Mostrar mensagens com a etiqueta #PoderDaCrença. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #PoderDaCrença. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Guardiola e a pergunta esperada!


Agora fala-se de recordes e do lindo que é o sucesso de treinadores, de jogadores, e de todo o staff de um clube, mas aqueles que hoje ganham (e perdem) percorreram um caminho... o deles, melhor ou pior, com altos e baixos... o fundamental é que sintam que esse foi o caminho que escolheram, aquele que quiseram percorrer independentemente do resultado final, mas sempre pensando que esse seria o percurso que os aproximaria do triunfo e do crescimento.

Ora, há uns meses Manchester city estava a 7 pontos do Primeiro classificado (Liverpool), condenado a entregar o campeonato caso nada mudasse na forma como procuravam disputar o jogo. Nessa altura surgiu a inevitável e previsível pergunta, que nada mais é que o espelho duma sociedade superficial e com um pensamento que, de tão linear, reduz o potencial de transcendência que temos dentro de nós. Urge maior diversidade para que haja mais alternativas e assim espaço para quem valoriza mais o que é feito sem espera que surja o resultado.

Vencer é o raro, não o comum. Ser o melhor mais vezes do que aquelas em que não se é o melhor, é algo raríssimo (se é que existe... durante uma vida inteira). Portanto, o essencial é melhorar sempre, isso está ao alcance de todos, ao passo que vencer (no sentido de ser o Primeiro) está ao alcance duma minoria. Em centenas de equipas que integram todas as divisões do futebol Inglês, por exemplo, só uma vai ser "a melhor". Portanto, vencer é para UMA só, mas melhorar tem que ser para todas, e temos que encontrar motivos para melhorar tanto nas vitórias como nas derrotas (o caminho é tudo e tem de tudo).

Dito isto, vencer não pode ser um medidor da qualidade dos estilos, vencer (no máximo, se tudo correr bem) é o medidor da qualidade das equipas, dos seus jogadores e da forma como jogaram numa determinada época.

Vamos lá imaginar que toda a gente jogava segundo um só estilo e só existia um tipo de jogador, ainda assim só um ganharia. 20 equipas com um só estilo implicava (na mesma) ter 19 equipas a fracassar, e só uma a vencer. O fracasso desse estilo seria muito maior do que o triunfo (19 - 1, goleada das antigas).

A questão é: o que resta aos normais? No fundo, o que resta aos treinadores (humanos) que perdem mais títulos quando comparado com o número de títulos que ganham? (Ou seja todos os treinadores). Se todos queremos ganhar mas quase ninguém ganha, o que é que nos move?

Consideramos duas coisas fundamentais:

- a superação que se reflecte na procura de soluções para os problemas (do jogo, essencialmente) que geram aprendizagem e por isso desenvolvimento;
- as crenças (que se traduzem em princípios/valores que definem aquilo que nos guia) que são fruto das nossas experiências. As crenças vão-se aperfeiçoando desde que não deixem de orientar o processo de crescimento (da forma de jogar da equipa).

Estas são duas condições fundamentais e que devem ser à prova de bala (neste caso de derrotas ou de dificuldades), tal como Guardiola fala.

Melhorar implica uma mudança, mas melhorar não é mudar. Porque procurar soluções para aquilo que não fazemos bem não implica mudarmos aquilo que é o nosso estilo ou a nossa essência, é simplesmente corrigir erros. Mudar de crenças/de ideias/de filosofias (que no fundo são também muito de que nos caracteriza) é perder o rumo e assim sendo é deixar o processo entregue ao aleatório e à anarquia. Porque saltitar entre "crenças" é não ter crenças nenhumas, é perder sentido da nossa missão e é perder a capacidade de orientar o processo. Neste caso, o que nos moveria e segundo que perspectiva iríamos ver o jogo para procurar o porquê de ganharmos e porquê de perdermos?

A crença é o que nos mantém no caminho do desenvolvimento independentemente das dificuldades e dos obstáculos. A superação é aquilo que nos permite melhorar a cada momento do processo e assim aprender a melhor ultrapassar os obstáculos. Assim sendo ambas nos colocam mais perto de ganhar.

Sem crenças (algo que nos define e guia no jogo e na vida) e sem a vontade de nos superarmos seria uma questão de tempo até que tudo deixasse de fazer sentido, para nós e para quem nós orientamos.

A pergunta que deveríamos fazer a nós próprios em momentos difíceis não é aquela que foi feita ao Pep, deveria antes ser a seguinte: Como e em que é que eu, com as crenças que me definem e me dão uma tendência para resolver os problemas do jogo de uma determinada forma, posso CONTINUAR a melhorar a minha equipa e os meus jogadores?


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

"Jogar com coragem e carácter!" Pep Guardiola


A coragem (eventualmente também a garra, a vontade de ganhar) deve surgir sempre ligada a princípios que são aquilo que dá sentido a todas a emoções e que nos orientam nos bons e maus momentos. Estes dois conceitos – coragem e carácter – têm que estar sempre relacionadas com a ideia da equipa, uma vez que nos dão uma enorme capacidade de gerir as dúvidas na adversidade. No fundo, é o que nos faz acreditar que aquilo que repetimos, que treinamos sempre, que nos define como equipa diferente das outras é o que tem que se manifestar, especialmente nos momentos onde tudo nos faz questionar se não será melhor abandonarmos o que nos define em termos de valores/princípios.

É aí, no meio da ruidosa e impaciente dúvida, que assalta os seus jogadores, que o treinador procura transpirar e inspirar quem o rodeia desde a ideia e desde a crença, de forma a mudar o sentimento negativo e fazer emergir novamente o entusiasmo pelos princípios que sempre nos caracterizaram e que são no fundo o caminho que liga a equipa e por isso a coloca mais perto de ganhar. A melhor forma de dissipar as dúvidas quando não há tempo é mudando o estado de espírito e para isso muito mais do que passar informação importa passar emoções (ainda que sempre associadas a um conteúdo). Agora, não custa nada reconhecer que não é fácil mudar as más emoções de um, imagine-se de 18. Por isso é que, sem se sentir o jogo que se transmite acima de qualquer coisa, a tarefa torna-se impossível.

Optar por abandonar aquilo que sempre fomos num momento de aperto é como atirar uma moeda ao ar e perceber se isso resolve os nossos problemas. Como é óbvio, fazer isto constantemente (alterar o que somos) é não ter um rumo, é não sermos nada, é sermos (ou não sermos) algo que existe exclusivamente em função dos outros, sem nos termos a nós próprios em conta. Temos que nos assumir mais vezes (treinadores e jogadores - Equipa) como preponderantes na forma como vamos jogar, por uma questão muito simples: nós somos aquilo que se repete em todos os jogos e portanto tem que haver algo que alimente o processo a longo prazo e isso são os princípios da equipa e as características dos jogadores.

Na adversidade busquemos as emoções que nos trazem de volta àquilo que somos. Tenhamos a coragem de sustentarmos o nosso jogar na essência que nos define e a partir daí buscar as nuances que podem solucionar os problemas que os outros nos colocam.


a) o vídeo aqui publicado é um extrato do documentário “All or Nothing” lançado pelo Manchester City a 17 de Julho de 2018

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Rui Faria - Periodização Táctica, Valores e a (eventual) sombra de Mourinho (PARTE II)

 
“Eu joguei a um nível baixo, mas conseguia ver (soluções). 'Treinámos 3 vezes por semana, então porque é que andamos a perder tanto tempo a correr à volta do campo? Devíamos estar a treinar especificamente para o jogo.’” Rui Faria

“Quando viemos do Porto para o Chelsea (2004), viemos com uma filosofia. José (Mourinho) era o novo homem no futebol que quebrou todas as regras, com épocas fantásticas no Porto, onde ganhou tudo (...)” Rui Faria


1. Quando começas a pensar em Futebol e se não haverá uma forma de melhorar o jogo, o jogador e evitando lesões ao mesmo tempo... Sim isto são preocupações da Periodização Táctica. Esta metodologia entende que para que a "Táctica/Organização/Princípios de jogo" se manifeste no seu auge a cada Jornada é necessário que todas as dimensões do jogo surjam coordenadas (não se trata de me deslocar sem um sentido, desloco-me porque sinto, "entendo" e antecipo) e é esta coordenação que se treina. Porque decidir mal prejudica o jogo, decidir só em função do que eu tenho na cabeça, sem contemplar o resto (colegas/adversários/bola/espaço) prejudica o jogo da equipa, jogar com um corpo cansado, sem agilidade e sem fluidez para um jogo que se quer imprevisível (individual e colectivamente) também não serve, pois prejudica a equipa e o próprio jogador, jogar tendo conflitos com o treinador ou com companheiros prejudica o jogo, ter medo de ter a bola atrás por medo de errar também prejudica o jogo, falta de fineza na hora de tocar a bola, como é óbvio, também prejudica a forma de jogar. O que a Periodização Táctica contempla é tudo isto em simultâneo com a ideia como orientadora daquilo que se faz no treino (Recuperando/Adquirindo).

 
2. Convencer os Jogadores. Com todos os preconceitos que levamos dentro esta é das tarefas mais difíceis, porque cada pessoa é um conjunto de hábitos e de ideias pré-concebidas seja com base em estudos, livros ou informações recolhidas com base nas suas experiências. Acreditamos por vezes que coisas acessórias foram as que nos catapultaram para o nível alto que alcançamos, e ninguém pode negar o poder da crença. "A fé move montanhas" e é verdade, seja ela religiosa ou filosófica ou empírica. Por isso criar hábitos "de raiz" é mais fácil do que desconstruí-los para criar novos conceitos.

<<O Lampard estava habituado a correr à volta do campo durante o treino, até que o Rui Faria o abordar: "O pianista que vai dar um concerto não corre à volta do piano nem faz flexões apoiado nos seus dedos de forma a se preparar.">>
3. "Outros tempos", outras posturas perante quem lidera. Não é problema nenhum que as pessoas demonstrem interesse em saber mais sobre o jogo ou sobre a forma como se treina (bem pelo contrário), o problema hoje em dia é que as pessoas não querem saber do porquê querem é dizer que não é assim e é melhor de outra forma, cada pessoa quer interferir naquilo que se faz. "Questionar" hoje em dia é isto. Por isso o desafio não é explicar às pessoas... o Desafio é levar as pessoas a QUEREREM ENTENDER. Este é o grande reto que os treinadores têm hoje em dia.

"Há uma grande mudança (no Futebol). As pessoas agora questionam quem lidera. Parece que toda a gente sabe tudo, então quando pedes para se fazer determinada coisa, algumas vezes duvidam do que dizes. Antes havia carácteres apaixonado por futebol, com uma enorme vontade de aprender e de fazer bem, jogadores como Drogba, John Terry, Frank Lampard, Ricardo Carvalho, que veio connosco do Porto (...)" Rui Faria



a) Entrevista de Rui Faria ao "The Times" - 29/Set/2018.
    Texto de Henry Winter, fotografia de Ben Stevens.