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terça-feira, 21 de maio de 2019

O Caminho faz-se caminhando...


Luís Castro – O discurso em sintonia com o percurso

As palavras podem ser muita coisa... por vezes leva-as o vento dada a sua leviandade, outras vezes procuram esconder a verdade, mas também podem ser uma manifestação sincera das nossas intenções, ainda que não se manifeste essa intenção na acção, no imediato.

O tempo, para Luís Castro, tem-se traduzido num grande crescimento como treinador e é um daqueles casos em que o discurso (intenção-ideia de jogo) está em completa sintonia com o percurso (acção-jogar das suas equipas).

Para nós é claro que aquilo que pretende se vê como intenção desde os primeiros jogos da sua equipa, mas há algo fundamental e que por muitos é confundido com incoerência das ideias. Muita gente se manifestou contra escolhas ("já se está a vender em função do resultado"), porque mais uma vez a pressa cega-nos e não se percebe que criar algo leva tempo, dar um sentido comum a 25 cabeças leva tempo. Já para não falar na perda da espontaneidade que origina a pressa de forçar o aparecer de um padrão, o jogar tem que ser inCORPOrado e não memorizado, tem que ser sentido. Leva tempo, ainda mais em contextos onde não se admite o erro e muito menos o errar sobre algumas ideias pré-concebidas, por se jogar em zonas onde se gera ansiedade em quem não tem controlo sobre a bola - claramente quem está fora pouco controla, ainda que o assobio e o “não jogues aí” sejam uma tentativa de controlar algo que se está a tentar criar em treino, quase como que um tentar destruir aquilo para o qual se anda a trabalhar e isto é algo com o qual se deve contar e por isso se deve preparar com treinos no limite onde o risco se sinta como tal e se trabalhe para alcançar a segurança em qualquer zona do campo. É precisamente para isso que cada exercício existe, para criar uma estabilidade naquilo que é o jogar que o treinador pretende que a equipa alcance.

Luís Castro, nunca abdicando das suas ideias, soube equilibrar a sua interferência na equipa. Ou seja, não procurou mudar tudo à pressa nem à pressão, mas ao mesmo tempo notou-se que desde o início do processo o caminho se fez no sentido do jogar que pretende para este (também) seu Vitória SC.

A escolha do 11 sempre respeitou aquilo que a equipa necessitava em função do que já tinha alcançado em termos de jogo (notou-se essa intenção clara). Ou seja o jogo vai-se construindo com jogadores e sendo pessoas são fruto de experiências e é na repetição que a cultura se vai instalando, alguns treinos criam alguma coisa, mas não são suficientes para criar nada tão complexo, portanto é preciso ir vendo como está o jogo e que estabilidade ele tem e que jogadores precisa para colmatar a falta de fluidez em determinados momentos e ir vendo se alguns jogadores funcionam bem com outros, tendo em conta o jogar actual (que efectivamente a equipa joga).

Pareceu-nos que as suas primeiras prioridades para controlo do jogo foram na tentativa de dar equilíbrio à sua equipa por forma a impedir o adversário de ser vertical no momento de perda. Indicadores claros de que o caminho se faz caminhando, mas como qualquer construção requer tempo e mesmo depois de se alcançar a dita estabilidade muito tem que se continuar a aprender para nos mantermos estáveis, algo que ao longo da época se percebeu que não é coisa fácil. Ganhar dá-te tempo e dá crença naquilo que se faz, é óbvio que o resultado como que dá ritmo ao processo, por isso mesmo é necessário que o jogar se construa a ganhar. A forma como entendemos isto, é que nunca o jogar pode ser comprometido pelo ganhar, nem o ganhar pode ser comprometido pelo jogar, porque um contribui para o alcançar do outro… vida de treinador é viver com a sua ideia de como ganhar, num jogo onde tem que convencer “25” jogadores das suas ideias. O treino é a melhor forma de se convencer o grupo, porque os prepara (consciente ou inconscientemente) para que se sintam capazes de ir cumprindo com aquilo que é a proposta de jogo do treinador.

Fica então um vídeo onde o discurso demonstra aquilo que foram as intenções do Mister Luís Castro e da sua equipa técnica ao longo da época 2018/2019. Ficamos a perceber um pouco daquilo que foi o caminho, com altos e baixo, mas em crescendo, até ao jogo contra o Moreirense que permitiu subir ao 5º lugar. Fica bem patente que para alguns treinadores/jogadores o resultado faz mais sentido quando alicerçado num jogo que une toda a gente em torno de um jogo de qualidade.


a) conferências de imprensa pré- e pós-jogo de Luís Castro ao serviço do Vitória SC durante a época 2018/2019

quinta-feira, 21 de março de 2019

Respeitar o presente da equipa/dos jogadores com o futuro no horizonte


Já muito aqui se falou da necessidade de uma Ideia de Jogo por parte do treinador que, resumidamente, é um conjunto de princípios (orientadores) de jogo, absolutamente fundamentais para sustentar e dar um sentido a todas as dinâmicas, todas as decisões e toda a expressividade individual dos jogadores. São no fundo os pilares com os quais o treinador acredita estar mais perto de controlar, dominar e ganhar o jogo.

O treino tem sempre como propósito construir uma EQUIPA, no sentido de gerar interacções cada vez mais coerentes, fluídas e que dêem espaço para que cada jogador se possa expressar em campo de acordo com o seu potencial. Mesmo que não houvesse treinador a equipa iria sempre crescer qualquer coisa com o facto de jogar junta, o entrosamento iria ser cada vez maior e iria gerar-se ali uma auto-organização e uma cultura própria. Por exemplo, se o Guarda-redes (independentemente do potencial para fazer diferente) nunca tivesse tido referências de sair curto em segurança o mais provável é que não se sentisse confortável em fazê-lo mesmo com algum espaço para e por isso a saída iria sempre ser longa a não ser que os Centrais insistissem com ele ou o contrário ele querer e os DCs. ou Laterais insistirem para meter no Ponta, mas e se o Ponta não conseguisse sequer promover a segunda bola?

Talvez tenha sido daqui que se tenha pensado: "E se nomeássemos alguém para orientar isto? Para dar um sentido comum a todos?" Mas, como é óbvio, a necessidade de haver treinador não surgiu com a intenção de subtrair potencial aos jogadores, nenhum treinador que entenda o jogo quererá que isso aconteça, por mais que não seja, porque sabe que isso o afastará de triunfar. O que preenche verdadeiramente muitos treinadores é chegar a todos os jogadores do plantel e ajudá-los a crescer e a perceber/senitr que a sua evolução individual depende muito dos companheiros que os rodeiam – isto tem que ver com os tais princípios que promovem a interacção de determinada forma específica.

Queremos com isto chegar ao ponto em que o treinador que fecha todas a possibilidades do jogo na sua ideia, não está a respeitar o conceito de "Princípios". "Se são princípios é porque não são fins" (Professor Vítor Frade) e não sendo "fins" não são fechados, simplesmente procuram orientar e este orientar não é limitar, bem pelo contrário, é ampliar as possibilidades de cada jogador poder antecipar aquilo que mais ou menos poderá acontecer, pois há referenciais que permitem isso e, num jogo onde os jogadores têm que decidir em fracções de segundo, ter esta ajuda (sim estamos para ajudar) é claramente uma mais valia e eles próprios sentem isso.

Precisamente porque o treinador não limita as possibilidades do jogar da equipa aos grandes princípios, é que Guardiola dá imenso espaço para também ele se “deixar guiar” pelos seus jogadores, pelas suas qualidades e pela sua qualidade, pelo que vai aferindo no dia-a-dia. Assim, tendo Busquets, Xavi, Iniesta e Fabregas decidiu que poderia muito bem jogar num 3-4-3 de forma o poder tê-los a todos em campo e assim estar mais perto de controlar o jogo tal como o entende e como a sua equipa estava preparada para o jogar, porque isto influencia muito.

Aquilo que orienta as decisões/escolhas do treinador, tanto em termos de exercícios, como do que irá ser a semana em termos aquisitivos/recuperação e até a convocatória, o onze titular e as próprias substituições é: a sua concepção de jogo que dá uma lógica a longo prazo ao processo, é o potencial dos jogadores para crescerem nesse mesmo processo, é o adversário, é aquilo em que a partida se tornou e a necessidade de dar continuidade ou de recuperar o controlo, etc., mas também é aquilo que a equipa faz no presente e que lhe garante a possibilidade ou não de controlar/dominar o jogo, ou seja, “nós queremos caminhar neste sentido e estamos a tentar evoluir os jogadores desta forma para lhes dar mais condições para que esta identidade seja cada vez mais coerente e sem ‘dúvidas’, mas tendo em conta o que somos enquanto equipa HOJE, com que jogadores (não esquecendo os seus estados de espírito) estaremos mais perto de o fazer neste momento?”

Consideramos ser esta uma das questões mais difíceis de responder, porque se trata de avaliar constantemente e de decidir em função dos jogadores e daquilo que juntos (jogadores e treinador) fomos capazes de construir até ao “aqui e agora”, porque isso é o que somos (não somos no passado nem o futuro, somos o que somos) Conciliar isto com a importância de seguirmos o caminho que nos garanta melhorar... é esta a arte, a de misturar isto tudo e conseguir, a cada passo que a equipa vai dando (no sentido de construir uma identidade e um estilo “à prova de bala”), perceber aquilo que é necessário, em função do momento em que nos encontramos, para que os jogadores se sintam bem e consigam controlar e dominar da melhor forma possível o jogo (o próximo).

Esta sensibilidade foi a que fez o Guardiola avançar para o 3-4-3 percebendo que havia condições para o fazer sem perde de fluidez em todos os momentos e com ganhos de criatividade e de entrosamento entre todos. Noutros casos é o jogador de determinadas características e que ainda não tem o estatuto necessário e por isso mesmo, por causa desta mesma questão, o treinador sente que não será o momento, não há o mínimo de sustentabilidade do jogo da equipa para que ele possa ir e mesmo que a coisa não seja perfeita a equipa tem bases para suportar as suas debilidades.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”