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domingo, 12 de maio de 2019

O “Melhorar” não é obrigado a dar a mão à “estatística”


A uma jornada do final da Premier League, é certo e sabido que o Manchester City irá fazer menos pontos do que na época passada e pode até não ganhar o campeonato que há um ano arrecadou com 100 pontos, ao passo que este ano fará 95 (derrota), 96 (empate) ou 98 (vitória).

Será possível melhorar piorando os resultados?

Se no futebol profissional, reformulando (porque parece-me que o exemplo é ainda mais impactante e esclarecedor), se num clube que está seguramente no top 10 Mundial se pensa assim, o que é que se anda a fazer na formação? Porque é que justificamos e julgamos o processo de aprendizagem como bom ou mau SÓ pelo sucesso/insucesso do resultado final?

Então?! Mas é possível tornarmo-nos melhores sem ter como referência o resultado passado? Sem colocar uma meta "matemática"? Sem elevar o número de pontos? Sem atingir uma melhor classificação do que o treinador anterior ou da que fizemos na última época? CLARO QUE SIM!

Quando foi que caímos no erro de medir o desenvolvimento (algo tão complexo) pelo resultado e pelos pontos acumulados? Julgava que a pontuação tinha sido criada no sentido de aumentar a competitividade, tornando assim a competição algo mais entusiasmante (como auxílio ao desenvolvimento e não como validação do processo). Como é que se medem desenvolvimentos (individuais/colectivos) numa tabela classificativa? Olhar para pontos acumulados e dizer que quem teve mais pontos corresponde à equipa que mais evoluiu é claramente usar linearidade para avaliar algo super complexo.

A "novidade" é (não digam a ninguém)... fazemos isto em tudo na vida, em tudo (por exemplo):

- a forma como se avalia nas escolas segue esta forma de pensar;
- a selecção de jogadores que é feita em função do resultado imediato sem perspectivar sequer quem tem mais talento ou melhor mentalidade, algo que com certeza influencia de sobremaneira o desenvolvimento;
- quem tem mais golos é melhor jogador (causa-efeito linear/única).

Esta lógica está espalhada por toda a sociedade... como um vírus... não nos escandalizemos que isto não é de agora. Curas? Primeiro perceber que isto é um problema, porque ninguém tem necessidade de se curar quando pensa estar bem e saudável. Depois é mudar este paradigma e levar os jogadores a olharem para aquilo que é o seu crescimento e o da equipa, e não para números, que podendo ser usados, não devem ser o essencial para se aferir a qualidade do processo, nem deveriam abalar a "crença" daquilo que vai fazendo de bom.

Refiro essencialmente os jogadores, porque são eles que mais ganham com esta forma de olhar o processo de desenvolvimento, pois é na sua formação/educação desde pequenos que se poderá mudar esta cultura onde o importante aparece numa folha de cálculo, numa tabela classificativa, que nos diz que somos melhores do que os outros no presente, mas não diz nada sobre o nosso desenvolvimento para o futuro, ou numa pauta cheia de números que são uma média tantas vezes baseada em aprendizagens mecanizadas e desprovidas de contexto dentro de quem as engole sem entendimento ou sentimento.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football”) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”

domingo, 28 de abril de 2019

Toni Nadal: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida!"


No outro dia publicamos 👉 aqui um vídeo em que Sarri e Guardiola falavam da importância do foco estar naquilo que poderemos controlar, aquilo que depende da nossa equipa – "Melhorar o Desempenho" e vermos nas dificuldades uma oportunidade de nos superarmos.

Toni Nadal e o seu sobrinho, Rafael Nadal, são um exemplo de como a mentalidade certa nos permite alcançar ou até transcender o nosso potencial presente. Uma mentalidade que não se refugia na desculpa fácil, faz-nos sentir responsáveis pelas coisas boas que fazemos e mais importante e raro por aquilo em que não estivemos tão bem e que se repercute nos erros que cometemos. Perceber e aceitar isto com naturalidade e com o menor conflicto (interno/externo) possível é essencial para a evolução.

Importantíssimo lidar com esta responsabilidade desde o ponto de vista do desenvolvimento e não do ponto de vista da frustração (prolongada), algo que nos afunda na apatia e no "colocar de lado" algo pelo qual tivemos, em tempos, uma enorme paixão. Isto necessita de educação, não é fácil nem aleatório que se adquira esta predisposição para ser “alguém que assume a responsabilidade" de forma natural e positiva. Se não houver bons exemplos à nossa volta, ou seja, se não houver uma cultura onde o "fracasso" é uma oportunidade para melhorar e não uma oportunidade para arranjar desculpas que atenuem esse mesmo fracasso, então a formação fica comprometida.

Que auto-estima terá alguém que busca uma desculpa completamente irrelevante a cada obstáculo que encontra no caminho? E mais, o que tem uma criança a melhorar quando todos os erros são culpas do árbitro, do colega ou do treinador?

Relembramos que se trata de um jogo. Mas até tratando-se de uma doença a lamentação da desgraça, ou a procura de culpados para a nosso estado não traz a cura, pelo contrário. Assim como existe o "efeito placebo" que nos demonstra como a crença (por si só) de que algo é bom já produz uma melhoria, também existe o "efeito nocebo" cuja crença de que algo nos prejudica (por si só) já piora a nossa condição.

Por isso é tão importante não buscar culpados para o resultado. Procuremos aquilo que depende de nós, até porque "o que não tem remédio remediado está". A partir daí procuremos aquilo que pode ser solucionado e busquemos soluções que nos ajudem a resolver os problemas que nos são colocados (no futebol como na vida). É na busca das soluções, na busca daquilo que depende de nós que está o segredo para o desenvolvimento e o fundamental da formação/educação.


a) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Superar as dificuldades percebendo o que depende de nós


Facilmente o nosso inconsciente nos empurra para um "abismo das desculpas", é de certa forma uma reacção alérgica que se cria para nos proteger, mas no funda só acaba por nos prejudicar e impedir que se identifiquem e resolvam os verdadeiros problemas, só assim poderemos melhorar. Aquilo que parece atenuar a frustração da "perda", ou seja o atribuir a culpa a terceiros ou às vantagens prévias do adversário, e que muitas vezes é dito em voz alta como quem reclama por mais tempo no cargo ou no 11 titular (pois a culpa não é minha), por mais razão que tenhamos na atribuição dessa culpa a algo que está “fora” da nossa equipa ou do nosso desempenho no jogo, isto nunca deve tornar-se recorrente por uma razão simples: nada disto vai mudar só pelo facto de o assinalarmos e só nos faz perder o foco. Porque o vento não muda por falarmos disso, o calor é para todos, o árbitro não está no treino para o ensinarmos a apitar como achamos melhor e o facto da outra equipa ter mais tempo para recuperar não vai mudar por dizermos: “Pois é, estamos em desvantagem porque eles têm mais tempo para recuperar”.

Iremos sempre compreender a reacção durante o jogo de jogadores e treinadores (que passa em 5 segundos), mas chegar ao fim de cada jogo que nos corre mal e procurar algo externo que nos liberta da nossa responsabilidade... isto, na continuidade, só te torna pior, deixa-te sem rumo, sem direcção a seguir, porque a falta de noção da nossa responsabilidade impede-nos de melhorar aquilo que efectivamente depende de nós.

"Ok! O árbitro poderia ter feito melhor, mas há mais no jogo para além desses erros.” “A chuva estragou o campo, mas a verdade é que eles conseguiram resolver esse problema melhor do que nós." Estes devem ser os pensamentos reinantes, buscar as soluções que estão ao nosso alcance e não perder demasiado tempo a pensar: “estou a ser prejudicado”.

A responsabilidade não pode ser do vento, nem da chuva, nem da relva e ainda que o árbitro tenha errado não valerá muito a pena atribuir-lhe a culpa, isso não nos vai fazer melhorar com certeza. "O que depende de mim então?! O que tenho que fazer... o que temos que fazer melhor?" Estas são as questões que se devem colocar e trabalhar a partir daí para que as respostas e as soluções que encontramos (dentro de nós) surjam o mais rápido possível nos jogos para superarmos todas as dificuldades que aparecem. Como se fosse um sistema espontâneo de transcendência, que nos leva a melhorar a cada obstáculo.

Porque dentro de nós há sempre uma solução, para tudo aquilo que nós podemos controlar, para tudo aquilo em que, de forma determinante, podemos interferir. Mesmo quando a bola espirra no tufo da relva... há solução e ela está em mim e na minha equipa! É disto que temos que nos convencer e convencer os miúdos que agora estão a crescer, não se trata de uma verdade balofa existe mesmo solução para estes problemas... isto é um jogo não é uma doença. Agora, quando algo está fora do nosso controlo, então o melhor é voltarmo-nos novamente para o essencial - fazer o melhor que podemos com o que depende de nós - caso contrário a frustração sobe-nos à cabeça e deixamos de jogar/aprender. Por mais que nos custe, a mentalidade certa é perceber o mais rápido possível qual é a minha responsabilidade no que se está a passar. "O que é que, em função dos problemas circunstanciais que estão à nossa frente, podemos fazer?" É fácil? Não não é fácil, fácil é falar, se fosse fácil qualquer um chegava onde tem potencial para chegar e a verdade é que vemos muita gente que se fica pela metade do que poderia. Claramente não é fácil mudar a "mentalidade das desculpas", mas se não tentarmos nunca iremos ter jogadores/equipas que enfrentam o problema desde o assumir da responsabilidade.

Toni Nadal, tio e ex-treinador de Rafael Nadal, afixou nos corredores e balneários da academia do sobrinho a seguinte frase: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida."

É nos momentos em que a solução do problema nos parece mais fácil, ou seja nos momentos em que todo o nosso inconsciente nos empurra para o "abismo da desculpa fácil", que o nosso consciente tem que assumir o comando e dizer, tal como o Maurizio Sarri: "Só quero pensar no nosso desempenho." e acrescentar "Não é só o árbitro ou o treinador ou o jogador ou o vento ou o relvado ou a bola, eu/nós também tenho/temos responsabilidade no que de mal está a acontecer" e a partir daqui é treinar/viver e corrigir o que podemos controlar.


a) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Everton) de Sarri ao serviço do Chelsea FC - Premier League 2018/2019
b) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Brighton) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC – Meia-Final da FA CUP 2018/2019

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Viver à pressa é viver menos!


Não importa se é o Vinicius, o Quim o Zé ou o Manel. O que queremos é alertar para esta vertigem da pressa em que a nossa sociedade vive imersa. A pressa de chegar, a pressa de alcançar, a pressa de estar pronto, a pressa que rapidamente se transforma em pressão pela expectativa exagerada que se cria. Que não se confunda esta reflexão com o preconceito da idade, nem vale a pena deturpar, porque não se trata de nada parecido com isso.

Podíamos até falar daquilo que o Ajax (ou Barcelona) faz, mas o tema não é bem esse. O Ajax é um caso de um processo transversal a todas a equipas (escalões) do clube e que sobretudo prova o poder da especificidade e como ela favorece o aparecimento do talento e ajuda e muito à sua inclusão em níveis altos sem se dar por isso. A especificidade é esse contexto que dá sentido a determinado jogador e assim sendo deixa de ser apressada a inclusão do jovem para passar a ser uma consequência natural do processo de formação.

Ora em milhares de casos não é isto que se verifica, o que acontece é uma pressão social para que se dê a integração de juventude. Importa por isso perceber que a ambição equilibrada é aquela que gera compromisso diário sem gerar pressa, porque "a pressa é inimiga da perfeição" e quem quer andar a top tem que andar lá perto todos os dias, nos treinos, nos jogos, na mentalidade de quem se implica todo em cada momento útil para o desenvolvimento.

O culto da juventude existiu sempre, desde a procura da formula para o elixir da juventude até ao negócio do futebol que faz emergir a pressa do contracto milionário. Chega-se ao ridículo de se valorizar o trabalho de treinadores só porque deu uns minutinhos a um jovem (17 ou 18 anos) da formação. Isto por si só chega? A formação é muito mais do que dar uma oportunidadezinha isso é só um passo de um longo crescimento que se tem pela frente.

Nunca como hoje se deu tanta oportunidade aos jovens no futebol, nunca como hoje tantos jogadores ganharam tanto dinheiro com o futebol e ainda assim nunca tanto como hoje se exigiu oportunidades para os jovens... à força – é necessário perceber o contexto, que no caso do Ajax leva anos... claro que é possível, mas não se pode ignorar o “aqui e agora” e exigir aposta na formação a clubes que nem pensam sequer em preparar-se para criar uma identidade transversal dentro do clube desde os sub7 até à Equipa A, forçar a inclusão de miúdos da formação que vêm duma especificidade completamente diferente daquilo que é o jogo da Equipa A, é só ridículo. No entanto há muita pressa espalhada por aí neste sentido, muito lamento perdido, precisamente por se ignorar a realidade.

Há algo grave que advém daqui: usa-se muito a desculpa da carreira curta para convencer os jovens jogadores de que se não tiverem a oportunidade agora, ela pode nunca mais surgir. Mas as carreiras nunca foram tão longas e nunca se ganhou tanto dinheiro em tão pouco tempo de carreira (contextualizar com o nível de que estamos a falar).

"Lançar um jovem" exige sensibilidade para o tipo de mentalidade que tem esse jogador (sem correr o risco de o "lançar às feras"), tanto para lidar com o eventual fracasso, como para lidar com o possível triunfo e "elogio fácil" que poderá surgir no pós jogo. "Nasce uma estrela" que não se quer que seja uma "estrela cadente" que só pára no abismo da frustração ou no deslumbramento do estrelato. Lidar com as emoções das primeiras experiências do futebol sénior necessita de uma grande mentalidade e necessita que o crescimento seja alimentado diariamente por essa mentalidade. Raramente surgem jogadores como Rúben Neves, Bernardo Silva ou João Félix que parecem ter sido "adultos" a vida toda, dado a forma como encaram a sua profissão. Não se pode forçar algo que tem que ser conquistado e preparado com naturalidade.

A culpa é de todos os que exigimos, sem perceber que conquistar/manter as coisas tem que dar trabalho e que se trata de um processo de contínua formação e amadurecimento, que está muito para além do que se faz no jogo e tem muito da reação ao que se passa no jogo.

Temos que viver e formar para desfrutar do tempo que temos (que nem é pouco nem é muito, é o que temos), ao invés de fazermos da vida e da formação uma corrida apressada contra o tempo... na ânsia de alcançar nem desfrutamos da viagem, do caminho sem o qual é impossível chegar aos “destinos”. É uma corrida perdida antes de começar, essa contra o tempo, porque o esse arranja sempre uma forma de estar à nossa frente. Acreditem que poucos são os que vivem à frente do tempo. Qual é o problema disso? Nenhum, não há que desesperar por necessitarmos de mais tempo para nos prepararmos, a aprendizagem/desenvolvimento não é uma corrida para ver quem chega primeiro... que se desfrute do tempo, no tentar ser melhor do que já somos.

sexta-feira, 29 de março de 2019

A renovação/contratação não pode depender de uma boa exibição


Guardiola sobre o que justifica a extensão do contrato dos jogadores.

Há dois dias reflectimos aqui sobre o que pesa na hora de recrutar "miúdos" para um clube, através das palavras de Pat Fitzgeral (aqui).

Hoje o tema é a renovação de contrato de Leroy Sané e o que será importante na hora de abordar o jogador para o fazer. Não vamos esconder que tudo isto é visto como um grande negócio e que não renovar com um jogador pode implicar perda de dinheiro, devido ao risco que se corre, a cada ano que passa, com aproximação do final do contracto. A mesma lógica (clubes que não querem arriscar perder bons negócios) tem levado também a que se paguem valores exorbitantes por jogadores, baseado naquilo que é o seu potencial (e todo o risco que isto acarreta). Esta inflação surge muito por culpa de negócios como o do Cristiano Ronaldo do Sporting para o Man. United, hoje em dia ninguém quer desbaratar. Ao mesmo tempo, os clubes grandes cada vez menos querem arriscar perder oportunidades de segurar determinado jogador da formação e acabamos por ter empresários e até os próprios jogadores com poder para interferir na gestão dos clubes e gerar-se um clima de de quase ameaça do género: “se vocês não quiserem temos ali aquele rival que está disposto a chegar a esses valores” - é o mercado. Clubes grandes não entram neste tipo de cedências, ou não deviam. Deveriam sim, tentar antecipar-se a toda a gente de forma a contratar/renovar/assinar primeiro contracto pelo valor justo em função de um potencial, que não é algo concreto tendo em conta a complexidade do desenvolvimento e formação dos jogadores. A pressa dos jogadores quererem aparecer ou as tremendas injustiças como a de jogadores com grande potencial que não se lhes é dada uma oportunidade ou de bons jogadores sem melhoria das suas condições salariais, levou a este clima em que tantas vezes as renovações/aposta (ou não) na formação são autênticas guerras. É como que se os valores humanos estivessem a ser determinados pelos valores financeiros.

Avançando para aquilo que é fundamental na perspectiva do treinador, parece haver outras coisas essenciais que devem orientar a decisão de prolongar a estadia de um jogador no clube e de lhe melhorar as condições salariais. E não é que Guardiola, como tantos outros treinadores, é da opinião que é tão essencial a qualidade como o carácter (o "ser humano"/a pessoa “por detrás” do jogador, não não são máquinas e antes de serem jogadores são mesmo pessoas).

Como é óbvio, não estranhamos nada que o Guardiola e outros se refiram tantas e tantas vezes ao facto de ser essencial tanto a qualidade para jogar como a personalidade/mentalidade/carácter de um jogador, que é uma pessoa. Não se pode nem se deve dissociar as duas coisas. É precisamente um dos motivos pelos quais criamos este espaço de partilha, para ligarmos estas duas faces da mesma moeda e que nos parecem ser tantas vezes esquecidas. Claramente quem está dentro do processo e convive com os jogadores diariamente sabe que a qualidade e o potencial podem ser comprometidos sem um bom lado humano. E ser um "bom ser humano" sem qualidade no jogo também não serve de nada, para uma equipa de futebol que se propõe a jogar um tipo de jogo complexo e a ganhar. Aliás o potencial do jogador não é nada sem um contexto e por isso o contexto aumenta ou diminui o potencial do jogador, até o domínio da língua pode ter um papel fundamental na evolução do jogador (lá está isto não é jogo, mas pode ajudar a melhorar a qualidade do jogo), referimos a língua como poderíamos referir outros aspectos culturais do país ou os princípios de jogo da equipa, etc..

A sociedade e o futebol, sendo um fenómeno nela inserido, necessitam muito da ajuda dos pais para criar/descobrir as paixões e também para formar "bons seres humanos" (ser bom ser humano, como aqui tentamos retratar não é sinónimo de ser bom para os outros, digamos também é, mas há muito mais para além disso).

Todas estas questões relacionadas com a atitude influenciam as qualidades e a qualidade de ser futebolista (ou outra coisa). Não temos dúvida absolutamente nenhuma disso, nenhuma.


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

Afinal, quanto tempo é necessário para construir uma EQUIPA?


Guardiola fala sobre o que mais importa e sobre o tempo que não existe para se construir precisamente isso que mais importa, que é criar uma forma de jogar de acordo com a ideia do treinador e percebendo o que cada jogador pode dar e como poderá ser útil, dando vida à ideia e ao jogo. Costinha confirma a necessidade de tempo para que se mudem mentalidades e se mudem hábitos.

Várias coisas para reflectir sobre este tema levantado por Guardiola e Costinha, por exemplo:

- a necessidade de se formar desde cedo para que ter a bola e “manejá-la” desde trás não seja um desconforto, isto para que a passagem de um sector para o outro por dentro ou por fora não seja uma forma arriscada de deixar para trás as várias linhas do adversário. Formar para um jogo posicional que permita que quem recebe a bola o possa fazer de forma ameaçadora para a estrutura adversária e sem perda de segurança. Pode-se formar também para combater um jogo mais directo e onde se pretende ser agressivo com a intenção de ganhar as segundas bolas jogando atacando rápido a baliza a partir daí. Formar para que os jogadores "mais débeis", no choque, consigam jogar e ser úteis numa equipa que se propõe contrariar esse tipo de jogo, levando-o mais vezes para o jogo que lhes convém.

Porquê esta necessidade? Para que seja um hábito e não seja preciso aquele tempo todo de adaptação de que o Costinha fala, e que passa por mudar hábitos tendo que convencer ou passar por um processo de algum desconforto em campo, para que, passado esse tempo, o jogador se deixe guiar e aprenda a sentir-se confortável com os novos hábitos que se pretendem criar na equipa, neste caso com o Costinha como treinador.

- "ou ganhas ou despedem-te" Pep Guardiola. Quem é que não sabe disto? Até na formação... ganhar é o mais importante na hora de avaliar a qualidade do treinador. A revolta do Guardiola, e de treinadores que estão no futebol há muito tempo, parece ter sido silenciada pela resignação perante esta mentalidade e pela necessidade de procurar outras coisas que sintam ser capazes de controlar melhor, e que tem a ver com a criação de uma forma de jogar, baseada no seu entendimento/sentimento, mas procurando ajustar a algumas características que os jogadores têm e que são aquilo que dá fluidez e imprevisibilidade ao "seu" jogo.

Seria bom ter tempo? Claro que sim, porque mesmo sem se ganhar um título saberíamos que, se a cultura fosse de ver as coisas a longo prazo, haveria muito menos crises na derrota (de pais, de dirigentes, de adeptos...) e isso permitiria que as pessoas se focassem no crescimento da equipa e dos jogadores no sentido de melhorarem a forma como se joga. Todos se sentiriam responsáveis por isso e não só o treinador. Aliás, treinador e jogadores, que ninguém retire a grande importância/responsabilidade dos jogadores no que toca ao jogo que a equipa joga, nem no mérito nem no fracasso. Tony Kroos disse, aquando da saída de Lopetegui do Real Madrid que “é um sinal de fracasso para os jogadores quando o treinador é despedido”. São interpretações e formas de estar no futebol, mas sem dúvida que toda a gente se enriqueceria numa cultura onde há tempo para se construir uma EQUIPA e onde todos sentem a responsabilidade das melhorias e dos fracassos.

Sabendo que não há tempo, o treinador vive num dilema. Para nós, tendo em conta que perder é sempre uma hipótese, o melhor é agarrarmo-nos ao jogo e ao crescimento dos jogadores.


a) entrevista de Guardiola à ESPN Brasil em 2017
b) Conferência de Costinha, enquanto treinador do Nacional – pré-jogo, Primeira Liga Portuguesa 2018/2019 (CDNacionalTV canal do youtube)