domingo, 12 de maio de 2019

O “Melhorar” não é obrigado a dar a mão à “estatística”


A uma jornada do final da Premier League, é certo e sabido que o Manchester City irá fazer menos pontos do que na época passada e pode até não ganhar o campeonato que há um ano arrecadou com 100 pontos, ao passo que este ano fará 95 (derrota), 96 (empate) ou 98 (vitória).

Será possível melhorar piorando os resultados?

Se no futebol profissional, reformulando (porque parece-me que o exemplo é ainda mais impactante e esclarecedor), se num clube que está seguramente no top 10 Mundial se pensa assim, o que é que se anda a fazer na formação? Porque é que justificamos e julgamos o processo de aprendizagem como bom ou mau SÓ pelo sucesso/insucesso do resultado final?

Então?! Mas é possível tornarmo-nos melhores sem ter como referência o resultado passado? Sem colocar uma meta "matemática"? Sem elevar o número de pontos? Sem atingir uma melhor classificação do que o treinador anterior ou da que fizemos na última época? CLARO QUE SIM!

Quando foi que caímos no erro de medir o desenvolvimento (algo tão complexo) pelo resultado e pelos pontos acumulados? Julgava que a pontuação tinha sido criada no sentido de aumentar a competitividade, tornando assim a competição algo mais entusiasmante (como auxílio ao desenvolvimento e não como validação do processo). Como é que se medem desenvolvimentos (individuais/colectivos) numa tabela classificativa? Olhar para pontos acumulados e dizer que quem teve mais pontos corresponde à equipa que mais evoluiu é claramente usar linearidade para avaliar algo super complexo.

A "novidade" é (não digam a ninguém)... fazemos isto em tudo na vida, em tudo (por exemplo):

- a forma como se avalia nas escolas segue esta forma de pensar;
- a selecção de jogadores que é feita em função do resultado imediato sem perspectivar sequer quem tem mais talento ou melhor mentalidade, algo que com certeza influencia de sobremaneira o desenvolvimento;
- quem tem mais golos é melhor jogador (causa-efeito linear/única).

Esta lógica está espalhada por toda a sociedade... como um vírus... não nos escandalizemos que isto não é de agora. Curas? Primeiro perceber que isto é um problema, porque ninguém tem necessidade de se curar quando pensa estar bem e saudável. Depois é mudar este paradigma e levar os jogadores a olharem para aquilo que é o seu crescimento e o da equipa, e não para números, que podendo ser usados, não devem ser o essencial para se aferir a qualidade do processo, nem deveriam abalar a "crença" daquilo que vai fazendo de bom.

Refiro essencialmente os jogadores, porque são eles que mais ganham com esta forma de olhar o processo de desenvolvimento, pois é na sua formação/educação desde pequenos que se poderá mudar esta cultura onde o importante aparece numa folha de cálculo, numa tabela classificativa, que nos diz que somos melhores do que os outros no presente, mas não diz nada sobre o nosso desenvolvimento para o futuro, ou numa pauta cheia de números que são uma média tantas vezes baseada em aprendizagens mecanizadas e desprovidas de contexto dentro de quem as engole sem entendimento ou sentimento.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football”) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”

sexta-feira, 10 de maio de 2019

“O que depende de mim" vs “Culpa disto e daquilo”


Tínhamos partilhado aqui um episódio genial relatado por Toni Nadal, onde o seu sobrinho (na época treinado por si) pelo hábito de se sentir responsável por tudo o que lhe acontecia nem se apercebeu que estava a jogar com uma raquete partida. Ainda mais genial do que isto é o caminho até se chegar a essa auto-exigência, a esse sentido responsabilidade que nos volta para nós próprios e para aquilo que depende de nós, a essa busca das soluções para os problemas… sem desculpas, mesmo quando elas estão ali prontas a ser usadas e desta forma podermos atirar a responsabilidade para longe e assim seguirmos o nosso caminho sem alterarmos absolutamente nada na nossa trajectória.

Como tudo na vida há instantes ou períodos menos bons, em que não nos conseguimos libertar daquilo que não nos ajuda e focamo-nos demasiado naquilo que não tem solução, naquilo que não muda… quando deveríamos antes tentar encontrar formas de contornar, resolver ou simplesmente ignorar o problema. Viver constantemente neste estado de necessidade de atribuir a culpa a tudo e mais alguma coisa que não “eu”, evitando assumir a responsabilidade que me levaria a tentar solucionar o que está a acontecer, é viver sem aprender.

Falamos muitas vezes do peso da responsabilidade (âmbito desportivo), mas não tem que ser um fardo e por isso, terá que ser sentida, a responsabilidade, como algo saboroso e que nos transporta constantemente para a resolução de problemas focados naquilo que depende de nós, haverá sempre outras variáveis a contribuir para os meus erros, mas ter noção de que outras variáveis existem, não deve implicar a perda do reconhecimento que há coisas que vão sempre depender de mim e é nessas que me devo focar.

Não tenhamos medo de dar responsabilidade aos miúdos, porque é na convivência com ela que terão necessidade de assumir a resolução dos seus problemas sem que a sintam como um fardo, e sim como algo que os faz melhorar quando se focam naquilo que podem fazer para dar a volta. Que se sintam parte do processo percebendo aquilo que deve ser melhorado, só assim irão seguir o seu próprio caminho, algo que naturalmente terá consequências. É por isto que quando são eles a querer ir ao treino e a assumir o sonho de chegar a ser isto ou aquilo, se implicam muito mais naquilo que fazem.

Esta é a grande vantagem de sentir e saber que depende deles e que não adianta usar outras variáveis como desculpa para os seus erros. As consequências, as boas e por vezes as más, vão chegar e como a decisão e a ambição é deles (e não é imposta, nem é uma expectativa dos pais) não precisam que alguém assuma a responsabilidade por eles, eles próprios vão sentir prazer em assumir algo que é deles, precisamente por ter sido uma decisão sua.


a) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

A necessária busca da perfeição para combater a “alta pressão”

Credit: Getty Images

O feito de ontem comprova a dificuldade que é lidar com esta pressão do Liverpool... a insistência do Manchester City é mais do que uma teimosia é uma necessidade transformada em cultura, onde são mais as certezas do que as dúvidas.

Importa reforçar que a dinâmica é sempre orientada por princípios (sejam eles mais colectivos ou mais individuais) que procuram dar sentido ao que envolve a equipa e, no fundo, levar a bola a progredir no campo e chegar perto da baliza em boas condições. Como os princípios estão antes da dinâmica posicional e das trajectórias da bola, é natural que os jogadores tenham que agir uns em função dos outros (interacção) como necessidade de não se desviarem dos tais princípios orientadores. Isto que facilita enormemente a auto-organização e a cooperação, conceitos que só são possíveis quando todos se orientam pelos mesmos valores do jogo.

Se no vídeo da publicação anterior (aqui) se via Stones (também Fernandinho) a pedir a bola "cravado" na 1ª linha de pressão do adversário e Walker a criar superioridade desde trás como opção para o GR sair curto, libertando Bernardo para uma "zona morta", neste vídeo vemos que a dinâmica do jogo e a necessidade de ajustar não impede a manifestação dos princípios, bem pelo contrário (tal como que referimos acima esse ajuste é crucial para que eles se manifestem e dêem sentido à dinâmica). É como se a equipa fosse um organismo vivo onde cada parte se coordena com as restantes para manter o normal funcionamento em função da necessidade e da circunstância.


- Walker em "zona morta" (entrelinhas); - Bernardo+Fernandinho “incorporados” na 1ª linha de pressão do adversário (quase como que para a “espremer”, obrigando-os a fechar mais, para libertar espaço por fora, mas também são uma possibilidade de progressão, com um toque podem deixar essa linha para trás); - Stones a criar superioridade desde trás, com Ederson e Laporte - atrair a 1ª linha de pressão do Liverpool e libertar jogadores numa "zona morta" (passe para o "2º andar") - Homem Livre


No próximo vídeo dá para perceber como o atraso ao Guarda-Redes é uma necessidade de ganhar tempo, para que toda a gente da equipa se oriente de forma a poder receber a bola com uma visão ampla do campo e com o corpo orientado para poder dar vários seguimentos à bola e assim reduzir o risco de ser completamente limitado e ainda criar dúvida na pressão adversária . Este “jogar para trás” nunca pode ser um passe como quem passa um problema e "diz": "Resolve tu!"


Todos estão envolvidos na resolução do problema e o passe vai para quem nos garante mais tempo para voltarmos a ver tudo o que se passa no campo, para ter a bola em segurança e/ou para quem está em condições para a fazer progredir. O GR, neste caso, é mais um que coopera nesta tarefa de progredir em segurança.

Para além de todos estes princípios e sub-princípios, de que fomos falando, que na repetição sistemática dá confiança a toda a gente para se guiar por eles, é importante perceber que o erro não pode ser o medidor do certo e do errado no que aos princípios diz respeito, ou seja o erro, ou mais precisamente a sua correcção não pode acontecer no sentido de alterar a essência do jogo que a nossa equipa joga e por isso é que uma perda de bola atrás que quase dá golo não altera nada, por isso a jogada seguinte leva a aprendizagem das experiências anteriores sem perda daquilo que nos orienta. Como os skaters, que depois de uma queda voltam a tentar 1001 vezes até acertarem com a “acrobacia”, como nós quando aprendemos a andar e como qualquer outro processo de aprendizagem.

Impressiona a crença e o orgulho na forma como tentam disputar o jogo e consequentemente o resultado, algo que se transmite na enorme serenidade com bola... de todos, até do GR que é onde (tantas vezes) tudo começa.

Porque é nos momentos de aperto que se vê o que é cultural (o que é hábito e nos sai espontaneamente) e o quão entranhados estão determinados princípios.


a) jornada 8 da Premier League 2018/2019 – Liverpool vs Manchester City

quarta-feira, 1 de maio de 2019

(Sub-momentos) Saída do GR + Criar Espaços vs Pressão Alta

Credit: Getty Images

Manchester City e Liverpool ultrapassaram os 90 pontos (92 e 91, respectivamente) a faltar 2 jogos para o final da Premier League. Nunca antes isto tinha acontecido em mais de 100 anos de história da Liga Inglesa.

O Liverpool tem obrigado a que a forma de jogar do City e a mentalidade/certeza para o fazer se transcendam – nos jogos entre eles, onde os limites do possível são testados num jogo só e também pelo elevar da fasquia pontual que faz com que toda a época seja disputada no limite.

Os Reds forçam o erro (sem bola) e aproveitam qualquer deslize para chegar à baliza contrária de forma vertiginosa no pós roubo. Parece-nos que a seguir à ausência de um entendimento do jogo que me permita alongar o tempo e o espaço para agir com a bola e do trato da mesma, é o Liverpool a causa que mais limita as acções do portador pela sua pressão sufocante em todo o campo,

Assim sendo, nada melhor do que perceber aquilo que orienta as saídas do Guarda-redes/”Criação de Homem Livre” num grau de extrema dificuldade - não se trata de memorizar os caminhos e colá-los numa outra equipa, o propósito é antes perceber e dominar a arte dos princípios que orientam a escolha dos caminhos e que permitem os tais ganhos de espaço, que parecem prolongar o tempo de quem procura dar segurança à bola e em simultâneo provoca a criação de espaços para progredir.


Esclarecer que a “diminuição do risco” não tem nada que ver com “evitar o passe para determinadas zonas pré-estabelecidas” (isso seria o tal memorizar e esteriotipar dum jogo que pode muito bem ser desenvolvido). A diminuição do risco implica a busca da perfeição nos posicionamentos, no 1º toque, na orientação dos apoios, no ver tudo antes de receber a bola, no controlo dos adversários próximos (percepção de onde vem a pressão), a segurança é dada por tudo isto que é individual e colectivo ao mesmo tempo, porque a criação de soluções para que a bola possa (por exemplo) andar “de Primeira”, quando assim tem de ser, é promovida pelas soluções de passe que os meus colegas me dão. O risco é relativo, porque dependerá do estarmos ou não preparados para enfrentar os problemas, não é arriscado se for contextualizado e suportado no tentar criar as condições ideais para poder ter a bola, para a levar ao longo do campo até à outra baliza e para finalizar.


Neste momento importa que a bola saia controlada (muita gente usa o termo "limpa") desde trás e com segurança para criar/procurar espaços que nos permitam caminhar para zonas cada vez mais próximas da baliza adversária, porque queremos estar o maior tempo possível longe da nossa baliza e a criar espaços perto da contrária. Perceber também as vantagens que possam existir em colocarmo-nos em zonas mais avançadas com um passe longo, assim haja vantagem (possibilidade de manter a bola sob-controlo).

Detalhes individuais essenciais (alguns já referidos acima): orientação de apoios, passes que ajudem o receptor (de várias maneiras), dar tempo com bola para que as soluções/opções que dividem o adversário surjam, pedir a bola no momento exacto (perto ou longe) em função da pressão, sempre que possível disposição para jogar de primeira (disposição tanto de quem se desmarca para receber como de quem passa), ver tudo antes de receber é aquilo que me permite antecipar o que pode acontecer e ajustar a minha posição (no campo e do corpo), ver enquanto estou com bola permite-me ajustar em função do aqui e agora às mudanças que decorrem a cada segundo de jogo, o engano que é a mais velha arte de prolongar o tempo e nunca irá deixa de ser fundamental para que haja segurança e controlo (ainda que o pânico e o desconforto da pressão nos tenham feito acreditar que é uma perda de tempo e é demasiado arriscado).

O "Primeiro passo" é escapar à primeira linha de pressão mantendo a bola sob-controlo. Para isto tem que haver uma equipa "aberta e profunda" para provocar uma espécie de efeito espelho no adversário e assim criar espaços através das possíveis trajectórias da bola e dos "corpos" (jogadores) que também atraem adversários. Aliás é na conjugação de Espaços, Bola, Posição (de cada um de nós), Timing (certo)... que vamos criando caminhos para progredir.


A disposição por vezes pode ser a dos slides, por vezes pode ser outra, naquilo que aqui pretendemos fazer, o verdadeiramente importante é perceber as intenções/princípios por detrás das dinâmicas e dos “desenhos” momentâneos (frames).


Não é perfeito e o risco existe sempre. Mas ele existe independente da forma. Arriscar faz parte do jogo, uns arriscam a chutar prá frente outros arriscam desta maneira. A segurança vem com o desenvolvimento das dinâmicas e de cada jogador... no treino. No fundo, segurança e risco é algo que se quer constantemente no jogo.


a) jornada 8 da Premier League 2018/2019 – Liverpool vs Manchester City

domingo, 28 de abril de 2019

Toni Nadal: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida!"


No outro dia publicamos 👉 aqui um vídeo em que Sarri e Guardiola falavam da importância do foco estar naquilo que poderemos controlar, aquilo que depende da nossa equipa – "Melhorar o Desempenho" e vermos nas dificuldades uma oportunidade de nos superarmos.

Toni Nadal e o seu sobrinho, Rafael Nadal, são um exemplo de como a mentalidade certa nos permite alcançar ou até transcender o nosso potencial presente. Uma mentalidade que não se refugia na desculpa fácil, faz-nos sentir responsáveis pelas coisas boas que fazemos e mais importante e raro por aquilo em que não estivemos tão bem e que se repercute nos erros que cometemos. Perceber e aceitar isto com naturalidade e com o menor conflicto (interno/externo) possível é essencial para a evolução.

Importantíssimo lidar com esta responsabilidade desde o ponto de vista do desenvolvimento e não do ponto de vista da frustração (prolongada), algo que nos afunda na apatia e no "colocar de lado" algo pelo qual tivemos, em tempos, uma enorme paixão. Isto necessita de educação, não é fácil nem aleatório que se adquira esta predisposição para ser “alguém que assume a responsabilidade" de forma natural e positiva. Se não houver bons exemplos à nossa volta, ou seja, se não houver uma cultura onde o "fracasso" é uma oportunidade para melhorar e não uma oportunidade para arranjar desculpas que atenuem esse mesmo fracasso, então a formação fica comprometida.

Que auto-estima terá alguém que busca uma desculpa completamente irrelevante a cada obstáculo que encontra no caminho? E mais, o que tem uma criança a melhorar quando todos os erros são culpas do árbitro, do colega ou do treinador?

Relembramos que se trata de um jogo. Mas até tratando-se de uma doença a lamentação da desgraça, ou a procura de culpados para a nosso estado não traz a cura, pelo contrário. Assim como existe o "efeito placebo" que nos demonstra como a crença (por si só) de que algo é bom já produz uma melhoria, também existe o "efeito nocebo" cuja crença de que algo nos prejudica (por si só) já piora a nossa condição.

Por isso é tão importante não buscar culpados para o resultado. Procuremos aquilo que depende de nós, até porque "o que não tem remédio remediado está". A partir daí procuremos aquilo que pode ser solucionado e busquemos soluções que nos ajudem a resolver os problemas que nos são colocados (no futebol como na vida). É na busca das soluções, na busca daquilo que depende de nós que está o segredo para o desenvolvimento e o fundamental da formação/educação.


a) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bernardo pode não encher a camisola, mas enche o campo


Ontem o City, onde Bernardo Silva, David Silva e Gundogan constituiram o meio campo na 2ª Parte (comparar com Fabinho, Henderson e Wynaldum - Liverpool), chegou aos 157 golos nesta época, em todas as competições - recorde de sempre entre equipas da Premier League. Isto só prova que a visão de que impera no “futebol moderno” um “jogo físico” é uma visão muito redutora deste desporto. Claramente não há, nem nunca houve, uma só forma, nem um só tipo de jogadores, capaz de dominar o jogo, levando-o para o registo que mais nos caracteriza e favorece durante mais tempo nos 90 minutos. Será sempre uma questão de ter em campo inteligência/talento, ser coerente nas escolhas e naquilo que se treina para construir, muito além duma forma de jogar, uma cultura de jogo dentro da equipa... dentro do clube.


No final David Silva (sem marcar qualquer golo) foi eleito homem do jogo (absolutamente nada contra). Poderia muito bem ter sido o outro Silva, o Bernardo, aquele menino que entre os 14 e os 17 anos, por ser franzino e abalroado pelos que tinham mais força, pouco jogava. Aquele menino que deu a volta a uma situação aparentemente desvantajosa recorrendo ao domínio do seu corpo e dos timings/espaços para o usar, evitando assim o contacto quando isso o colocava em problemas. Aquele menino que teve que se desenrascar recorrendo à única coisa que não engana, o jogo, arranjando soluções dentro do mesmo para a tal “desvantagem”, porque claramente não foi pelo aumento muscular que resolveu o problema e para surpresa de muitos fê-lo treinando no limite, num treino onde o essencial era jogo.

O Bernardo fez mais um jogo que transcende o físico e exalta o jogo, porque enche o campo com aquilo que deveria ser essencial – o entender e saber jogar o jogo, pelos timings de ocupação dos melhores espaços (a defender e a atacar), pela forma como domina o seu corpo e o usa para tirar vantagem dos desequilíbrios momentâneos de jogadores com o dobro da sua massa muscular, com o dobro da sua força e da sua velocidade de deslocamento.

Este “encher o campo” não é o mesmo que “estar em todo o lado”, é antes um estar onde precisa de estar no momento certo para lá estar, quer quando joga por fora – extremo – como quando joga por dentro - médio.

Acho que o “futebol moderno” que criou o “reforço muscular” já teve mais que tempo de criar exercícios de “reforço de inteligência”, de “reforço de entendimento do jogo”, de “reforço do saber como tirar partido de situações onde o meu corpo (franzino) é aparentemente uma desvantagem”, mas parece que andamos distraídos com outras coisas que claramente não merecem nada o protagonismo todo que têm. O “reforço” essencial faz-se no treino jogando. Agora, se nos dizem que há jogadores que sentem necessidade de fazer outras coisas, porque valorizam e acreditam que é isso que os torna melhores, resta-nos dizer que sabemos dessa realidade.

<<Se achamos que o mais importante é o que eu programo (toda a parte burocrática e científica), estamos enganados, é mais importante que o jogador (estando em condições) acredite que o que faz no treino é o melhor para ele e então aí chega ao jogo no seu máximo potencial para ganhar.>> Lorenzo Bonaventura (elemento da equipa técnica de Guardiola, no Barcelona, no Bayern e agora no Man.City)

Temos perfeita noção do poder das crenças e já o referimos várias vezes aqui. Não é isso que nos preocupa, o que verdadeiramente nos preocupa é que no futebol os jogadores passem a atribuir maior importância ao físico do que ao jogo em si. Que se comece a ver jogadores dizer que foi o ginásio ou o treinar sozinho que me tornou um jogador que pode jogar na 1ª liga.


Por isso trazemos aqui o Bernardo (podíamos falar do David Silva, da mesma equipa, e de muitos outros), porque é um jogador que no seu todo (corpo/mente) tem o essencial do futebol e que contraria o “paradigma do atleta”. Isto é FUTEBOL, não se trata de “atletismo com bola”, e portanto o corpo para jogar o futebol do Guardiola ou o futebol do Paulo Fonseca não pode ser o mesmo corpo de alguém cuja ideia de jogo é algo semelhante a “atletismo com bola”.

Já sabemos que isto choca muita gente, mas o essencial é a ideia de jogo e o jogador, o resto é gente a querer o protagonismo que não deve ter, para o bem do futebol e de criar uma cultura que permite o florescimento de jogadores que realmente percebem o que é importante. Para que quando eles sintam dificuldades em entrar no “ritmo competitivo do jogo” percebam que provavelmente terão que entender melhor os timings do mesmo e que correr mais, mais rápido ou durante mais tempo provavelmente não lhes irá resolver o problema. E por isso tem que haver harmonia/conexão entre todas as dimensões.

Para as pessoas que rotulam isto de contraproducente, aconselho a falarem com alguns pais que, para que os filhos melhorem (no futebol) os põem a fazer abdominais e flexões com 7 anos e que vão fazer treino intervalado para os parques com miúdos de 9 anos.

Obrigado aos "Bernardos" que sabem que melhorar está no jogo, sejam eles grandes, pequenos com muita ou pouca massa muscular. O Bernardo sem saber criou um contexto onde depende de nós usarmos o seu exemplo para mudarmos o Paradigma do treino e do jogador, respeitando a possibilidade de surgirem jogadores como ele. Porque o objectivo não é encher a camisola, mas sim encher o campo.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sai: “o Todo” Entra: “a Parte” - o caminho para a Paralisação


“Os pormenores fazem a diferença”, a verdade desta frase fez-nos ignorar a importância de tudo o que permite aos pormenores fazerem a diferença. É que fazem tanto mais a diferença quanto maior for a ligação entre eles e os princípios que sustentam o jogo da equipa. Ou seja, qualquer detalhe só faz sentido quando desenvolvido/sustentado numa base cheia de princípios colectivos que se prolonguem no tempo. A essência estará acima de tudo na coerência entre os tais pormenores e os pilares que os orientam.

O essencial não pode deixar de o ser, porque quando o acessório passa a ser o fundamental e o que é fundamental passa a ser relegado para um segundo plano, é aí que se perde aquilo que orienta as equipas. É verdade que tudo se pode melhorar, mas é importante perceber o que é prioritário. Além disso, vivemos numa época em que o tempo é valiosíssimo, pela “escassez” do mesmo, como se o crescer da informação aumentasse a nossa ânsia de fazer tudo. Das duas uma ou fazemos tudo à pressa ou não temos tempo para fazer nada. É aqui que entra o saber hierarquizar/priorizar, algo que nos dias que correm talvez seja das coisas que mais contribuem para o desenvolvimento da equipa e dos jogadores. Por isso mesmo nem tudo tem a mesma percentagem de importância e nem tudo deve ser tratado como se tivesse o mesmo valor.

Sobram exemplos desta inversão entre essencial-acessório. Não raras vezes vemos os princípios, que sustentam a forma de jogar e a dinâmica, serem colocados de lado, talvez por se pensar “isto já está consolidado” mas a verdade é que o “segredo” está na “repetição sistemática”. A recuperação deve assumir o papel fundamental e ainda mais nos períodos onde “não há tempo para treinar”, pelo acumular de jogos de 3 em 3 dias, aí ainda mais importante é a distinção entre o essencial e o acessório, dar exclusividade ao treino de detalhes menos relacionados e até opostos àquilo que é a forma de jogar da nossa equipa pode ser fatal, especialmente numa altura em que o dia do jogo é talvez o único dia verdadeiramente aquisitivo (numa dinâmica semanal de jogo 3 em 3 dias). O pormenor tem que ter sempre uma relação com o “pormaior”.

Percebe-se, à volta deste tema, uma necessidade que toda a gente tem em querer acrescentar o seu “grãozinho de areia” e fazer desses “grãzinhos” os protagonistas do processo, por vezes com o único propósito de reclamar para si o mérito quando chega a vitória. Tratam de pôr dentro do "saco” (equipa/jogador) aquilo que na área/perspectiva de cada um é importante. Entretanto encheu-se o “saco” de “tralhas”, e são “tralhas”, porque simplesmente não há nada que as ligue (ou mesmo que houvesse, investiu-se tanto tempo nisso que se descurou o que lhe dava sentido). Fica a equipa e o jogador cheio de pormenores sem uma base que os ligue e lhes dê sentido. Podem ser pormenores estratégicos, técnicos, físicos, etc. a questão a ser levantada é a pertinência de se incluir determinada coisa no treino em detrimento de outra? Que ligação tem isso com tudo o que temos feito? Que repercussões terá, na continuidade, o treinar pormenores incoerentes com a nossa cultura/identidade colectiva (hábitos/dinâmicas) e individual (corpo do jogador por exemplo)? É aqui que ganha extrema importância o hierarquizar/o priorizar, pensar naquilo que se deve incluir no treino tendo em conta o que nos tem orientado e perceber se incluir isto traz mais benefício ou prejuízo no médio prazo. Incoerência atrás de incoerência vai originar uma perda de fluidez na dinâmica da equipa, pela perda da sustentabilidade, pode não ser na semana seguinte porque uma incoerência até pode ser irrelevante, mas a bola de neve, se alimentada, irá continuar a crescer. Os princípios requerem manutenção semanal (desde que se respeite a recuperação que permite a aquisição dos mesmos), porque no fundo são aquilo que conecta os jogadores e a faz com que a equipa tenha vida própria.


A dinâmica da equipa está longe de ser uma redutora soma de pormenores, são princípios e sub-princípios de interacção que favorecem o aparecimento posterior dos pormenores coerentes... não temos dúvidas nenhumas que os detalhes vão acrescentar qualidade à dinâmica da equipa e que muita gente poderá ajudar a que a "parte" flua melhor no “todo” (assim se orientem por ele). Mas não deixa de ser um pormenor mesmo quando é aquilo que no final salta mais à vista por ser mais fácil de diferenciar. Nunca a parte existirá sem o todo, nem o todo sem as partes. Portanto que não se substitua um pelo outro. Os princípios sustentam-nos e os pormenores enriquecem-nos, assim haja coerência entre uns e outros.