Mostrar mensagens com a etiqueta #Mentalidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #Mentalidade. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de abril de 2019

Toni Nadal: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida!"


No outro dia publicamos 👉 aqui um vídeo em que Sarri e Guardiola falavam da importância do foco estar naquilo que poderemos controlar, aquilo que depende da nossa equipa – "Melhorar o Desempenho" e vermos nas dificuldades uma oportunidade de nos superarmos.

Toni Nadal e o seu sobrinho, Rafael Nadal, são um exemplo de como a mentalidade certa nos permite alcançar ou até transcender o nosso potencial presente. Uma mentalidade que não se refugia na desculpa fácil, faz-nos sentir responsáveis pelas coisas boas que fazemos e mais importante e raro por aquilo em que não estivemos tão bem e que se repercute nos erros que cometemos. Perceber e aceitar isto com naturalidade e com o menor conflicto (interno/externo) possível é essencial para a evolução.

Importantíssimo lidar com esta responsabilidade desde o ponto de vista do desenvolvimento e não do ponto de vista da frustração (prolongada), algo que nos afunda na apatia e no "colocar de lado" algo pelo qual tivemos, em tempos, uma enorme paixão. Isto necessita de educação, não é fácil nem aleatório que se adquira esta predisposição para ser “alguém que assume a responsabilidade" de forma natural e positiva. Se não houver bons exemplos à nossa volta, ou seja, se não houver uma cultura onde o "fracasso" é uma oportunidade para melhorar e não uma oportunidade para arranjar desculpas que atenuem esse mesmo fracasso, então a formação fica comprometida.

Que auto-estima terá alguém que busca uma desculpa completamente irrelevante a cada obstáculo que encontra no caminho? E mais, o que tem uma criança a melhorar quando todos os erros são culpas do árbitro, do colega ou do treinador?

Relembramos que se trata de um jogo. Mas até tratando-se de uma doença a lamentação da desgraça, ou a procura de culpados para a nosso estado não traz a cura, pelo contrário. Assim como existe o "efeito placebo" que nos demonstra como a crença (por si só) de que algo é bom já produz uma melhoria, também existe o "efeito nocebo" cuja crença de que algo nos prejudica (por si só) já piora a nossa condição.

Por isso é tão importante não buscar culpados para o resultado. Procuremos aquilo que depende de nós, até porque "o que não tem remédio remediado está". A partir daí procuremos aquilo que pode ser solucionado e busquemos soluções que nos ajudem a resolver os problemas que nos são colocados (no futebol como na vida). É na busca das soluções, na busca daquilo que depende de nós que está o segredo para o desenvolvimento e o fundamental da formação/educação.


a) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Superar as dificuldades percebendo o que depende de nós


Facilmente o nosso inconsciente nos empurra para um "abismo das desculpas", é de certa forma uma reacção alérgica que se cria para nos proteger, mas no funda só acaba por nos prejudicar e impedir que se identifiquem e resolvam os verdadeiros problemas, só assim poderemos melhorar. Aquilo que parece atenuar a frustração da "perda", ou seja o atribuir a culpa a terceiros ou às vantagens prévias do adversário, e que muitas vezes é dito em voz alta como quem reclama por mais tempo no cargo ou no 11 titular (pois a culpa não é minha), por mais razão que tenhamos na atribuição dessa culpa a algo que está “fora” da nossa equipa ou do nosso desempenho no jogo, isto nunca deve tornar-se recorrente por uma razão simples: nada disto vai mudar só pelo facto de o assinalarmos e só nos faz perder o foco. Porque o vento não muda por falarmos disso, o calor é para todos, o árbitro não está no treino para o ensinarmos a apitar como achamos melhor e o facto da outra equipa ter mais tempo para recuperar não vai mudar por dizermos: “Pois é, estamos em desvantagem porque eles têm mais tempo para recuperar”.

Iremos sempre compreender a reacção durante o jogo de jogadores e treinadores (que passa em 5 segundos), mas chegar ao fim de cada jogo que nos corre mal e procurar algo externo que nos liberta da nossa responsabilidade... isto, na continuidade, só te torna pior, deixa-te sem rumo, sem direcção a seguir, porque a falta de noção da nossa responsabilidade impede-nos de melhorar aquilo que efectivamente depende de nós.

"Ok! O árbitro poderia ter feito melhor, mas há mais no jogo para além desses erros.” “A chuva estragou o campo, mas a verdade é que eles conseguiram resolver esse problema melhor do que nós." Estes devem ser os pensamentos reinantes, buscar as soluções que estão ao nosso alcance e não perder demasiado tempo a pensar: “estou a ser prejudicado”.

A responsabilidade não pode ser do vento, nem da chuva, nem da relva e ainda que o árbitro tenha errado não valerá muito a pena atribuir-lhe a culpa, isso não nos vai fazer melhorar com certeza. "O que depende de mim então?! O que tenho que fazer... o que temos que fazer melhor?" Estas são as questões que se devem colocar e trabalhar a partir daí para que as respostas e as soluções que encontramos (dentro de nós) surjam o mais rápido possível nos jogos para superarmos todas as dificuldades que aparecem. Como se fosse um sistema espontâneo de transcendência, que nos leva a melhorar a cada obstáculo.

Porque dentro de nós há sempre uma solução, para tudo aquilo que nós podemos controlar, para tudo aquilo em que, de forma determinante, podemos interferir. Mesmo quando a bola espirra no tufo da relva... há solução e ela está em mim e na minha equipa! É disto que temos que nos convencer e convencer os miúdos que agora estão a crescer, não se trata de uma verdade balofa existe mesmo solução para estes problemas... isto é um jogo não é uma doença. Agora, quando algo está fora do nosso controlo, então o melhor é voltarmo-nos novamente para o essencial - fazer o melhor que podemos com o que depende de nós - caso contrário a frustração sobe-nos à cabeça e deixamos de jogar/aprender. Por mais que nos custe, a mentalidade certa é perceber o mais rápido possível qual é a minha responsabilidade no que se está a passar. "O que é que, em função dos problemas circunstanciais que estão à nossa frente, podemos fazer?" É fácil? Não não é fácil, fácil é falar, se fosse fácil qualquer um chegava onde tem potencial para chegar e a verdade é que vemos muita gente que se fica pela metade do que poderia. Claramente não é fácil mudar a "mentalidade das desculpas", mas se não tentarmos nunca iremos ter jogadores/equipas que enfrentam o problema desde o assumir da responsabilidade.

Toni Nadal, tio e ex-treinador de Rafael Nadal, afixou nos corredores e balneários da academia do sobrinho a seguinte frase: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida."

É nos momentos em que a solução do problema nos parece mais fácil, ou seja nos momentos em que todo o nosso inconsciente nos empurra para o "abismo da desculpa fácil", que o nosso consciente tem que assumir o comando e dizer, tal como o Maurizio Sarri: "Só quero pensar no nosso desempenho." e acrescentar "Não é só o árbitro ou o treinador ou o jogador ou o vento ou o relvado ou a bola, eu/nós também tenho/temos responsabilidade no que de mal está a acontecer" e a partir daqui é treinar/viver e corrigir o que podemos controlar.


a) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Everton) de Sarri ao serviço do Chelsea FC - Premier League 2018/2019
b) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Brighton) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC – Meia-Final da FA CUP 2018/2019

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Competir é superação!


A importância da competição interna (dentro de mim e da equipa) para o desenvolvimento dos jogadores.

O sentir que quem pode ocupar o teu lugar na equipa é tão bom como tu faz-te competir no treino e no jogo, no sentido de dares o melhor de ti... sempre. Aqui o desejo de jogar é tão grande como a necessidade de melhorar para poder concretizar esse desejo.

A necessidade de nos desenvolvermos em função do nível dos que estão ao nosso lado, desde que não seja exclusivamente isso que nos move, é muito importante tendo em conta como funciona o ser humano no geral. Claro que o ideal é aliarmos a isto uma mentalidade que nos permita depender também da nossa vontade de sermos melhores a cada dia sem dependências externas, sem necessitarmos de nos comparar com os outros, mas isto de nos compararmos connosco próprios, e melhorar a partir daí, cansa. Portanto a nossa mente se puder descansar vai-nos puxar para patamares de relaxamento que nos colocam num nível "Suficiente".

Convém referir que, sendo este um tema que temos tratado aqui na página (a questão da importância da mentalidade para o desenvolvimento), há gente que consegue ter esta capacidade, esta paixão/"obsessão" por aprender na busca de serem melhores a cada dia e por isso destacam-se claramente dos demais. Ainda assim também temos que reconhecer o contexto (quem e o que nos rodeia) como catalisador do nosso próprio desenvolvimento. Olhar para os outros no sentido de nos deixarmos inspirar por aquilo que fazem de bom nunca será mau, o problema está quando buscamos nos outros o nível de exigência “suficiente” para nos destacarmos, aí ficaremos sempre aquém do nosso potencial.

Sentir diariamente que uma distracção (pormenor) poderá colocar a minha titularidade (que tanto prezo) em risco, e quando esta perda (da titularidade) é mais do que justa e clara, pela qualidade de quem joga na mesma posição, então não há desculpas que me salvem: "A responsabilidade é mesmo minha, depende de mim mostrar que estou preparado." Nestes casos só se é titular por mérito próprio e não por demérito dos outros - nos casos em que as diferenças de nível são grandes essa necessidade de “fazer por merecer” (mérito) ou nos vem de dentro ou não existe.

Isto contraria toda a lógica de que o mais importante é o dia do jogo, na formação e no desenvolvimento. O treino tem que ser olhado com muito valor, tal como o jogo e se assim for todos os jogadores (miúdos ou graúdos) estarão mais perto de melhorar e de se transcender. Competir internamente no dia a dia é algo que deve estar permanentemente presente. Há uns que competem no limite a cada exercício, isso é o que lhes permite serem "melhores do que ontem", outros competem quando há necessidade para ser melhor do que os da mesma posição.

É importante formar para depender mais do espírito competitivo, tendo como objectivo melhorar a cada dia e ao mesmo tempo permitirmos que os jogadores tenham a seu lado gente que lhes "morda os calcanhares". O “suficiente” não chega para quem se quer superar a cada dia e competir é o oposto de rebaixar os outros para sobressair, e esta confusão é o que leva muita gente a dizer que a competição é um mal maior da sociedade contemporânea. Não é a competição que é um mau princípio, o que está mal é o querer aniquilar a competição (quem nos rodeia) sem competir, não deixando espaço para nos inspirarmos pelo bom que os outros fazem.

Não há maiores referências do que a nossa própria transcendência e a qualidade daqueles que convivem connosco diariamente.


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

quarta-feira, 27 de março de 2019

"Avaliação aos pais" na hora de recrutar um jogador


Avaliar os pais para recrutar jogadores?! Absurdo ou consequência da falta de autonomia?

Pat Fitzgerald (treinador da equipa de futebol americano da Northwestern University) acerca de questões importantes na hora de oferecer uma bolsa universitária a quem tem capacidade para integrar a sua equipa para competir na Liga Universitária de Futebol Americano (de onde saem, todos os anos, jogadores que "alimentam" as equipas da NFL-Liga Profissional).

Não interessa muito, para entender o tema, se sabemos algo sobre Futebol Americano ou não.

Tudo o que identificamos, no vídeo e nas palavras deste treinador, facilmente poderia ter sido dito por um qualquer Coordenador técnico da Formação de um clube de futebol em Portugal, ou até por um Chefe de Departamento de Scout (da formação ou do futebol profissional).

Que importância se atribui à mentalidade/personalidade de um miudo/jovem/profissional na hora de recrutar/contratar? É que aqui também se vê se vale tudo para ganhar. Queremos ter os melhores mesmo que os seus valores e as suas escolhas sociais vão contra os valores do clube e do que é o respeito pelos outros? O futebol é colectivo, portanto é um contexto onde o individual enquanto parte duma equipa cria/ajuda a criar, com maior ou menor preponderância (dependendo do seu lugar na hierarquia do grupo) uma cultura de valores nessa mesma equipa.

O crescimento, a aprendizagem, o compromisso, a capacidade de transcender o seu potencial, o conceito de "margem de progressão", tudo isto irá ser claramente influenciado pela mentalidade de quem treina, porque o treinador guia, mas quem se treina é cada um dos jogadores, o treinador procura facilitar/inspirar/instigar a aprendizagem, mas quem aprende é o jogador.

Até aqui parece que tudo está claro e sempre foi assim, o concretizar do potencial depende não só do talento, mas também da capacidade que temos para atingir o máximo desse talento com regularidade e durante muito tempo e até transcendê-lo.

Mas há outra questão que se levanta desde que, há uns 15 anos (mais ou menos), se começou a acentuar/promover a falta de autonomia das crianças pela desmesurada protecção (em muitos casos) por parte dos pais, a desresponsabilização dos mais jovens (de toda a gente no fundo, porque há sempre alguém a quem culpar). Isto tudo se nota na forma como hoje os pais querem interferir em todos os contextos onde os filhos estão inseridos, de forma a dar-lhes maior conforto, resolvendo até os problemas sociais por eles. Que repercussões concretas é que isto tem? São mais os benefícios ou as perdas em termos da personalidade/mentalidade das crianças?

A responsabilidade da “não aprendizagem” é exclusiva dos professores que não gostam de determinado aluno, a responsabilidade do miúdo não evoluir é do treinador. Mas alguém tem necessidade de melhorar sabendo que a responsabilidade do seu fracasso está noutra pessoa e não nela própria? Em casa, qualquer palavra dita pelos pais tem tal interferência que os seus filhos a entranham e sentem nela uma linha orientadora para agirem na escola/nos treinos/na vida de acordo com o que ouviram. É (também) aqui que se vê a falta de autonomia, a falta de um sentimento próprio, a falta dos miúdos se conhecerem e terem uma consciência de si próprios, sentido-se parte do processo de aprendizagem que lhes permite conhecerem o que os rodeia e a eles mesmos de forma a poderem interagir de uma forma única e que pode ser melhorada a cada dia. Sentir que aprender depende deles, ainda que busquem inspiração nos outros – professores, pais, sociedade no geral, que deve que ter esta preocupação de inspirar a aprendizagem e responsabilizar.

Por tudo isto, fará todo o sentido que os clubes tenham em conta os pais, a mentalidade, o talento, etc. na hora de recrutar, porque antes de serem jogadores são pessoas e isso importa muito.


a) conferência de imprensa de Pat Fitzgerald ao serviço da Northwestern University, aquando do “Signing Day” 2016 – retirada da conta oficial do youtube “Northwestern Athletics”

quarta-feira, 20 de março de 2019

“Deixar-se guiar” como catalisador da aprendizagem! (Quique Setién sobre Aïssa Mandi)


Fala-se muito em "margem de progressão", foi um termo que caiu bem e como quase tudo o que cai bem e cola, rapidamente o conceito passou a ser vulgarmente relacionado, de forma linear pela exclusividade do seu uso, com a idade. Não ignoramos a plasticidade do nosso cérebro/corpo que é inversa à idade e por isso à medida que os anos passam a capacidade de nos moldarmos em função da informação que nos rodeia e de incorporá-la vai diminuindo.

Ora dito isto, não deixa de ser também verdade que, em função da nossa mentalidade, poderemos ter maior predisposição para nos “deixar-mos guiar”, no sentido de tentarmos aprender sempre qualquer coisa, principalmente, de alguém que poderá acrescentar-nos algo. Ainda mais se tivermos em conta que a função dessa pessoa (desse “alguém”) é também a de orientar as "ideias" que cada jogador tem na cabeça, através de referenciais colectivos, de maneira a que se chegue a uma forma de jogar comum, falamos do treinador, como é óbvio, ainda que esteja longe de ser da sua exclusiva responsabilidade o processo de aprendizagem.

Quanto ao estarmos receptivos a perceber (ou pelo menos, tentar) o que se pretende de nós dentro de determinada organização/equipa, não sabemos se será a humildade (como se costuma dizer) aquilo que nos permite ir melhorando a cada experiência, a cada informação que nos é transmitida, sabemos sim que é necessária uma vontade enorme de ser melhor e que treinando no limite e de mente aberta para a ideia de quem lidera se estará sempre mais perto de melhorar.

Vivemos num tempo onde este “deixar-se guiar pelo treinador” parece que é "dar parte fraca", que é como que um "abdicar daquilo que eu sou enquanto jogador", que é “prescindir da minha criatividade” (não se deve confundir ser criativo com “ser diferente só porque sim”), mas entendemos isso de outra maneira, deixarmo-nos treinar por alguém que pretende ligar-nos ao que nos rodeia, fazendo com que os jogadores interajam segundo princípios comuns, é sinal de inteligência e requer uma predisposição para sentir e/ou entender a ideia, para que a possa executar como tendo sido criada por si próprio, e no fundo é mesmo, porque depois de a entendermos e incorporarmos introduzimos a nossa criatividade que acrescenta sempre muito àquilo que absorvemos . Ora, isto requer alerta constante de cada célula do nosso corpo a cada exercício e uma receptividade enorme (tal como Quique Sétien refere que Mandi tem).

Falamos muito destas questões da mentalidade aqui, porque sabemos que isto depende muito daquilo que no treino não se pode controlar tanto, que é a educação. Entendemos que a educação deve ser orientada para que as pessoas vivam no sentido de se melhorar naquilo que as apaixona e ao qual decidiram dedicar a sua vida (ou vários anos dela), seja no futebol ou noutra coisa.

Grande exemplo de Aïssa Mandi, que pode servir de inspiração para termos gente mais comprometida com a aprendizagem e com o sentido de se melhorar, fazendo-o por si (em primeiro lugar), mas sempre com a consciência de que isso irá ser uma grande ajuda para quem joga ao seu lado.

Que sentido terá a nossa vida se não a aproveitarmos para, fazendo aquilo que nos apaixona, nos melhorarmos a cada dia? Não olhemos à idade (ainda que a carreira de jogador tenha um "prazo" mais curto), o que necessitamos é de uma "mentalidade progressiva" virada para a aprendizagem, e isto tem pouco que ver com as "margens de progressão" lineares, baseadas na data de nascimento.


a) visita de Quique Setién ao Campo de Verão (2018) da Academia do Real Racing Club

segunda-feira, 18 de março de 2019

Guardiola e o "exemplo" Vincent Kompany


O que Vincent Kompany representa para a equipa e para Guardiola enquanto treinador.

Falar sobre jogadores exige que se veja além do que fazem no dia do jogo e/ou com a bola por perto. O Futebol, por não ser individual, vai muito além daquilo que um jogador faz por si só e do que faz para seu próprio benefício. Se o futebol assim fosse reduzido ao isolamento individual, e percebendo todas as lesões pelas quais passou, todas as dificuldades que um jogador com mais de 30 anos teria em se adaptar e essencialmente em deixar-se guiar para uma nova ideia de jogo, na qual se nota todo o desconforto que lhe causa, então, Kompany teria menos hipóteses de ser equacionado para ficar no plantel do Manchester City. Não nos esquecemos de todas as dificuldades que demonstra com bola na criação de espaço desde trás ("construção"), principalmente contra equipas que pressionam alto, super agressivas e que dão muito pouco espaço ao City para jogar desde trás em segurança (como o Liverpool, contra o qual o Vincent foi titular na eliminatória da Liga dos Campeões 2017/2018).

Isto deveria ser entendido por toda a gente que está "fora" da equipa, mas que, estando tão perto dos intervenientes, tem influência e pode contribuir para que os jogadores entendam que este exemplo, que é o Vincent Kompany, deveria ser algo mais frequente no futebol.

Apesar das dificuldades em dar segurança com bola o que se notou também foi que, desde a primeira época de Guardiola no City (3º Lugar na PL), quando o Capitão jogava, o central ao seu lado (Otamendi, mais vezes) jogava muito melhor: com mais à vontade com a bola, menos entradas de rompante que geralmente ou custam amarelo ou perda de duelos (1v1), mais serenidade na área a defender, etc..

Ora, isto de tornar os outros melhores pelo que se joga tem muito valor (claro que tem que se ser muito bom), mas há quem, pelo carácter, consiga ter uma enorme influência sobre os restantes colegas, nada disto pode ser ignorado num jogo colectivo. Ser um exemplo de compromisso é algo de uma importância enorme num jogador de futebol. Gostamos de olhar para o talento como a capacidade exclusiva dos jogadores resolverem problemas de forma individual, mas então aquele jogador que tem a capacidade de melhorar os outros com a sua presença, por tudo aquilo que ele representa, não será tão importante como aquele que é capaz de "rasgos" individuais? Não será que, de certa forma, esta mentalidade acaba por dar uma estabilidade para todos os outros e permite que se transcendam? Acreditámos que sim, especialmente quando vem de alguém que é um exemplo na postura e na vontade de aprender – é só ver como aos 32 continua a evoluir dentro de um estilo que, como já referimos, tantas vezes o deixou desconfortável.

É sem dúvida o jogador mais respeitado (é o capitão) e os outros verem-no dar o melhor de si quando joga “apenas” 5 minutos ou num jogo da Taça da Liga contra uma equipa do 3º escalão Inglês... "como se fosse a final da Liga dos Campeões"... Isto é muito mais importante para os colegas do que para a liderança do treinador, no sentido que eleva a fasquia da intensidade e do compromisso dentro da Equipa.


a) Conferência de imprensa (pós-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC – Carabao Cup 2018/2019

quarta-feira, 6 de março de 2019

Bernardo Silva – Quando a inteligência/mentalidade transformam tudo numa vantagem

A propósito do último “post” (aqui) onde Guardiola e Cruyff falam das necessidades e das vantagens que tem um jogador com um “físico mais frágil”, o Bernardo já proporcionou ao longo desta época inúmeros jogos que ilustram bem aquilo que na realidade significa o poder que a necessidade, quando associada à inteligência, tem de transformar uma aparente debilidade numa grande vantagem. Guardiola explica e Bernardo executa.


Esta capacidade do Bernardo só é possível de adquirir graças à mentalidade extraordinária que tem, de ser resiliente perante as adversidades e em contextos/experiências onde grande parte de nós se deixaria cair na frustração e na desculpa fácil. Há imensos jogadores que acabam por conseguir encontrar soluções para o “contacto físico”, mas julgam que o jogo está resolvido pela resolução dessa questão, mas o jogo é muito mais para além disso e é aqui que o Bernardo sobressai de todos os que tiveram que “provar que o fisíco não é o essencial” (claro que isto é desgastante, ver a descrença à nossa volta, mas é preciso ver para lá dela), é que ele vai mais além e quer aprender mais, não só a ultrapassar isso num contexto difícil como a Premier League, como a entender mais do jogo para lhe poder acrescentar dinâmica onde e em função do que for necessário.

Teve sucesso também no Mónaco com um treinador completamente diferente do Guardiola, em termos de estilo de jogo, portanto não depende só do treinador, mas também da mentalidade do jogador, em querer aprender de qualquer contexto, mesmo quando sentou no banco ou na bancada, durante anos na formação do Benfica. Se foi justo ou injusto não o posso dizer, talvez tenha sido por perder bolas nos duelos quando se dava ao contacto, abalroado nos treinos constantemente sem conseguir dar seguimento a nenhuma jogada, não sei mesmo, o que sei é que tudo o que viveu lhe serviu para ser melhor hoje. Felizmente não se agarrou à frustração de não jogar, e na época passada voltou a não fazê-lo, como o Guardiola disse: “jogou, mas não muitas vezes como titular.” (principalmente na primeira metade da época).



A expressão facial do Bernardo após o golo, onde ele teve que se implicar todo no contacto com o defesa do Fulham, para aproveitar (no momento certo) o desequilíbrio do adversário e assim ganhar espaço extra para ficar de frente e poder servir o Aguero no centro da área, diz muito... Isto exige sacrifício/treino diário e muito fracasso. Para além da inteligência e daquilo a que vulgarmente chamamos “talento” é necessário o TALENTO TOTAL (ver post).

Não se trata de inverter o preconceito para algo deste género: “os grandes não servem, os pequeninos é que são bons”. O que se deve procurar é acabar com o preconceito que existe, aquele do talento das medidas físicas (ou até o das medidas técnicas) e medir o talento pelo jogo todo e pela mentalidade que alimenta esse mesmo talento, que é o verdadeiro potencial.

O Bernardo não está mais forte (no sentido físico do termo), o que ele conseguiu foi perceber como usar o corpo e as qualidades que tem no momento certo para tirar vantagem do desequilíbrio/instabilidade corporal do adversário. Como poderão ver no vídeo, é humano e nem sempre consegue ter a eficácia que quer.


O essencial é que cada jogador se conheça e perceba como pode solucionar os problemas. O treino deve ser isso, uma descoberta do jogo, da equipa, dos colegas e do seu próprio corpo para resolver os problemas que o jogo coloca. Depois, é treinar, perceber que uns precisam de mais tempo para chegar a essa capacidade intuitiva de, por exemplo, perceber que o adversário está apenas com um pé no chão e por isso é o momento ideal para eu ter a minha hipótese de o desequilibrar com o meu corpo “frágil”. Milhares de pormenores que não se ensinam, mas para os quais se pode abrir a atenção, para que eles se possam orientar para a solução. Logo vem a realidade dura da queda, do ser abalroado muitas e muitas vezes e de ficar no banco, porque ainda não consegue ter eficácia.


Resta, entender a dificuldade como uma vantagem e lutar cada dia por se ser melhor. Nunca vi outra forma de um jogador/uma pessoa se transcender, é isto e acreditar que é possível.



a) conferência de imprensa de Pep Guardiola pós-jogo - Manchester City vs Fulham (Premier League 2018/2019)

b) jogo Manchester City vs Fulham (Premier League 2018/2019)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O Talento vai muito além da banalização de “Talento” (caso Manu Ginobili)


A banalização da palavra talento desvirtuou o conceito. Sabem quando de tanto utilizarmos determinada palavra erradamente acabamos por lhe perder/mudar o significado, foi isso que aconteceu ao “talento”. Ou isso ou então andamos a dar valor a coisas que por si só não são suficientes para serem tão valorizadas como são. Vou tentar dar uma ideia daquilo que para mim é o, chamemos-lhe, TALENTO TOTAL.

Quando se fala em talento referimo-nos sempre a algo que pode muito bem ser efémero, por se passar uma ideia de facilidade para o alcançar o estado a que se chegou e que dá uma autoridade eterna. Talento na boca do Mundo é sempre apenas parte daquilo que é necessário para se ser talentoso, é sempre o superficial e resume-se ao visível - o produto “final”. Isto para mim é o maior erro e é o que mais nos afasta da formação do/para o TALENTO TOTAL. Geralmente num jogador de futebol a análise do talento é circunscrita ao que faz com bola, porque só queremos fazer o que gostamos e geralmente quem só faz o que gosta perde qualquer hipótese de manter o talento, porque fazer só o que se gosta impede o talento de aparecer e impede até que apareça aquilo que gostamos de fazer. O segredo, como diz Toni Nadal, não é fazer só o que gostamos, mas sim gostar do que fazemos. E por isso não podemos desligar aquilo que fazemos, da mentalidade que permite manter e alcançar a cada dia "níveis maiores de talento". Sem tudo isto, talento seria algo passageiro, quando na verdade deveria ser continuidade e consistência, para que a resolução de problemas no jogo (também a nível emocional) fosse uma constante e deveria conseguir sobressair mesmo na adversidade sem cair em desculpas.

No fundo, defendo que o talento é muito mais do que aquilo que normalmente se diz. A mentalidade que demonstramos no jogo e no treino é talento e é duma importância enorme. Quem é que já ouviu o seguinte: "Eu se quisesse era melhor do que o Messi ou do que o Ronaldo. Tinha pés mas não tinha cabeça."? O que não tinha era capacidade para aproveitar o tal talento que se banalizou, e que não é mais do que uma mera habilidade sem potencial para ser mantida ou melhorada. Não tinha o talento necessário para se deixar treinar e desenvolver a cada dia, não tinha este talento de sacrificar tantas outras coisas em prol de melhorar a cada treino. Portanto é óbvio que o talento também está na mentalidade, uma grande ajuda para se melhorar por é ela que vai permitir ser talentoso no jogo, na época, na carreira, na vida.

O grande exemplo de Manu Ginobili - sendo ou não adepto de basquete, estes exemplos fascinam-me sempre, têm que ser estes os modelos a seguir, para mim serão sempre. Por tudo, no fundo pela “TOTALIDADE do seu TALENTO”.

Imaginem que aquele que é reconhecido como o que melhor joga, aquele que é o mais respeitado por todo o grupo, o líder natural, é também o que melhor treina e aquele que mais se deixa guiar pelo treinador no sentido de perceber o que se pretende dele e da equipa. É que não se trata de valorizar o treinador, esta mentalidade de deixar-se guiar está muito além dos benefícios para o treinador, é um benefício colectivo que o "líder natural" se deixe treinar sempre nos limites.

Isto é para mim o TALENTO TOTAL, tudo aquilo que ajuda a resolver da melhor forma possível cada situação.


a) extracto do programa: “La pasión según Sacheri” con Pepe Sanchez - 29 de julho de 2018

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A realidade não tem que ser inimiga da auto-estima


Mais uma vez Toni Nadal. Não me canso deste exemplo nem desta forma de pensar. Essencialmente, porque faz reflectir sobre as coisas que parecem estar instituídas, como verdades absolutas, na sociedade contemporânea.

Numa sociedade em que a palavra "não" parece estar proibida para pais e educadores, o desporto, ou algumas pessoas nele inseridas, parecem ser a excepção. A questão é: em que ponto da nossa “evolução” é que o “não” é mais nefasto para a aprendizagem do que o “sim”?

Tudo tem que ser positivo para não melindrar e fazer com que as crianças e jovens acreditem que são muito bons (ainda que isso contrarie a realidade) e que estão repletos de dons inatos e virtudes (são perfeitos). A realidade é que somos (felizmente) seres constantemente imperfeitos - o aborrecimento que seria o contrário!

Como é que se ensina alguém perfeito? Que vantagem é que tem essa noção de que somos perfeitos, aos olhos de quem nos rodeia, para o processo de aprendizagem? Não será melhor termos a noção de que "não somos bons o suficiente", para que desde esse ponto de vista seja desafiante a tentativa de melhorar?

Viverá a auto-estima da constante lembrança do quão bons somos? Parece-me que há um paralelismo entre uma má alimentação e a "auto-estima" (na forma como é normalmente tratada e percebida). A verdade é que alimentamos muito mal a nossa auto-estima, temos que entender que ela que só é verdadeiramente fortalecida na aprendizagem e na noção de que há sempre algo a melhorar - processos que vivem de experiências, que por sua vez têm consequências. Dizerem-nos que somos melhores que os outros, que merecemos jogar mais (para dar um dos muitos exemplos) coloca pressão para provarmos que realmente somos isso que nos dizem (muitas vezes só para nos “animar”). O que acontece é que mais tarde ou mais cedo a realidade nos pode mostrar que não somos capazes de cumprir com essas expectativas. Muitas vezes o que sucede é:

- os miúdos “mudam a/de realidade”, para uma que lhes permita provar que são bons como toda a gente lhes diz - isto implica empobrecer os contextos de forma a que só lhes sejam apresentados problemas fáceis de resolver, para não correr riscos de fracassarem;
- constantemente arranjam desculpas para o fracasso e assim mantêm a sua “reputação” intacta;
- passam a entender que quem os rodeia não está ali para “espicaçar” a aprendizagem e apercebem-se/sentem então que vivem num lugar onde toda a gente é responsável por tentar fazê-los felizes – que mensagem é que isto passa?

Transmitir-lhes valores e guiá-los? Claro que sim! Mas no final de contas eles terão que sentir que essa busca pela felicidade é um caminho pessoal e que terá que ser construído por eles, com fracassos e frustrações que eles terão que aprender a ultrapassar. Se os desafios/as experiências são o caminho para aprender, o fracasso é apenas a consequência que decorre do tentar, é um "mal" necessário para nos tornarmos melhores, nada mais. Assim entendido este processo torna-se muito mais aliciante, especialmente se também houver a possibilidade se falhar.

A realidade é que somos "imperfeitos", aceitemos isso com naturalidade e almejemos melhorar.

a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As necessidades fundamentais do desenvolvimento



Melhorarmo-nos e (no caso de Gente cuja paixão é formar) melhorar os outros deve ser uma preocupação diária. Importa perceber as devidas diferenças entre o ensinar e o criar condições para que se aprenda e ainda que não fale disto ao longo das seguintes linhas importa ter isso presente, para se perceber que o ideal é que a vontade de melhorar parta de cada um ainda que hajam variadíssimas formas de “espicaçar” essa vontade.
 
Ora, para que se dê este "melhorar" constante, há algumas condições fundamentais:

1. "Amar o que fazemos!" (que não é o mesmo que "fazer (só) aquilo que gostamos"). Entender o conceito de “amar o que fazemos” como catalisador da aprendizagem é fácil. O que acontece é que, erradamente, damos por muita gente que quer retirar do processo tudo aquilo que a criança não gosta ou a faz sentir-se frustrada - “Medalhas para todos!”, “Não gostas de defender? Ok, tu só atacas!”, “Não se fala em perder ou ganhar no treino, porque isso faz ‘sofrer’ quem perde!”… é nefasto retirar do caminho da criança tudo aquilo que a incomoda, mas que faz parte da vida eu diria até que algumas coisas (na devida proporção) devem ser promovidas para que o desconforto surja e assim haja a possibilidade de ser ultrapassado, como uma vacina.

2. "Ter a noção de que não somos bons o suficiente!" - somos sempre um processo inacabado, por isso “aprender” é algo que nos deve acompanhar toda a vida. Esta noção temos que a ter dentro de nós, mas o contexto (quem nos rodeia e contra quem "competimos") tem que nos fazer sentir isso mesmo. Se o contexto for demasiado fácil e não nos causar qualquer desconforto, então a necessidade de melhorar nunca será tão grande. Não devemos depender exclusivamente da nossa consciência de que temos muito que melhorar, é necessário que o dia-a-dia nos faça sentir isso, precisamos de nos colocar em situações que provoquem em nós o aparecimento da mentalidade certa e que mantenham em nós os hábitos que nos aproximam da evolução.

3. "Saber que melhorar é algo difícil!" O desafio, o desconforto e o obstáculo como parte importante da aprendizagem. Isto está em tudo relacionado com o ponto anterior. Não se dar às facilidades. Ver na dificuldade um desafio e não um impedimento para alcançar o que queremos. Perceber que a dificuldade me dá um “empurrãozinho” até encontrar as melhores soluções, enquanto que a facilidade me permite resolver o problema de qualquer maneira – bem ou mal o resultado será sempre positivo, no imediato. Ter este gosto pela dificuldade é algo essencial para melhorar. Ter gosto por aquilo que nos custa alcançar, retirar prazer desse processo sentindo que por esse caminho há mais hipóteses de nos tornarmos melhores. Formar neste ambiente é sempre mais saudável do que mascarar tudo com injecções de confiança sem sentido do que é a realidade.

4. "Máxima <<ilusión>>!" Esta palavra que no vídeo aparece traduzida como "paixão" é mais do que isso, é um misto de muita coisa. É um conceito que envolve paixão, entusiasmo, esperança, sonho, vontade, crença... é tudo aquilo que nos leva à transcendência, é aquilo que perante todas as adversidades faz com que nos superemos, é o que, perante um problema difícil e que nos demonstra mais uma vez que "não somos bons o suficiente", nos faz procurar as soluções para a sua resolução.

Mas deixo-vos o vídeo onde fala quem sabe melhor.


a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso "Lo Que De Verdad Importa" organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;
b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;
c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Rui Faria - Periodização Táctica, Valores e a (eventual) sombra de Mourinho (PARTE I)


 1. Periodização táctica e a desconstrução de ideias estereotipadas, de dogmas. A aceitação duma outra forma de fazer e o entendimento do que se faz:
<<No Inter, eles diziam "na última época víamos o preparador físico em cima da bicicleta e punha os jogadores a correr às voltas nesta pista, porque não fazes o mesmo?" e eu respondi, pela mesma razão que os atletas não jogam futebol para melhorar a sua técnica de corrida", eles começaram a rir-se. Nunca ninguém tinha parado para se questionar.>> Rui Faria

Tanto no jogo como no treino importa pensar no porquê de se fazer o que se faz. Questionarmos o porquê de se fazerem as coisas (questionar porque se quer entender e não questionar para condenar). Depois há a capacidade de convencermos as pessoas na estrutura e os jogadores, isso é outra questão e talvez seja o mais difícil, mas antes disso estará a importância de educar as pessoas para que percebam o porquê. Se é difícil mudar quando são adultos, então fará sentido que na formação se habituem as crianças a pensar no porquê de se fazerem as coisas. Para dar outro exemplo, o conceito de "Abrir o campo", estará isto de tal forma enraizado que já se tornou numa obrigação ou é verdadeiramente entendido o porquê?

2. O respeito pelas crenças, mas sem deixar de fazer o jogador pensar e questionar aquilo que sempre fez.

<<Em Madrid a propósito do trabalho intensivo do C.Ronaldo no ginásio. "Eu disse-lhe 'Com isto vais perder mobilidade e agilidade, e um rapaz como tu vive da velocidade com a bola, tu tens muita habilidade para o drible.' Mas nunca lhe disse para parar, só lhes abria as mentes para uma abordagem diferente.">> Rui Faria

Proibir de fazer quando alguém acredita tanto que o trabalho no ginásio foi o que o tornou no melhor jogador do Mundo, ou noutros casos, impedir alguém de fazer aquilo que durante toda a vida consideraram ser vital para o seu crescimento (como por exemplo rezar, ou um amuleto da sorte, ou umas corridas à volta do campo) seria mais nefasto do que benéfico. Mas ainda assim colocar a nossa semente e fazê-los pensar não custa nada e se do outro lado estiver alguém maduro irá perceber que são formas diferentes e que com certeza os treinadores só querem ajudar.


3. A Mentalidade que faz dum "grande jogador" um "ainda melhor jogador".

<<Eu trabalhei com vários bons profissionais, mas o C.Ronaldo é talvez o melhor no seu desejo de ser melhor a cada dia. Podíamos chegar ao campo de treinos às 04:00 (madrugada) após um voo e ele queria água fria, água quente e pedia a alguém para lhe dar uma massagem. Podia acabar um treino ficar mais uma hora a marcar livres ou a fazer uma acção como vir para dentro e rematar. Enquanto miúdo, com 12 anos, deixar a Madeira para ir para o Sporting, porque tinha um sonho, uma paixão... e ele construiu a sua carreira baseada na paixão e no trabalho árduo. Respeito-o muito.>> Rui Faria

Independentemente de ser determinante a massagem, os livres extra ou não, o que importa perceber é a intenção por detrás disso. Que mentalidade tem alguém que prescinde de tempo com a sua família, que prescinde de tempo de diversão com os seus amigos, para ser melhor a cada dia? Não é falta de amor pela família com certeza, mas é uma paixão muito grande e uma vontade enorme de ser melhor naquilo a que se entregou de alma e coração - ser jogador de Futebol.


a) Entrevista de Rui Faria ao "The Times" - 29/Set/2018.
    Texto de Henry Winter, fotografia de Ben Stevens.