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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Anti-(Cultura de anti-superação)


Se há coisa que procuro diariamente são exemplos de superação, de gente que transcende a dificuldade e os maus momentos, gente que se agarra ao que de bom ainda existe para solucionar e atenuar os defeitos que com o tempo aparecem, mas aquilo que se vê é gente que quer apagar o passado e o presente esquecendo as perspectivas que se tinham para o futuro.

Inspiram-me pessoas, casais, famílias, grupos, equipas, povos, gente que na dificuldade se une para superar as adversidades para seguir um caminho com esperança num futuro melhor, ainda que no caso do futebol isso possa não ser o suficiente para se alcançar os objectivos. Até que ponto damos verdadeira oportunidade para que mais casos destes surjam? Que espaço há para “cair e levantar com mais força”?

Todos sonhamos com uma vida cheia de momentos desses, momentos onde toda a gente junta encontra soluções para poder resolver grande parte dos problemas que nos empurram para baixo. Mas nem sempre a realidade nos dá estes exemplos, o que é acontece tantas vezes é que quando surje uma dificuldade, uma crise, uma dúvida, um momento em que parece não haver um rumo, depois duma desilusão… a coisa resolve-se com o afastamento de quem é responsável. Não se trata de defender treinadores, trata-se de preferir ver gente que se une na dificuldade, do que ver afastar-se gente na "tempestade que vem após a bonança" (nem era bom que a ordem das coisas fosse linear).

Guardiola esteve a 7 pontos do Liverpool e certamente não se vivia tranquilamente em Manchester (city), certamente houve quem duvidasse, mas todos se uniram agarrando-se à pequena chama da esperança. Isto não se consegue só às custas da inspiração de um grande líder, é necessário um determinado tipo de gente que assuma a liderança de si próprio e de quem os rodeia, todos têm que ser responsáveis por inspirar/cativar. O líder também busca, muitas vezes, essa inspiração nos jogadores que lhe mostram que estão ali para dar a volta por cima a cada dia.

Sempre que me vem à cabeça a palavra “superação” recordo-me de Vítor Pereira e das suas épocas no FCPorto. Um Homem que teve que superar o “catálogo” que tinha de adjunto para poder criar uma cultura, uma equipa dominadora e que sempre tentou solucionar o jogo pela busca da bola, com garra sim, mas com muito jogo… e conseguiu-o num clima de dúvida diária.

Jorge Jesus, que perdeu tudo pelo SLBenfica nas duas últimas semanas da época 2012/2013, é outro grande exemplo. Tinha uma equipa destruída naquela final da Taça, com jogadores em conflito e dessa queda frustrante levantou-se gente capaz de criar uma equipa feliz a jogar.

Isto é impossível sem os tais jogadores (e toda a gente do clube) que “inspirem” o treinador, jogadores que se deixam guiar e que ao mesmo tempo guiam os companheiros que se mostram com mais dúvidas. O Líder tenta cativar para as suas ideias, mas sozinho não é nada, precisa que todos queiram e acreditem que é possível criar novos laços quando parece só haver um vazio à nossa frente.

Não nos habituemos a este clima de anti-superação que ganha vida na “chicotada-psicológica”, tentemos juntos. Não esperemos o afastamento de uns e a chegada de outros para tentar. Tentemos todos os dias para que consigamos continuar unidos e seguir com todos até ao fim. Este é o meu sonho: que não se quebrem os laços que outrora nos fizeram sonhar por um momento de dúvida.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Guardiola e a pergunta esperada!


Agora fala-se de recordes e do lindo que é o sucesso de treinadores, de jogadores, e de todo o staff de um clube, mas aqueles que hoje ganham (e perdem) percorreram um caminho... o deles, melhor ou pior, com altos e baixos... o fundamental é que sintam que esse foi o caminho que escolheram, aquele que quiseram percorrer independentemente do resultado final, mas sempre pensando que esse seria o percurso que os aproximaria do triunfo e do crescimento.

Ora, há uns meses Manchester city estava a 7 pontos do Primeiro classificado (Liverpool), condenado a entregar o campeonato caso nada mudasse na forma como procuravam disputar o jogo. Nessa altura surgiu a inevitável e previsível pergunta, que nada mais é que o espelho duma sociedade superficial e com um pensamento que, de tão linear, reduz o potencial de transcendência que temos dentro de nós. Urge maior diversidade para que haja mais alternativas e assim espaço para quem valoriza mais o que é feito sem espera que surja o resultado.

Vencer é o raro, não o comum. Ser o melhor mais vezes do que aquelas em que não se é o melhor, é algo raríssimo (se é que existe... durante uma vida inteira). Portanto, o essencial é melhorar sempre, isso está ao alcance de todos, ao passo que vencer (no sentido de ser o Primeiro) está ao alcance duma minoria. Em centenas de equipas que integram todas as divisões do futebol Inglês, por exemplo, só uma vai ser "a melhor". Portanto, vencer é para UMA só, mas melhorar tem que ser para todas, e temos que encontrar motivos para melhorar tanto nas vitórias como nas derrotas (o caminho é tudo e tem de tudo).

Dito isto, vencer não pode ser um medidor da qualidade dos estilos, vencer (no máximo, se tudo correr bem) é o medidor da qualidade das equipas, dos seus jogadores e da forma como jogaram numa determinada época.

Vamos lá imaginar que toda a gente jogava segundo um só estilo e só existia um tipo de jogador, ainda assim só um ganharia. 20 equipas com um só estilo implicava (na mesma) ter 19 equipas a fracassar, e só uma a vencer. O fracasso desse estilo seria muito maior do que o triunfo (19 - 1, goleada das antigas).

A questão é: o que resta aos normais? No fundo, o que resta aos treinadores (humanos) que perdem mais títulos quando comparado com o número de títulos que ganham? (Ou seja todos os treinadores). Se todos queremos ganhar mas quase ninguém ganha, o que é que nos move?

Consideramos duas coisas fundamentais:

- a superação que se reflecte na procura de soluções para os problemas (do jogo, essencialmente) que geram aprendizagem e por isso desenvolvimento;
- as crenças (que se traduzem em princípios/valores que definem aquilo que nos guia) que são fruto das nossas experiências. As crenças vão-se aperfeiçoando desde que não deixem de orientar o processo de crescimento (da forma de jogar da equipa).

Estas são duas condições fundamentais e que devem ser à prova de bala (neste caso de derrotas ou de dificuldades), tal como Guardiola fala.

Melhorar implica uma mudança, mas melhorar não é mudar. Porque procurar soluções para aquilo que não fazemos bem não implica mudarmos aquilo que é o nosso estilo ou a nossa essência, é simplesmente corrigir erros. Mudar de crenças/de ideias/de filosofias (que no fundo são também muito de que nos caracteriza) é perder o rumo e assim sendo é deixar o processo entregue ao aleatório e à anarquia. Porque saltitar entre "crenças" é não ter crenças nenhumas, é perder sentido da nossa missão e é perder a capacidade de orientar o processo. Neste caso, o que nos moveria e segundo que perspectiva iríamos ver o jogo para procurar o porquê de ganharmos e porquê de perdermos?

A crença é o que nos mantém no caminho do desenvolvimento independentemente das dificuldades e dos obstáculos. A superação é aquilo que nos permite melhorar a cada momento do processo e assim aprender a melhor ultrapassar os obstáculos. Assim sendo ambas nos colocam mais perto de ganhar.

Sem crenças (algo que nos define e guia no jogo e na vida) e sem a vontade de nos superarmos seria uma questão de tempo até que tudo deixasse de fazer sentido, para nós e para quem nós orientamos.

A pergunta que deveríamos fazer a nós próprios em momentos difíceis não é aquela que foi feita ao Pep, deveria antes ser a seguinte: Como e em que é que eu, com as crenças que me definem e me dão uma tendência para resolver os problemas do jogo de uma determinada forma, posso CONTINUAR a melhorar a minha equipa e os meus jogadores?


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Guardiola: "O jogador por si só não é nada no Futebol"


Guardiola sobre o jogador e o facto de ele estar inserido numa rede de conexões (uma equipa).

O Futebol é transcendência humana. O Futebol é a valorização do ser humano enquanto ser social.

Entender o jogo terá duas facetas igualmente importantes para que o jogador e a equipa possam fluir: uma será penetrar naquilo que é a individualidade, procurar conhecer-se a si próprio e saber auto-gerir-se, a outra passa por cada jogador perceber como se deve associar com os que o rodeiam – conhecer os outros. Só desta forma sobressai o brilhantismo do pormenor individual, só assim haverá potencial para o surgir do "rasgo de genialidade", sempre como consequência da associação colectiva. Assim deveria ser na sociedade e assim tem que ser no Futebol.

A influência das metodologias/tecnologias aplicadas aos desportos individuais tem assaltado o Futebol desde que se começou a competir e a treinar. A obsessão pela análise (quantitativa) da performance individual, de forma isolada, está presente no dia a dia de quem treina/joga. Apregoamos que a "união faz a força", que "juntos somos mais fortes", que "o todo é mais do que a soma das partes", mas na hora de melhorar o jogador isolamo-lo constantemente, como se a melhoria de cada jogador fosse incompatível com o treino colectivo, no sentido de perceber melhor como estabelecer ligações com os meus companheiros e como resolver os problemas que surgem no jogo de acordo com uma lógica comum.

Nós diríamos que a grande melhoria individual está na melhoria do entendimento daquilo que me rodeia, no timing da relação com os demais, na eleição dos espaços a pisar a cada segundo, na forma como me oriento no campo em função dos outros (meus ou deles), da bola e da baliza, naquilo que consigo alcançar em termos de informação e na capacidade de distinguir as prioridades a cada momento. Estas coisas são de tal forma complexas que a sua aprendizagem acontece muito mais de forma inconsciente na exposição a "jogos complexos" (não nos referimos exclusivamente a “jogo formal”) com frequência, ainda que a reflexão consciente na busca de entendimento do jogo seja também importante. É necessário "reduzir sem empobrecer" (Vítor Frade), para não perda do essencial, e o essencial é aprender a jogar (com noção de tudo o que isso implica).

Este "reduzir" existe no sentido de melhorar relações e detalhes individuais, no sentido de melhorar o todo/a equipa, "sem empobrecer" pois tem que ser em função do contexto de jogo/da equipa em que estamos inseridos (com os meus colegas e a ideia do treinador), treinar sem algo que me ligue a esses referenciais é artificial e fará com que jogue um jogo só meu, desligado do que me rodeia, com lapsos na forma como me movimento, pois serei incapaz de o fazer em função dos outros.

Claro que isto requer tempo até que os outros façam parte daquilo que eu sou no jogo. No fundo trata-se de, sabendo quem somos, perceber o que podemos dar e receber dos que estão connosco.

"Eu, sou eu e a minha circunstância" José Ortega y Gasset


a) entrevista exclusiva a Pep Guardiola (Man.City) publicada no canal do youtube Stadium Astro a 18/05/2018

segunda-feira, 25 de março de 2019

Afinal, quanto tempo é necessário para construir uma EQUIPA?


Guardiola fala sobre o que mais importa e sobre o tempo que não existe para se construir precisamente isso que mais importa, que é criar uma forma de jogar de acordo com a ideia do treinador e percebendo o que cada jogador pode dar e como poderá ser útil, dando vida à ideia e ao jogo. Costinha confirma a necessidade de tempo para que se mudem mentalidades e se mudem hábitos.

Várias coisas para reflectir sobre este tema levantado por Guardiola e Costinha, por exemplo:

- a necessidade de se formar desde cedo para que ter a bola e “manejá-la” desde trás não seja um desconforto, isto para que a passagem de um sector para o outro por dentro ou por fora não seja uma forma arriscada de deixar para trás as várias linhas do adversário. Formar para um jogo posicional que permita que quem recebe a bola o possa fazer de forma ameaçadora para a estrutura adversária e sem perda de segurança. Pode-se formar também para combater um jogo mais directo e onde se pretende ser agressivo com a intenção de ganhar as segundas bolas jogando atacando rápido a baliza a partir daí. Formar para que os jogadores "mais débeis", no choque, consigam jogar e ser úteis numa equipa que se propõe contrariar esse tipo de jogo, levando-o mais vezes para o jogo que lhes convém.

Porquê esta necessidade? Para que seja um hábito e não seja preciso aquele tempo todo de adaptação de que o Costinha fala, e que passa por mudar hábitos tendo que convencer ou passar por um processo de algum desconforto em campo, para que, passado esse tempo, o jogador se deixe guiar e aprenda a sentir-se confortável com os novos hábitos que se pretendem criar na equipa, neste caso com o Costinha como treinador.

- "ou ganhas ou despedem-te" Pep Guardiola. Quem é que não sabe disto? Até na formação... ganhar é o mais importante na hora de avaliar a qualidade do treinador. A revolta do Guardiola, e de treinadores que estão no futebol há muito tempo, parece ter sido silenciada pela resignação perante esta mentalidade e pela necessidade de procurar outras coisas que sintam ser capazes de controlar melhor, e que tem a ver com a criação de uma forma de jogar, baseada no seu entendimento/sentimento, mas procurando ajustar a algumas características que os jogadores têm e que são aquilo que dá fluidez e imprevisibilidade ao "seu" jogo.

Seria bom ter tempo? Claro que sim, porque mesmo sem se ganhar um título saberíamos que, se a cultura fosse de ver as coisas a longo prazo, haveria muito menos crises na derrota (de pais, de dirigentes, de adeptos...) e isso permitiria que as pessoas se focassem no crescimento da equipa e dos jogadores no sentido de melhorarem a forma como se joga. Todos se sentiriam responsáveis por isso e não só o treinador. Aliás, treinador e jogadores, que ninguém retire a grande importância/responsabilidade dos jogadores no que toca ao jogo que a equipa joga, nem no mérito nem no fracasso. Tony Kroos disse, aquando da saída de Lopetegui do Real Madrid que “é um sinal de fracasso para os jogadores quando o treinador é despedido”. São interpretações e formas de estar no futebol, mas sem dúvida que toda a gente se enriqueceria numa cultura onde há tempo para se construir uma EQUIPA e onde todos sentem a responsabilidade das melhorias e dos fracassos.

Sabendo que não há tempo, o treinador vive num dilema. Para nós, tendo em conta que perder é sempre uma hipótese, o melhor é agarrarmo-nos ao jogo e ao crescimento dos jogadores.


a) entrevista de Guardiola à ESPN Brasil em 2017
b) Conferência de Costinha, enquanto treinador do Nacional – pré-jogo, Primeira Liga Portuguesa 2018/2019 (CDNacionalTV canal do youtube)

quinta-feira, 21 de março de 2019

Respeitar o presente da equipa/dos jogadores com o futuro no horizonte


Já muito aqui se falou da necessidade de uma Ideia de Jogo por parte do treinador que, resumidamente, é um conjunto de princípios (orientadores) de jogo, absolutamente fundamentais para sustentar e dar um sentido a todas as dinâmicas, todas as decisões e toda a expressividade individual dos jogadores. São no fundo os pilares com os quais o treinador acredita estar mais perto de controlar, dominar e ganhar o jogo.

O treino tem sempre como propósito construir uma EQUIPA, no sentido de gerar interacções cada vez mais coerentes, fluídas e que dêem espaço para que cada jogador se possa expressar em campo de acordo com o seu potencial. Mesmo que não houvesse treinador a equipa iria sempre crescer qualquer coisa com o facto de jogar junta, o entrosamento iria ser cada vez maior e iria gerar-se ali uma auto-organização e uma cultura própria. Por exemplo, se o Guarda-redes (independentemente do potencial para fazer diferente) nunca tivesse tido referências de sair curto em segurança o mais provável é que não se sentisse confortável em fazê-lo mesmo com algum espaço para e por isso a saída iria sempre ser longa a não ser que os Centrais insistissem com ele ou o contrário ele querer e os DCs. ou Laterais insistirem para meter no Ponta, mas e se o Ponta não conseguisse sequer promover a segunda bola?

Talvez tenha sido daqui que se tenha pensado: "E se nomeássemos alguém para orientar isto? Para dar um sentido comum a todos?" Mas, como é óbvio, a necessidade de haver treinador não surgiu com a intenção de subtrair potencial aos jogadores, nenhum treinador que entenda o jogo quererá que isso aconteça, por mais que não seja, porque sabe que isso o afastará de triunfar. O que preenche verdadeiramente muitos treinadores é chegar a todos os jogadores do plantel e ajudá-los a crescer e a perceber/senitr que a sua evolução individual depende muito dos companheiros que os rodeiam – isto tem que ver com os tais princípios que promovem a interacção de determinada forma específica.

Queremos com isto chegar ao ponto em que o treinador que fecha todas a possibilidades do jogo na sua ideia, não está a respeitar o conceito de "Princípios". "Se são princípios é porque não são fins" (Professor Vítor Frade) e não sendo "fins" não são fechados, simplesmente procuram orientar e este orientar não é limitar, bem pelo contrário, é ampliar as possibilidades de cada jogador poder antecipar aquilo que mais ou menos poderá acontecer, pois há referenciais que permitem isso e, num jogo onde os jogadores têm que decidir em fracções de segundo, ter esta ajuda (sim estamos para ajudar) é claramente uma mais valia e eles próprios sentem isso.

Precisamente porque o treinador não limita as possibilidades do jogar da equipa aos grandes princípios, é que Guardiola dá imenso espaço para também ele se “deixar guiar” pelos seus jogadores, pelas suas qualidades e pela sua qualidade, pelo que vai aferindo no dia-a-dia. Assim, tendo Busquets, Xavi, Iniesta e Fabregas decidiu que poderia muito bem jogar num 3-4-3 de forma o poder tê-los a todos em campo e assim estar mais perto de controlar o jogo tal como o entende e como a sua equipa estava preparada para o jogar, porque isto influencia muito.

Aquilo que orienta as decisões/escolhas do treinador, tanto em termos de exercícios, como do que irá ser a semana em termos aquisitivos/recuperação e até a convocatória, o onze titular e as próprias substituições é: a sua concepção de jogo que dá uma lógica a longo prazo ao processo, é o potencial dos jogadores para crescerem nesse mesmo processo, é o adversário, é aquilo em que a partida se tornou e a necessidade de dar continuidade ou de recuperar o controlo, etc., mas também é aquilo que a equipa faz no presente e que lhe garante a possibilidade ou não de controlar/dominar o jogo, ou seja, “nós queremos caminhar neste sentido e estamos a tentar evoluir os jogadores desta forma para lhes dar mais condições para que esta identidade seja cada vez mais coerente e sem ‘dúvidas’, mas tendo em conta o que somos enquanto equipa HOJE, com que jogadores (não esquecendo os seus estados de espírito) estaremos mais perto de o fazer neste momento?”

Consideramos ser esta uma das questões mais difíceis de responder, porque se trata de avaliar constantemente e de decidir em função dos jogadores e daquilo que juntos (jogadores e treinador) fomos capazes de construir até ao “aqui e agora”, porque isso é o que somos (não somos no passado nem o futuro, somos o que somos) Conciliar isto com a importância de seguirmos o caminho que nos garanta melhorar... é esta a arte, a de misturar isto tudo e conseguir, a cada passo que a equipa vai dando (no sentido de construir uma identidade e um estilo “à prova de bala”), perceber aquilo que é necessário, em função do momento em que nos encontramos, para que os jogadores se sintam bem e consigam controlar e dominar da melhor forma possível o jogo (o próximo).

Esta sensibilidade foi a que fez o Guardiola avançar para o 3-4-3 percebendo que havia condições para o fazer sem perde de fluidez em todos os momentos e com ganhos de criatividade e de entrosamento entre todos. Noutros casos é o jogador de determinadas características e que ainda não tem o estatuto necessário e por isso mesmo, por causa desta mesma questão, o treinador sente que não será o momento, não há o mínimo de sustentabilidade do jogo da equipa para que ele possa ir e mesmo que a coisa não seja perfeita a equipa tem bases para suportar as suas debilidades.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Um por todos e todos pela Bola!


A essência do Futebol Total nasce da vontade de determinar os caminhos da bola pelos nossos próprios pés, ou, quando não a temos, determiná-los limitando aqueles que a têm. É total porque enquanto EQUIPA não há “os que servem só para defender” e “os outros que são só para atacar”, e é por isso mesmo que imbuídos desta ideia vamos caminhando juntos no campo, para estarmos sempre disponíveis para interferir nas trajectórias a dar à bola tendo-a ou não a tendo.

Antes do jogo de futebol aquilo que nos é apresentado no seio da família é uma bola. O jogo/a paixão/a brincadeira para nós começa por ser uma bola, e andamos alguns anos em que a nossa relação (remota) com o futebol é essa, exclusivamente. Só mais tarde passamos a incluir, a permitir que algumas pessoas em quem nós confiamos muito partilhem o prazer da bola connosco, com a condição de que a devolvam rápido. É um choque o primeiro momento em que nos roubam aquilo que sempre foi nosso, é um choque quando descobrimos que afinal havia mais para além da bola. Não raras vezes a reação “à perda” é chorada, revoltada, amuada, ou uma tentativa, mas proactiva e alegre de a recuperar – tudo soluções com o mesmo fim ter a bola de novo para “mim”, porque sem ela não há jogo, porque ela é tudo o que concebemos do jogo.

Portanto podemos dizer que é da bola que nasce a ideia, é da bola que nascem todos os princípios. Podemos não ter aquilo a que chamamos recordações, mas a memória do nosso corpo vai entranhando, vai (progressivamente) somatizando uma cultura do que é o jogo para nós desde que nascemos (através das experiências com aquilo que nos é dado “à nascença”)... inegavelmente a bola está no princípio de tudo!

Não é de admirar que muitos miúdos percam o interesse quando percebem que o jogo que inicialmente lhes apresentaram – a bola, esse objecto que nos fazia sentir os donos do mundo – é afinal bem diferente daquele que mais tarde os vão colocar a jogar – com a ajuda de 10 colegas tentar colocar a bola (partilhando-a muitas vezes) dentro de um retângulo, e de preferência mais vezes do que outros 11 que nos procuram dificultar essa tarefa, porque querem o mesmo. Ou seja há muito mais do que aquilo que nos deram a conhecer, talvez por isso muitos se dedicam ao freestyle tanta é vontade de constantemente terem aquilo que lhes disseram que era deles e que era a única coisa que precisavam para ser felizes. Para os que se apaixonam pelo jogo (e por tudo o que ele é) muitas outras coisas interferem no longo processo até chegarem a uma equipa sénior, mas relembramos: a bola está na origem de tudo.

Para os que não se esquecem do ponto de partida que lhes permitiu mais tarde conhecer o jogo de futebol há muita esperança, é que o jogo também ele pode nascer da bola, valorizando-a numa “obsessão” por tê-la de forma a determinar aquilo que lhe acontece, evitando os constrangimentos colocado pelo adversário. E é aqui que nasce uma necessidade vital para aqueles para quem o futebol só faz sentido com a bola: a EQUIPA. A descoberta de que se não dermos a bola “aos nossos” estaremos mais perto de ficar sem ela para sempre é o que nos abre para a partilha e para o Futebol Total, onde as paixões de todos nasceram do mesmo e por isso todos temos o privilégio de atacar e o privilégio de defender.

É nesta necessidade que a EQUIPA ganha uma enorme importância, mas fiquemos tranquilos, porque a valorização da equipa também valoriza o individual. E também podemos ficar descansados, porque valorizar a bola não significa que vamos ter jogadores que não sabem defender, antes pelo contrário.

Esta valorização quase obsessiva, mas que no fundo é "só" apaixonante, vai trazer para o treino e para o jogo uma necessidade de defender muito bem para recuperarmos aquilo que mais queremos ter para dominar o jogo. Claro que defender para ganhar a bola não é o mesmo que defender só para proteger a baliza e por isso, neste carinho pela bola, surgem jogadores que defendem de formas diferentes (com referências diferentes) - há então uma especificidade que será importante para o futuro. O "habitat natural" no futuro poderá ser diferente em função do jogo que se foi jogando de pequeno. Por isso é também importante jogar (os treinos onde há dificuldade são essenciais – equipas equilibradas) contra equipas que nos façam passar por problemas na imposição daquilo que nós queremos e que nos obriguem muitas vezes (por não nos darem outra hipótese) a ter como prioridade a proteção da baliza (como maior preocupação, não única entenda-se, em determinados períodos do jogo).

Tendo isto em conta (a bola como origem do jogo) que melhor forma de jogar que não sendo "todos a atacar e todos a defender"?

Precisamos de todos para, enquanto mantemos a segurança da bola, procurarmos progredir e chegar perto da baliza com gente para recuperar a bola logo que possível e para haver várias soluções para finalizar.

Precisamos de todos para, enquanto protegemos a profundidade nas costas da última linha, mantermos a bola sob pressão para a (re-)conquistar e também necessitamos de quem proteja (numa zona intermédia) aqueles que com agressividade provocam o erro com essa pressão na bola. Assim como com bola precisamos daqueles que jogam por dentro, dos que criam duvida no adversário nas várias dimensões/amplitudes do campo, etc. etc. etc.

Do nascermos sozinhos com a bola à EQUIPA que dá sentido ao jogo com bola, vai um longo caminho que não se quer com grandes pressas, nem o jogo nem o caminho.



a) foto retirada da página oficial do facebook de Johan Cruyff