. Com essa vontade de (solucionar os problemas para) ganhar e com essa tal paixão surge naturalmente a intensidade máxima, que lhes permite concentrarem-se no quebra cabeças que é determinado exercício/jogo. A partir daqui estão criadas as condições para um certo “auto-didatismo” que é muito importante, pois devemos reconhecer o nosso papel, essencialmente, de catalisadores de hábitos para que a cada dia haja maior autonomia; devemos ser alguém que os guia e intervém neste sentido de tornar normal esta capacidade deles exigirem o melhor possível de si próprios, sem necessitarem dum “fiscal da exigência”, quando chegam à adolescência e necessitam constantemente de alguém que os alerte para a importância de se focarem – a paixão não é suficiente ou a auto-exigência não condiz com o nível que o contexto/equipa exige. Daí a importância de se formar para que a paixão e a dedicação seja algo que desde cedo seja uma algo que está neles como vontade própria e não como exposição constante a uma pressão exterior para ter que gosta, só dessa forma autónoma a exigência se irá entranhar de tal modo que já não haverá outra forma de ser divertido.

Para além destes hábitos que acreditamos que lhes vão dar jeito para competir, isto é duma tremenda importância para a vida. Ultrapassar os momentos menos bons que a vida tem. O serem felizes (não a cada segundo, mas como algo que impele a resolução das frustrações), mesmo na adversidade, só é possível nesta capacidade de nos momentos complicados resistir. E sou da mesma opinião do Toni Nadal, de que o estado de felicidade e de satisfação pessoal é maior quando as coisas são difíceis de alcançar, mesmo quando temos que nos levantar uma e outra vez, por não termos conseguido ou porque sofremos algum imprevisto grave.

Cada um da sua forma... mas, no que puder contribuir, espero que "dar o melhor de nós" seja cada vez mais uma forma normal de actuar. E sem medo de que fiquem frustrados, porque com estes valores o prazer e esse estado de felicidade, vem essencialmente do esforço implicado no processo, e não exclusivamente do ganhar aos outros (ainda que conseguindo triunfar saiba muito melhor).



Proveniência dos vídeos (cortes):
a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;
d) Entrevista a Rafael Nadal retirada do documentário “Strokes of Genius” (Bonus Clips), 2018

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A Vantagem que é juntar gente com Talento, (bom) Carácter, Sacrifício e “Egoísmo”

Pepe Sanchez (Ouro Olímpico Basquetebol pela Argentina em Atenas 2004):


Dentro de uma grande equipa há talento, há associação, há gente com carácter, que se sacrifica e há confiança nas relações (ou terá que haver), mas também é importante sermos verdadeiros no que toca a reconhecer que há competitividade entre cada um. É importante reconhecer que cada um dos que jogam juntos quer ser o melhor e quer sê-lo (também) por uma questão intimamente ligada ao ego, mas isso nunca deverá impedir de levarmos algo mais dentro do nosso íntimo, que tenhamos também a intenção de fazer dos que nos rodeiam melhores e suportarmo-nos neles, como reconhecimento de que sozinho não posso nada, nada de relevante, nada do que ambiciono.

Associamo-nos por egoísmo (não no sentido depreciativo ou parasita, mas sim simbiótico); sabemos que em grupo somos mais capazes, porque no fundo sabemos e sentimos as nossas limitações (até no desporto individual precisamos dos outros), sabemos que "recorrendo" ao outro nos tornamos melhores. Competir com o outro faz-me aprender, ajudar o outro faz-me dar mais de mim, para que ele e eu possamos alcançar o que pretendemos. Até entre irmãos há competição e feroz, por ser melhor do que o outro (nunca no sentido de ter mais atenção do que o outro, isso já seria prejudicial), existe competição assim como existe entre-ajuda.
 

Parece mal assumirmos isto, mas quer assumamos quer não isto é natural e irá existir (esperemos) para o bem do ser humano. A nossa bondade consciente é que não consegue entender esta competição benéfica para todos e fomos (alguns) tentando reprimir este nosso ego que deseja que sejamos os melhores. A verdade é que sempre houve (continua a haver) muita gente a usar os seus desejos, os seus egoísmos e esta competitividade num sentido corrosivo e que nem nos torna melhores a nós nem aos outros. Queremos ser melhores pela falência dos outros, queremos ser maiores no estatuto e não pelo nosso esforço e cooperação. É claro que isto ao invés de gerar associação gera isolamento e mata a dignidade e a humanidade.
 
Isto é o que acontece quando se compete pela atenção ou pela fama, no fundo pelo reconhecimento de quem vive fora do processo diário. Não é isso que queremos alcançar ao deixarmo-nos levar pelas ambições individuais do nosso ego. O que queremos é competir pela melhoria, ou seja, competir com a intenção de nos tornarmos melhor do que o outro através do sacrifício e do trabalho, e se dentro duma equipa cada um aceitar isto, então vamos acabar por reconhecer inevitavelmente que o nosso desenvolvimento gera melhorias nos outros e vice-versa e aí não mais iremos desejar o mal dos outros pois iremos também beneficiar do seu crescimento. É este desafio constante entre todos que impulsiona o crescimento de todos e torna a equipa mais forte. É este o lado saudável do “egoísmo”, aquele em que desafiamos os outros a fazer melhor do que nós e ao mesmo tempo nos desafiamos a nós a fazer melhor do que os melhores, sem esperar ser melhor pelo fracasso do outro, é querer ver a melhor versão de cada um dos nossos companheiros e tentar superarmo-nos na tentativa de superar quem nos rodeia (é isto o treino numa verdadeira EQUIPA).
 
Tentemos entender o que Pepe Sanchez e este texto pretendem dizer quando se referem à vantagem do "egoísmo" (junto com outras coisas). Entenda-se este conceito como algo que pode beneficiar uma equipa. Este instinto pela sobrevivência sem perda da dignidade. Para serem campeões Olímpicos Pepe Sanchez diz que foi importante reconhecer que cada um dos jogadores da equipa tem motivações egoístas, mas também diz que o sacrifício, o talento e o facto de serem boas pessoas foi importante. Essa simbiose onde gente de bom carácter torna o “egoísmo” um benefício comum onde todos ganham na associação. Mas também devemos perceber esta associação só faz sentido e só terá continuidade na base do “dar e receber” (natural, genuíno, mútuo e constante) que nos mantém juntos e unidos para alcançar coisas que sozinhos jamais conseguiríamos!!

 

Extrato do programa: La pasión según Sacheri - 29 de julho de 2018

sábado, 19 de janeiro de 2019

A virtude estará entre o começar e o alcançar

Como se percorre o caminho entre o Começar e o (não) Alcançar?

No seguimento do post anterior surge mais um acrescento, mais uma questão que importa colocar sempre, porque mesmo quando achamos que uma ideia está acabada, percebemos que há sempre algo que podemos acrescentar ou adaptar, como Vítor Frade diz sobre a Periodização Táctica: “Está pronta, mas não está acabada!”. Assim são as coisas complexas não lineares, vão-se moldando e melhorando sem nunca perderem a sua essência.

Será o sucesso por si só garantia de dignidade?

Ganhar (ou o processo na tentativa de) visto como um combustível que nos faz querer melhorar a cada dia é uma mais valia para crescer. Sem dúvida nenhuma que o querer triunfar nos coloca na busca constante de soluções para o fazer.
Mas “o Vencer” visto como algo que justifica todos e quaisquer meios ou soluções, mesmo que pouco meritórias, usadas para se alcançar sucesso esse que se pretende a qualquer custo, isso já me preocupa.


"No MEIO estará a virtude". Não no centro por ser o que chama a atenção e por isso nos orienta e também não é o “meio” por ser o que está entre as duas frases anteriores, naquele sentido mais vulgar de encontrar um equilíbrio entre ambas, o que se pretende é que a virtude esteja naquilo que nos “transporta daqui para acolá”. Temos que ganhar consciência da importância vital daquilo que fazemos entre o "princípio" e o "fim", entre o iniciar e o alcançar, ou seja valorizar o processo de “tentar” e aquilo que fazemos durante, só assim poderemos manter a "nossa sociedade" (aquela que vive no nosso dia-a-dia), ligada aos grandes valores.

O "meio", a viagem, a forma como fazemos o nosso caminho e o que vamos semeando nele, não nos pode ser indiferente. Não temos que ser conscientes e nem sequer o fazer propositadamente, mas é inevitável que alguém se vá cruzar com o caminho que fizemos e aí irá respirar do ar puro das árvores que entretanto foram crescendo por nosso cuidado ou então comer da fruta intoxicada que produzimos nos maus caminhos.

Valorizemos e cultivemos mais o trajecto do que o destino. Desfrutemos da viagem percebendo a sua essência.
E que o nosso ímpeto não seja só o de orientarmos pela vitória (por ser mais atractiva que ela seja no festejo), mas sim olhar para a forma como se constroem as coisas e seguir os bons valores, que o vencedor ou os que não ganharam porventura têm.
Não se trata de vitórias morais. Trata-se de entender o sucesso para lá da vitória, olhando para a intenção e a acção implicadas na sua concretização.