segunda-feira, 3 de junho de 2019

A maior frustração de um treinador


Cada um de nós vive a sua vida para conquistar ou criar algo. São os pequenos avanços (com recuos pelo meio) que nos vão dando alegrias e uma sensação de orgulho. Ver a nossa obra a crescer e a desenvolver-se de acordo com aquilo que vamos fazendo preenche-nos e deixa-nos uma sensação de utilidade que é fundamental para o nosso bem estar.

Ser treinador não é diferente. Ser treinador implica perspectivar cada treino no sentido de construir um jogar que ajude a equipa a melhorar, melhoria essa que está sempre orientada por aquilo que o treinador acredita ser a melhor forma de enfrentar os desafios, ao mesmo tempo pensa como cada jogador pode melhorar para fazer esse jogar evoluir. Tudo isto de forma a poderem disputar o jogo contra qualquer adversário e como consequência poderem competir pelo resultado.

A frustração de qualquer pessoa chega no momento em que, sendo obrigada a colocar em prática aquilo que tem treinado, percebe que as coisas (talvez por não estarem devidamente entranhadas) “não saem” como se pensava que iriam sair. É frustrante quando o que fazemos não condiz com aquilo que tentamos construir diariamente. Antes do resultado, esta percepção de que não há melhoria palpável, este sentimento de que o nosso esforço não produziu a evolução esperada, isto por si é a provavelmente a maior frustração de um treinador/jogador/equipa/pessoa.

Importa perceber que muitas vezes os “resultados” do treino podem não chegar no imediato, para que não se perca a crença no que se faz todos os dias – por vezes os ganhos do nosso trabalho só se vêem mais tarde. Por outro lado deve-se sempre pensar no que está por detrás dessa falta de correspondência entre o que se treina e o que se joga. E isto é responsabilidade de todos, perceber o que está a atrasar o processo e o que pode ser feito no sentido de irmos construindo um jogo cada vez mais completo e consistente ao longo do jogo inteiro.


a) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Bournemouth) de Sarri ao serviço do Chelsea FC - Premier League 2018/2019 – jogo que os “Blues” perderam por 4-0

quinta-feira, 30 de maio de 2019

A dor não deve ser suprimida, nem nos deve suprimir


Está a chegar a final da Liga dos Campeões que irá colocar frente a frente Liverpool e Tottenham. Imensos (alguns vá!) “dramas” ocorreram nesta edição. Um deles foi forma como se deu a eliminação do Manchester City, precisamente contra a equipa de Londres, que estará na final.

Este episódio em que Guardiola abordou a forma de encarar este momento “doloroso” é algo que cada vez mais nos deixa convencidos de que o Futebol é uma extensão da vida, é a possibilidade de vivenciarmos tanta coisa num curto espaço de tempo em treino e no dia do jogo - alegrias, amizades, frustrações, dor, conflictos, superação, etc..

Ignorar ou suprimir a dor é um erro, superar a dor é uma coisa, mas suprimi-la como se nada tivesse acontecido é perder uma hipótese de aprender com ela e de nos melhorarmos com essas aprendizagens. Por outro lado não devemos deixar que essa dor nos suprima, porque há mais na nossa vida para além daquilo que nos provocou essa dor.

A sociedade mais um vez está enclausurada numa expectativa de que os maus momentos são para ser ultrapassados dum dia para o outro como se nada tivesse acontecido, mas a verdade é que aquilo que nos provoca dor leva tempo a ser ultrapassado, mas nunca, nunca, nunca deverá ser esquecida. Aquilo que nos marcou durante a vida, ainda que por vezes possa não ser recordado através duma imagem, arranja sempre uma forma de deixar impresso no nosso corpo algo que mais tarde nos será útil, por já termos vivido experiências semelhantes. Isto é uma ajuda tremenda, quase como uma vacina que nos deixou anti-corpos no organismo, prontos para agir quando detectarem a presença do mesmo “problema” que os “criou”.

Por isto é que retirar as dores naturais dos maus momentos da vida de uma criança, de um jovem é um erro que está muito em voga, a medicação e o não darmos tempo para que arranjem formas de ultrapassar essa mesma dor é impedir que criem esses tais anti-corpos. Mais tarde irão sorrir de novo e certamente enquanto a dor não é ultrapassada faremos tudo o possível para os ajudar a continuar a viver, mas nunca suprimir a mínima dor com comprimidos/com distracções constantes que nos impedem de sentir e de viver realmente tudo aquilo que nos aconteceu.


a) Conferência de imprensa (pré-jogo vs Tottenham) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019 – após a eliminação nos quartos de final da Liga dos Campeões, também frente ao Tottenham

sábado, 25 de maio de 2019

"Pode-se escolher como jogar, mesmo quando se perde?"


Esta é a pergunta que tanto atormenta o futebol, no geral, e aqueles que gostam de ver os seus clubes ganhar, em particular.

Referir que duas semanas após esta conferência Berizzo acabou (“inevitavelmente”) por sair do Athletic de Bilbao, após a sua saída a equipa obteve muitos melhores resultados e escalou na tabela classificativa a ponto de quase alcançar um lugar europeu. Mas como acreditamos que se aprende de toda gente, mesmo de quem perde, aqui fica a nossa reflexão sobre este assunto.

Como se contraria o insucesso? "Sem rumo" é a solução? Qualquer rumo? Sem sentires no fundo da tua alma aquilo que vais ajudar a construir? Será que quando perdes constantemente te podes dar ao luxo de jogar de uma determinada forma, de ter um estilo de jogo e continuar a fazê-lo crescer? (aqui encontram uma das possíveis responstas a esta questão) Nesses momentos parece o que se deve fazer é "ganhar de qualquer maneira", mas o que é isso exactamente? Como é que se treina/joga para se "ganhar duma maneira qualquer"?

Treinar/jogar é sempre no sentido de melhorar e isso implica haver algo que oriente esse processo. Portanto, "qualquer coisa serve" não fará muito sentido. Se depois, no jogo, a vitória acontece de forma fortuita e pouco condizente com o estilo para o qual nos dirigimos (a tal intenção), não deixa de ser festejado, porque todos os treinadores querem ganhar, mas lá estarão no treino seguinte a melhorar a equipa de acordo com os seus princípios de jogo e não é um resultado fortuito que lhes tolda o ver o quão longe a equipa está do ideal. Porque é disso que se trata, de melhorar para ganhar de uma determinada maneira e não duma maneira qualquer (tal como no último post assinalámos usando o exemplo do Vitória SC de Luís Castro).

Eduardo Berizzo, preferiu manter-se no caminho em que acredita, com os seus valores e princípios, do que ser incoerente. Estará errado em tudo porque perde?

O insucesso de alguém dá-nos o atrevimento para interferir e dá uma segurança (insensata) de que a nossa opinião é válida perante o fracasso do outro. Coloca-nos em pé de igualdade com quem perde.

A ideia do treinador (no geral) e as características dos jogadores (no pormenor) dão o rumo a seguir, trair isto é abdicar do sentido que guia a equipa e isto dificilmente levará à vitória. Devemos até ter em conta que cada treinador vê nos mesmos jogadores possibilidades diferentes, condicionados que estão pelas suas experiências passadas e pela forma como foram idealizando o jogo na sua cabeça. A vontade de ganhar tem que estar sempre articulada com a forma de o fazer. Preocupante é quando o fim justifica "qualquer maneira".

"Se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve." Lewis Carroll


a) conferência de imprensa pré-jogo de Eduardo Berizzo ao serviço do Athletic de Bilbao durante a época 2018/2019
 
P.S. Fascinam-nos aqueles treinadores que mesmo nas dificuldades e nos maus resultados se mantém fieis aos seus princípios (no jogo e no carácter). Daí esta reflexão. Pena que poucas vezes no futebol se vê um treinador (junto com os jogadores… e todo um clube) ter oportunidade de dar a volta a uma situação complicada, pois ninguém dá tempo para que isso suceda, à mínima dúvida já está tudo à espera da solução "inevitável" (que já é cultural) e que promove a desistência para se recomeçar de novo. Faz-nos pensar no que é verdadeiramente essencial, porque nos maus momentos é a isso que nos devemos agarrar. Num momento de tantos conflitos torna-se ainda mais importante conseguir distinguir o essencial do acessório, estabelecendo prioridades e arranjando soluções, este contexto de dificuldade sem dúvida que tem tanto de aliciante como de difícil. Daí que estes exemplos fossem um grande motivo para aprendermos... todos.

terça-feira, 21 de maio de 2019

O Caminho faz-se caminhando...


Luís Castro – O discurso em sintonia com o percurso

As palavras podem ser muita coisa... por vezes leva-as o vento dada a sua leviandade, outras vezes procuram esconder a verdade, mas também podem ser uma manifestação sincera das nossas intenções, ainda que não se manifeste essa intenção na acção, no imediato.

O tempo, para Luís Castro, tem-se traduzido num grande crescimento como treinador e é um daqueles casos em que o discurso (intenção-ideia de jogo) está em completa sintonia com o percurso (acção-jogar das suas equipas).

Para nós é claro que aquilo que pretende se vê como intenção desde os primeiros jogos da sua equipa, mas há algo fundamental e que por muitos é confundido com incoerência das ideias. Muita gente se manifestou contra escolhas ("já se está a vender em função do resultado"), porque mais uma vez a pressa cega-nos e não se percebe que criar algo leva tempo, dar um sentido comum a 25 cabeças leva tempo. Já para não falar na perda da espontaneidade que origina a pressa de forçar o aparecer de um padrão, o jogar tem que ser inCORPOrado e não memorizado, tem que ser sentido. Leva tempo, ainda mais em contextos onde não se admite o erro e muito menos o errar sobre algumas ideias pré-concebidas, por se jogar em zonas onde se gera ansiedade em quem não tem controlo sobre a bola - claramente quem está fora pouco controla, ainda que o assobio e o “não jogues aí” sejam uma tentativa de controlar algo que se está a tentar criar em treino, quase como que um tentar destruir aquilo para o qual se anda a trabalhar e isto é algo com o qual se deve contar e por isso se deve preparar com treinos no limite onde o risco se sinta como tal e se trabalhe para alcançar a segurança em qualquer zona do campo. É precisamente para isso que cada exercício existe, para criar uma estabilidade naquilo que é o jogar que o treinador pretende que a equipa alcance.

Luís Castro, nunca abdicando das suas ideias, soube equilibrar a sua interferência na equipa. Ou seja, não procurou mudar tudo à pressa nem à pressão, mas ao mesmo tempo notou-se que desde o início do processo o caminho se fez no sentido do jogar que pretende para este (também) seu Vitória SC.

A escolha do 11 sempre respeitou aquilo que a equipa necessitava em função do que já tinha alcançado em termos de jogo (notou-se essa intenção clara). Ou seja o jogo vai-se construindo com jogadores e sendo pessoas são fruto de experiências e é na repetição que a cultura se vai instalando, alguns treinos criam alguma coisa, mas não são suficientes para criar nada tão complexo, portanto é preciso ir vendo como está o jogo e que estabilidade ele tem e que jogadores precisa para colmatar a falta de fluidez em determinados momentos e ir vendo se alguns jogadores funcionam bem com outros, tendo em conta o jogar actual (que efectivamente a equipa joga).

Pareceu-nos que as suas primeiras prioridades para controlo do jogo foram na tentativa de dar equilíbrio à sua equipa por forma a impedir o adversário de ser vertical no momento de perda. Indicadores claros de que o caminho se faz caminhando, mas como qualquer construção requer tempo e mesmo depois de se alcançar a dita estabilidade muito tem que se continuar a aprender para nos mantermos estáveis, algo que ao longo da época se percebeu que não é coisa fácil. Ganhar dá-te tempo e dá crença naquilo que se faz, é óbvio que o resultado como que dá ritmo ao processo, por isso mesmo é necessário que o jogar se construa a ganhar. A forma como entendemos isto, é que nunca o jogar pode ser comprometido pelo ganhar, nem o ganhar pode ser comprometido pelo jogar, porque um contribui para o alcançar do outro… vida de treinador é viver com a sua ideia de como ganhar, num jogo onde tem que convencer “25” jogadores das suas ideias. O treino é a melhor forma de se convencer o grupo, porque os prepara (consciente ou inconscientemente) para que se sintam capazes de ir cumprindo com aquilo que é a proposta de jogo do treinador.

Fica então um vídeo onde o discurso demonstra aquilo que foram as intenções do Mister Luís Castro e da sua equipa técnica ao longo da época 2018/2019. Ficamos a perceber um pouco daquilo que foi o caminho, com altos e baixo, mas em crescendo, até ao jogo contra o Moreirense que permitiu subir ao 5º lugar. Fica bem patente que para alguns treinadores/jogadores o resultado faz mais sentido quando alicerçado num jogo que une toda a gente em torno de um jogo de qualidade.


a) conferências de imprensa pré- e pós-jogo de Luís Castro ao serviço do Vitória SC durante a época 2018/2019

domingo, 19 de maio de 2019

A intuição e a intenção


Sempre que nos preparamos para algo, ou seja, em qualquer processo de aprendizagem o que se pretende é transformar a informação (que importa) que nos entra corpo adentro, através dos sentidos e da experimentação, em inteligência e saber, que criam uma capacidade de priorizar em função do "aqui e agora", que mais não são as circunstâncias que requerem de nós decisões/soluções para problemas ou para o evitar destes... antecipando.

O que acontece é que durante um jogo, e até mesmo durante um treino, o presente toma conta e todo o caos emerge, obrigando-nos a tomar decisões, ora isto requer decidir em milisegundos. No fundo é necessário que se decida mesmo antes de tomarmos consciência da necessidade de termos que decidir, e é aqui que entra a intuição... estando longe de ser anárquica, é muitas vezes difícil de entender e até de explicar.

Qualquer decisão tem um sentido, ainda que se baseie em emoções momentâneas, fruto de experiências mais ou menos recentes que nos marcaram, que em determinado momento (no "aqui e agora") nos depertaram para algo do que nos envolve/rodeia e desencadeando assim uma decisão e acção.

O que se pretende é que a intuição seja coerente com aquela que é a nossa intenção prévia para determinado jogar. Porque a nossa intuição manifesta aquilo que são as nossas prioridades (no momento) e a nossa inteligência (contextual), estando isto relacionado com aquela que é a nossa identidade de jogo, aquele que é o nosso conhecimento dos jogadores que temos (ou colegas de equipa no caso de quem joga), o conhecimento do nosso adversário, etc.

A nossa evolução enquanto treinadores (e jogadores também) deve passar sempre por chegar à máxima coerência (possível) entre a intenção prévia e a intuição que nos leva a decidir em tantos momentos que não “controlamos” de forma consciente.


a) entrevista de Pep Guardiola à BBC Sport no decorrer da época 2018/2019

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Anti-(Cultura de anti-superação)


Se há coisa que procuro diariamente são exemplos de superação, de gente que transcende a dificuldade e os maus momentos, gente que se agarra ao que de bom ainda existe para solucionar e atenuar os defeitos que com o tempo aparecem, mas aquilo que se vê é gente que quer apagar o passado e o presente esquecendo as perspectivas que se tinham para o futuro.

Inspiram-me pessoas, casais, famílias, grupos, equipas, povos, gente que na dificuldade se une para superar as adversidades para seguir um caminho com esperança num futuro melhor, ainda que no caso do futebol isso possa não ser o suficiente para se alcançar os objectivos. Até que ponto damos verdadeira oportunidade para que mais casos destes surjam? Que espaço há para “cair e levantar com mais força”?

Todos sonhamos com uma vida cheia de momentos desses, momentos onde toda a gente junta encontra soluções para poder resolver grande parte dos problemas que nos empurram para baixo. Mas nem sempre a realidade nos dá estes exemplos, o que é acontece tantas vezes é que quando surje uma dificuldade, uma crise, uma dúvida, um momento em que parece não haver um rumo, depois duma desilusão… a coisa resolve-se com o afastamento de quem é responsável. Não se trata de defender treinadores, trata-se de preferir ver gente que se une na dificuldade, do que ver afastar-se gente na "tempestade que vem após a bonança" (nem era bom que a ordem das coisas fosse linear).

Guardiola esteve a 7 pontos do Liverpool e certamente não se vivia tranquilamente em Manchester (city), certamente houve quem duvidasse, mas todos se uniram agarrando-se à pequena chama da esperança. Isto não se consegue só às custas da inspiração de um grande líder, é necessário um determinado tipo de gente que assuma a liderança de si próprio e de quem os rodeia, todos têm que ser responsáveis por inspirar/cativar. O líder também busca, muitas vezes, essa inspiração nos jogadores que lhe mostram que estão ali para dar a volta por cima a cada dia.

Sempre que me vem à cabeça a palavra “superação” recordo-me de Vítor Pereira e das suas épocas no FCPorto. Um Homem que teve que superar o “catálogo” que tinha de adjunto para poder criar uma cultura, uma equipa dominadora e que sempre tentou solucionar o jogo pela busca da bola, com garra sim, mas com muito jogo… e conseguiu-o num clima de dúvida diária.

Jorge Jesus, que perdeu tudo pelo SLBenfica nas duas últimas semanas da época 2012/2013, é outro grande exemplo. Tinha uma equipa destruída naquela final da Taça, com jogadores em conflito e dessa queda frustrante levantou-se gente capaz de criar uma equipa feliz a jogar.

Isto é impossível sem os tais jogadores (e toda a gente do clube) que “inspirem” o treinador, jogadores que se deixam guiar e que ao mesmo tempo guiam os companheiros que se mostram com mais dúvidas. O Líder tenta cativar para as suas ideias, mas sozinho não é nada, precisa que todos queiram e acreditem que é possível criar novos laços quando parece só haver um vazio à nossa frente.

Não nos habituemos a este clima de anti-superação que ganha vida na “chicotada-psicológica”, tentemos juntos. Não esperemos o afastamento de uns e a chegada de outros para tentar. Tentemos todos os dias para que consigamos continuar unidos e seguir com todos até ao fim. Este é o meu sonho: que não se quebrem os laços que outrora nos fizeram sonhar por um momento de dúvida.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Guardiola e a pergunta esperada!


Agora fala-se de recordes e do lindo que é o sucesso de treinadores, de jogadores, e de todo o staff de um clube, mas aqueles que hoje ganham (e perdem) percorreram um caminho... o deles, melhor ou pior, com altos e baixos... o fundamental é que sintam que esse foi o caminho que escolheram, aquele que quiseram percorrer independentemente do resultado final, mas sempre pensando que esse seria o percurso que os aproximaria do triunfo e do crescimento.

Ora, há uns meses Manchester city estava a 7 pontos do Primeiro classificado (Liverpool), condenado a entregar o campeonato caso nada mudasse na forma como procuravam disputar o jogo. Nessa altura surgiu a inevitável e previsível pergunta, que nada mais é que o espelho duma sociedade superficial e com um pensamento que, de tão linear, reduz o potencial de transcendência que temos dentro de nós. Urge maior diversidade para que haja mais alternativas e assim espaço para quem valoriza mais o que é feito sem espera que surja o resultado.

Vencer é o raro, não o comum. Ser o melhor mais vezes do que aquelas em que não se é o melhor, é algo raríssimo (se é que existe... durante uma vida inteira). Portanto, o essencial é melhorar sempre, isso está ao alcance de todos, ao passo que vencer (no sentido de ser o Primeiro) está ao alcance duma minoria. Em centenas de equipas que integram todas as divisões do futebol Inglês, por exemplo, só uma vai ser "a melhor". Portanto, vencer é para UMA só, mas melhorar tem que ser para todas, e temos que encontrar motivos para melhorar tanto nas vitórias como nas derrotas (o caminho é tudo e tem de tudo).

Dito isto, vencer não pode ser um medidor da qualidade dos estilos, vencer (no máximo, se tudo correr bem) é o medidor da qualidade das equipas, dos seus jogadores e da forma como jogaram numa determinada época.

Vamos lá imaginar que toda a gente jogava segundo um só estilo e só existia um tipo de jogador, ainda assim só um ganharia. 20 equipas com um só estilo implicava (na mesma) ter 19 equipas a fracassar, e só uma a vencer. O fracasso desse estilo seria muito maior do que o triunfo (19 - 1, goleada das antigas).

A questão é: o que resta aos normais? No fundo, o que resta aos treinadores (humanos) que perdem mais títulos quando comparado com o número de títulos que ganham? (Ou seja todos os treinadores). Se todos queremos ganhar mas quase ninguém ganha, o que é que nos move?

Consideramos duas coisas fundamentais:

- a superação que se reflecte na procura de soluções para os problemas (do jogo, essencialmente) que geram aprendizagem e por isso desenvolvimento;
- as crenças (que se traduzem em princípios/valores que definem aquilo que nos guia) que são fruto das nossas experiências. As crenças vão-se aperfeiçoando desde que não deixem de orientar o processo de crescimento (da forma de jogar da equipa).

Estas são duas condições fundamentais e que devem ser à prova de bala (neste caso de derrotas ou de dificuldades), tal como Guardiola fala.

Melhorar implica uma mudança, mas melhorar não é mudar. Porque procurar soluções para aquilo que não fazemos bem não implica mudarmos aquilo que é o nosso estilo ou a nossa essência, é simplesmente corrigir erros. Mudar de crenças/de ideias/de filosofias (que no fundo são também muito de que nos caracteriza) é perder o rumo e assim sendo é deixar o processo entregue ao aleatório e à anarquia. Porque saltitar entre "crenças" é não ter crenças nenhumas, é perder sentido da nossa missão e é perder a capacidade de orientar o processo. Neste caso, o que nos moveria e segundo que perspectiva iríamos ver o jogo para procurar o porquê de ganharmos e porquê de perdermos?

A crença é o que nos mantém no caminho do desenvolvimento independentemente das dificuldades e dos obstáculos. A superação é aquilo que nos permite melhorar a cada momento do processo e assim aprender a melhor ultrapassar os obstáculos. Assim sendo ambas nos colocam mais perto de ganhar.

Sem crenças (algo que nos define e guia no jogo e na vida) e sem a vontade de nos superarmos seria uma questão de tempo até que tudo deixasse de fazer sentido, para nós e para quem nós orientamos.

A pergunta que deveríamos fazer a nós próprios em momentos difíceis não é aquela que foi feita ao Pep, deveria antes ser a seguinte: Como e em que é que eu, com as crenças que me definem e me dão uma tendência para resolver os problemas do jogo de uma determinada forma, posso CONTINUAR a melhorar a minha equipa e os meus jogadores?


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019

domingo, 12 de maio de 2019

O “Melhorar” não é obrigado a dar a mão à “estatística”


A uma jornada do final da Premier League, é certo e sabido que o Manchester City irá fazer menos pontos do que na época passada e pode até não ganhar o campeonato que há um ano arrecadou com 100 pontos, ao passo que este ano fará 95 (derrota), 96 (empate) ou 98 (vitória).

Será possível melhorar piorando os resultados?

Se no futebol profissional, reformulando (porque parece-me que o exemplo é ainda mais impactante e esclarecedor), se num clube que está seguramente no top 10 Mundial se pensa assim, o que é que se anda a fazer na formação? Porque é que justificamos e julgamos o processo de aprendizagem como bom ou mau SÓ pelo sucesso/insucesso do resultado final?

Então?! Mas é possível tornarmo-nos melhores sem ter como referência o resultado passado? Sem colocar uma meta "matemática"? Sem elevar o número de pontos? Sem atingir uma melhor classificação do que o treinador anterior ou da que fizemos na última época? CLARO QUE SIM!

Quando foi que caímos no erro de medir o desenvolvimento (algo tão complexo) pelo resultado e pelos pontos acumulados? Julgava que a pontuação tinha sido criada no sentido de aumentar a competitividade, tornando assim a competição algo mais entusiasmante (como auxílio ao desenvolvimento e não como validação do processo). Como é que se medem desenvolvimentos (individuais/colectivos) numa tabela classificativa? Olhar para pontos acumulados e dizer que quem teve mais pontos corresponde à equipa que mais evoluiu é claramente usar linearidade para avaliar algo super complexo.

A "novidade" é (não digam a ninguém)... fazemos isto em tudo na vida, em tudo (por exemplo):

- a forma como se avalia nas escolas segue esta forma de pensar;
- a selecção de jogadores que é feita em função do resultado imediato sem perspectivar sequer quem tem mais talento ou melhor mentalidade, algo que com certeza influencia de sobremaneira o desenvolvimento;
- quem tem mais golos é melhor jogador (causa-efeito linear/única).

Esta lógica está espalhada por toda a sociedade... como um vírus... não nos escandalizemos que isto não é de agora. Curas? Primeiro perceber que isto é um problema, porque ninguém tem necessidade de se curar quando pensa estar bem e saudável. Depois é mudar este paradigma e levar os jogadores a olharem para aquilo que é o seu crescimento e o da equipa, e não para números, que podendo ser usados, não devem ser o essencial para se aferir a qualidade do processo, nem deveriam abalar a "crença" daquilo que vai fazendo de bom.

Refiro essencialmente os jogadores, porque são eles que mais ganham com esta forma de olhar o processo de desenvolvimento, pois é na sua formação/educação desde pequenos que se poderá mudar esta cultura onde o importante aparece numa folha de cálculo, numa tabela classificativa, que nos diz que somos melhores do que os outros no presente, mas não diz nada sobre o nosso desenvolvimento para o futuro, ou numa pauta cheia de números que são uma média tantas vezes baseada em aprendizagens mecanizadas e desprovidas de contexto dentro de quem as engole sem entendimento ou sentimento.


a) programa da Sky Sports (vídeo retirado do canal do youtube “Sky Sports Football”) emitido antes do início da época 2018/2019 (Agosto de 2018), entitulado “Premier League Launch 2018-2019”

sexta-feira, 10 de maio de 2019

“O que depende de mim" vs “Culpa disto e daquilo”


Tínhamos partilhado aqui um episódio genial relatado por Toni Nadal, onde o seu sobrinho (na época treinado por si) pelo hábito de se sentir responsável por tudo o que lhe acontecia nem se apercebeu que estava a jogar com uma raquete partida. Ainda mais genial do que isto é o caminho até se chegar a essa auto-exigência, a esse sentido responsabilidade que nos volta para nós próprios e para aquilo que depende de nós, a essa busca das soluções para os problemas… sem desculpas, mesmo quando elas estão ali prontas a ser usadas e desta forma podermos atirar a responsabilidade para longe e assim seguirmos o nosso caminho sem alterarmos absolutamente nada na nossa trajectória.

Como tudo na vida há instantes ou períodos menos bons, em que não nos conseguimos libertar daquilo que não nos ajuda e focamo-nos demasiado naquilo que não tem solução, naquilo que não muda… quando deveríamos antes tentar encontrar formas de contornar, resolver ou simplesmente ignorar o problema. Viver constantemente neste estado de necessidade de atribuir a culpa a tudo e mais alguma coisa que não “eu”, evitando assumir a responsabilidade que me levaria a tentar solucionar o que está a acontecer, é viver sem aprender.

Falamos muitas vezes do peso da responsabilidade (âmbito desportivo), mas não tem que ser um fardo e por isso, terá que ser sentida, a responsabilidade, como algo saboroso e que nos transporta constantemente para a resolução de problemas focados naquilo que depende de nós, haverá sempre outras variáveis a contribuir para os meus erros, mas ter noção de que outras variáveis existem, não deve implicar a perda do reconhecimento que há coisas que vão sempre depender de mim e é nessas que me devo focar.

Não tenhamos medo de dar responsabilidade aos miúdos, porque é na convivência com ela que terão necessidade de assumir a resolução dos seus problemas sem que a sintam como um fardo, e sim como algo que os faz melhorar quando se focam naquilo que podem fazer para dar a volta. Que se sintam parte do processo percebendo aquilo que deve ser melhorado, só assim irão seguir o seu próprio caminho, algo que naturalmente terá consequências. É por isto que quando são eles a querer ir ao treino e a assumir o sonho de chegar a ser isto ou aquilo, se implicam muito mais naquilo que fazem.

Esta é a grande vantagem de sentir e saber que depende deles e que não adianta usar outras variáveis como desculpa para os seus erros. As consequências, as boas e por vezes as más, vão chegar e como a decisão e a ambição é deles (e não é imposta, nem é uma expectativa dos pais) não precisam que alguém assuma a responsabilidade por eles, eles próprios vão sentir prazer em assumir algo que é deles, precisamente por ter sido uma decisão sua.


a) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

A necessária busca da perfeição para combater a “alta pressão”

Credit: Getty Images

O feito de ontem comprova a dificuldade que é lidar com esta pressão do Liverpool... a insistência do Manchester City é mais do que uma teimosia é uma necessidade transformada em cultura, onde são mais as certezas do que as dúvidas.

Importa reforçar que a dinâmica é sempre orientada por princípios (sejam eles mais colectivos ou mais individuais) que procuram dar sentido ao que envolve a equipa e, no fundo, levar a bola a progredir no campo e chegar perto da baliza em boas condições. Como os princípios estão antes da dinâmica posicional e das trajectórias da bola, é natural que os jogadores tenham que agir uns em função dos outros (interacção) como necessidade de não se desviarem dos tais princípios orientadores. Isto que facilita enormemente a auto-organização e a cooperação, conceitos que só são possíveis quando todos se orientam pelos mesmos valores do jogo.

Se no vídeo da publicação anterior (aqui) se via Stones (também Fernandinho) a pedir a bola "cravado" na 1ª linha de pressão do adversário e Walker a criar superioridade desde trás como opção para o GR sair curto, libertando Bernardo para uma "zona morta", neste vídeo vemos que a dinâmica do jogo e a necessidade de ajustar não impede a manifestação dos princípios, bem pelo contrário (tal como que referimos acima esse ajuste é crucial para que eles se manifestem e dêem sentido à dinâmica). É como se a equipa fosse um organismo vivo onde cada parte se coordena com as restantes para manter o normal funcionamento em função da necessidade e da circunstância.


- Walker em "zona morta" (entrelinhas); - Bernardo+Fernandinho “incorporados” na 1ª linha de pressão do adversário (quase como que para a “espremer”, obrigando-os a fechar mais, para libertar espaço por fora, mas também são uma possibilidade de progressão, com um toque podem deixar essa linha para trás); - Stones a criar superioridade desde trás, com Ederson e Laporte - atrair a 1ª linha de pressão do Liverpool e libertar jogadores numa "zona morta" (passe para o "2º andar") - Homem Livre


No próximo vídeo dá para perceber como o atraso ao Guarda-Redes é uma necessidade de ganhar tempo, para que toda a gente da equipa se oriente de forma a poder receber a bola com uma visão ampla do campo e com o corpo orientado para poder dar vários seguimentos à bola e assim reduzir o risco de ser completamente limitado e ainda criar dúvida na pressão adversária . Este “jogar para trás” nunca pode ser um passe como quem passa um problema e "diz": "Resolve tu!"


Todos estão envolvidos na resolução do problema e o passe vai para quem nos garante mais tempo para voltarmos a ver tudo o que se passa no campo, para ter a bola em segurança e/ou para quem está em condições para a fazer progredir. O GR, neste caso, é mais um que coopera nesta tarefa de progredir em segurança.

Para além de todos estes princípios e sub-princípios, de que fomos falando, que na repetição sistemática dá confiança a toda a gente para se guiar por eles, é importante perceber que o erro não pode ser o medidor do certo e do errado no que aos princípios diz respeito, ou seja o erro, ou mais precisamente a sua correcção não pode acontecer no sentido de alterar a essência do jogo que a nossa equipa joga e por isso é que uma perda de bola atrás que quase dá golo não altera nada, por isso a jogada seguinte leva a aprendizagem das experiências anteriores sem perda daquilo que nos orienta. Como os skaters, que depois de uma queda voltam a tentar 1001 vezes até acertarem com a “acrobacia”, como nós quando aprendemos a andar e como qualquer outro processo de aprendizagem.

Impressiona a crença e o orgulho na forma como tentam disputar o jogo e consequentemente o resultado, algo que se transmite na enorme serenidade com bola... de todos, até do GR que é onde (tantas vezes) tudo começa.

Porque é nos momentos de aperto que se vê o que é cultural (o que é hábito e nos sai espontaneamente) e o quão entranhados estão determinados princípios.


a) jornada 8 da Premier League 2018/2019 – Liverpool vs Manchester City

quarta-feira, 1 de maio de 2019

(Sub-momentos) Saída do GR + Criar Espaços vs Pressão Alta

Credit: Getty Images

Manchester City e Liverpool ultrapassaram os 90 pontos (92 e 91, respectivamente) a faltar 2 jogos para o final da Premier League. Nunca antes isto tinha acontecido em mais de 100 anos de história da Liga Inglesa.

O Liverpool tem obrigado a que a forma de jogar do City e a mentalidade/certeza para o fazer se transcendam – nos jogos entre eles, onde os limites do possível são testados num jogo só e também pelo elevar da fasquia pontual que faz com que toda a época seja disputada no limite.

Os Reds forçam o erro (sem bola) e aproveitam qualquer deslize para chegar à baliza contrária de forma vertiginosa no pós roubo. Parece-nos que a seguir à ausência de um entendimento do jogo que me permita alongar o tempo e o espaço para agir com a bola e do trato da mesma, é o Liverpool a causa que mais limita as acções do portador pela sua pressão sufocante em todo o campo,

Assim sendo, nada melhor do que perceber aquilo que orienta as saídas do Guarda-redes/”Criação de Homem Livre” num grau de extrema dificuldade - não se trata de memorizar os caminhos e colá-los numa outra equipa, o propósito é antes perceber e dominar a arte dos princípios que orientam a escolha dos caminhos e que permitem os tais ganhos de espaço, que parecem prolongar o tempo de quem procura dar segurança à bola e em simultâneo provoca a criação de espaços para progredir.


Esclarecer que a “diminuição do risco” não tem nada que ver com “evitar o passe para determinadas zonas pré-estabelecidas” (isso seria o tal memorizar e esteriotipar dum jogo que pode muito bem ser desenvolvido). A diminuição do risco implica a busca da perfeição nos posicionamentos, no 1º toque, na orientação dos apoios, no ver tudo antes de receber a bola, no controlo dos adversários próximos (percepção de onde vem a pressão), a segurança é dada por tudo isto que é individual e colectivo ao mesmo tempo, porque a criação de soluções para que a bola possa (por exemplo) andar “de Primeira”, quando assim tem de ser, é promovida pelas soluções de passe que os meus colegas me dão. O risco é relativo, porque dependerá do estarmos ou não preparados para enfrentar os problemas, não é arriscado se for contextualizado e suportado no tentar criar as condições ideais para poder ter a bola, para a levar ao longo do campo até à outra baliza e para finalizar.


Neste momento importa que a bola saia controlada (muita gente usa o termo "limpa") desde trás e com segurança para criar/procurar espaços que nos permitam caminhar para zonas cada vez mais próximas da baliza adversária, porque queremos estar o maior tempo possível longe da nossa baliza e a criar espaços perto da contrária. Perceber também as vantagens que possam existir em colocarmo-nos em zonas mais avançadas com um passe longo, assim haja vantagem (possibilidade de manter a bola sob-controlo).

Detalhes individuais essenciais (alguns já referidos acima): orientação de apoios, passes que ajudem o receptor (de várias maneiras), dar tempo com bola para que as soluções/opções que dividem o adversário surjam, pedir a bola no momento exacto (perto ou longe) em função da pressão, sempre que possível disposição para jogar de primeira (disposição tanto de quem se desmarca para receber como de quem passa), ver tudo antes de receber é aquilo que me permite antecipar o que pode acontecer e ajustar a minha posição (no campo e do corpo), ver enquanto estou com bola permite-me ajustar em função do aqui e agora às mudanças que decorrem a cada segundo de jogo, o engano que é a mais velha arte de prolongar o tempo e nunca irá deixa de ser fundamental para que haja segurança e controlo (ainda que o pânico e o desconforto da pressão nos tenham feito acreditar que é uma perda de tempo e é demasiado arriscado).

O "Primeiro passo" é escapar à primeira linha de pressão mantendo a bola sob-controlo. Para isto tem que haver uma equipa "aberta e profunda" para provocar uma espécie de efeito espelho no adversário e assim criar espaços através das possíveis trajectórias da bola e dos "corpos" (jogadores) que também atraem adversários. Aliás é na conjugação de Espaços, Bola, Posição (de cada um de nós), Timing (certo)... que vamos criando caminhos para progredir.


A disposição por vezes pode ser a dos slides, por vezes pode ser outra, naquilo que aqui pretendemos fazer, o verdadeiramente importante é perceber as intenções/princípios por detrás das dinâmicas e dos “desenhos” momentâneos (frames).


Não é perfeito e o risco existe sempre. Mas ele existe independente da forma. Arriscar faz parte do jogo, uns arriscam a chutar prá frente outros arriscam desta maneira. A segurança vem com o desenvolvimento das dinâmicas e de cada jogador... no treino. No fundo, segurança e risco é algo que se quer constantemente no jogo.


a) jornada 8 da Premier League 2018/2019 – Liverpool vs Manchester City

domingo, 28 de abril de 2019

Toni Nadal: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida!"


No outro dia publicamos 👉 aqui um vídeo em que Sarri e Guardiola falavam da importância do foco estar naquilo que poderemos controlar, aquilo que depende da nossa equipa – "Melhorar o Desempenho" e vermos nas dificuldades uma oportunidade de nos superarmos.

Toni Nadal e o seu sobrinho, Rafael Nadal, são um exemplo de como a mentalidade certa nos permite alcançar ou até transcender o nosso potencial presente. Uma mentalidade que não se refugia na desculpa fácil, faz-nos sentir responsáveis pelas coisas boas que fazemos e mais importante e raro por aquilo em que não estivemos tão bem e que se repercute nos erros que cometemos. Perceber e aceitar isto com naturalidade e com o menor conflicto (interno/externo) possível é essencial para a evolução.

Importantíssimo lidar com esta responsabilidade desde o ponto de vista do desenvolvimento e não do ponto de vista da frustração (prolongada), algo que nos afunda na apatia e no "colocar de lado" algo pelo qual tivemos, em tempos, uma enorme paixão. Isto necessita de educação, não é fácil nem aleatório que se adquira esta predisposição para ser “alguém que assume a responsabilidade" de forma natural e positiva. Se não houver bons exemplos à nossa volta, ou seja, se não houver uma cultura onde o "fracasso" é uma oportunidade para melhorar e não uma oportunidade para arranjar desculpas que atenuem esse mesmo fracasso, então a formação fica comprometida.

Que auto-estima terá alguém que busca uma desculpa completamente irrelevante a cada obstáculo que encontra no caminho? E mais, o que tem uma criança a melhorar quando todos os erros são culpas do árbitro, do colega ou do treinador?

Relembramos que se trata de um jogo. Mas até tratando-se de uma doença a lamentação da desgraça, ou a procura de culpados para a nosso estado não traz a cura, pelo contrário. Assim como existe o "efeito placebo" que nos demonstra como a crença (por si só) de que algo é bom já produz uma melhoria, também existe o "efeito nocebo" cuja crença de que algo nos prejudica (por si só) já piora a nossa condição.

Por isso é tão importante não buscar culpados para o resultado. Procuremos aquilo que depende de nós, até porque "o que não tem remédio remediado está". A partir daí procuremos aquilo que pode ser solucionado e busquemos soluções que nos ajudem a resolver os problemas que nos são colocados (no futebol como na vida). É na busca das soluções, na busca daquilo que depende de nós que está o segredo para o desenvolvimento e o fundamental da formação/educação.


a) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Bernardo pode não encher a camisola, mas enche o campo


Ontem o City, onde Bernardo Silva, David Silva e Gundogan constituiram o meio campo na 2ª Parte (comparar com Fabinho, Henderson e Wynaldum - Liverpool), chegou aos 157 golos nesta época, em todas as competições - recorde de sempre entre equipas da Premier League. Isto só prova que a visão de que impera no “futebol moderno” um “jogo físico” é uma visão muito redutora deste desporto. Claramente não há, nem nunca houve, uma só forma, nem um só tipo de jogadores, capaz de dominar o jogo, levando-o para o registo que mais nos caracteriza e favorece durante mais tempo nos 90 minutos. Será sempre uma questão de ter em campo inteligência/talento, ser coerente nas escolhas e naquilo que se treina para construir, muito além duma forma de jogar, uma cultura de jogo dentro da equipa... dentro do clube.


No final David Silva (sem marcar qualquer golo) foi eleito homem do jogo (absolutamente nada contra). Poderia muito bem ter sido o outro Silva, o Bernardo, aquele menino que entre os 14 e os 17 anos, por ser franzino e abalroado pelos que tinham mais força, pouco jogava. Aquele menino que deu a volta a uma situação aparentemente desvantajosa recorrendo ao domínio do seu corpo e dos timings/espaços para o usar, evitando assim o contacto quando isso o colocava em problemas. Aquele menino que teve que se desenrascar recorrendo à única coisa que não engana, o jogo, arranjando soluções dentro do mesmo para a tal “desvantagem”, porque claramente não foi pelo aumento muscular que resolveu o problema e para surpresa de muitos fê-lo treinando no limite, num treino onde o essencial era jogo.

O Bernardo fez mais um jogo que transcende o físico e exalta o jogo, porque enche o campo com aquilo que deveria ser essencial – o entender e saber jogar o jogo, pelos timings de ocupação dos melhores espaços (a defender e a atacar), pela forma como domina o seu corpo e o usa para tirar vantagem dos desequilíbrios momentâneos de jogadores com o dobro da sua massa muscular, com o dobro da sua força e da sua velocidade de deslocamento.

Este “encher o campo” não é o mesmo que “estar em todo o lado”, é antes um estar onde precisa de estar no momento certo para lá estar, quer quando joga por fora – extremo – como quando joga por dentro - médio.

Acho que o “futebol moderno” que criou o “reforço muscular” já teve mais que tempo de criar exercícios de “reforço de inteligência”, de “reforço de entendimento do jogo”, de “reforço do saber como tirar partido de situações onde o meu corpo (franzino) é aparentemente uma desvantagem”, mas parece que andamos distraídos com outras coisas que claramente não merecem nada o protagonismo todo que têm. O “reforço” essencial faz-se no treino jogando. Agora, se nos dizem que há jogadores que sentem necessidade de fazer outras coisas, porque valorizam e acreditam que é isso que os torna melhores, resta-nos dizer que sabemos dessa realidade.

<<Se achamos que o mais importante é o que eu programo (toda a parte burocrática e científica), estamos enganados, é mais importante que o jogador (estando em condições) acredite que o que faz no treino é o melhor para ele e então aí chega ao jogo no seu máximo potencial para ganhar.>> Lorenzo Bonaventura (elemento da equipa técnica de Guardiola, no Barcelona, no Bayern e agora no Man.City)

Temos perfeita noção do poder das crenças e já o referimos várias vezes aqui. Não é isso que nos preocupa, o que verdadeiramente nos preocupa é que no futebol os jogadores passem a atribuir maior importância ao físico do que ao jogo em si. Que se comece a ver jogadores dizer que foi o ginásio ou o treinar sozinho que me tornou um jogador que pode jogar na 1ª liga.


Por isso trazemos aqui o Bernardo (podíamos falar do David Silva, da mesma equipa, e de muitos outros), porque é um jogador que no seu todo (corpo/mente) tem o essencial do futebol e que contraria o “paradigma do atleta”. Isto é FUTEBOL, não se trata de “atletismo com bola”, e portanto o corpo para jogar o futebol do Guardiola ou o futebol do Paulo Fonseca não pode ser o mesmo corpo de alguém cuja ideia de jogo é algo semelhante a “atletismo com bola”.

Já sabemos que isto choca muita gente, mas o essencial é a ideia de jogo e o jogador, o resto é gente a querer o protagonismo que não deve ter, para o bem do futebol e de criar uma cultura que permite o florescimento de jogadores que realmente percebem o que é importante. Para que quando eles sintam dificuldades em entrar no “ritmo competitivo do jogo” percebam que provavelmente terão que entender melhor os timings do mesmo e que correr mais, mais rápido ou durante mais tempo provavelmente não lhes irá resolver o problema. E por isso tem que haver harmonia/conexão entre todas as dimensões.

Para as pessoas que rotulam isto de contraproducente, aconselho a falarem com alguns pais que, para que os filhos melhorem (no futebol) os põem a fazer abdominais e flexões com 7 anos e que vão fazer treino intervalado para os parques com miúdos de 9 anos.

Obrigado aos "Bernardos" que sabem que melhorar está no jogo, sejam eles grandes, pequenos com muita ou pouca massa muscular. O Bernardo sem saber criou um contexto onde depende de nós usarmos o seu exemplo para mudarmos o Paradigma do treino e do jogador, respeitando a possibilidade de surgirem jogadores como ele. Porque o objectivo não é encher a camisola, mas sim encher o campo.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sai: “o Todo” Entra: “a Parte” - o caminho para a Paralisação


“Os pormenores fazem a diferença”, a verdade desta frase fez-nos ignorar a importância de tudo o que permite aos pormenores fazerem a diferença. É que fazem tanto mais a diferença quanto maior for a ligação entre eles e os princípios que sustentam o jogo da equipa. Ou seja, qualquer detalhe só faz sentido quando desenvolvido/sustentado numa base cheia de princípios colectivos que se prolonguem no tempo. A essência estará acima de tudo na coerência entre os tais pormenores e os pilares que os orientam.

O essencial não pode deixar de o ser, porque quando o acessório passa a ser o fundamental e o que é fundamental passa a ser relegado para um segundo plano, é aí que se perde aquilo que orienta as equipas. É verdade que tudo se pode melhorar, mas é importante perceber o que é prioritário. Além disso, vivemos numa época em que o tempo é valiosíssimo, pela “escassez” do mesmo, como se o crescer da informação aumentasse a nossa ânsia de fazer tudo. Das duas uma ou fazemos tudo à pressa ou não temos tempo para fazer nada. É aqui que entra o saber hierarquizar/priorizar, algo que nos dias que correm talvez seja das coisas que mais contribuem para o desenvolvimento da equipa e dos jogadores. Por isso mesmo nem tudo tem a mesma percentagem de importância e nem tudo deve ser tratado como se tivesse o mesmo valor.

Sobram exemplos desta inversão entre essencial-acessório. Não raras vezes vemos os princípios, que sustentam a forma de jogar e a dinâmica, serem colocados de lado, talvez por se pensar “isto já está consolidado” mas a verdade é que o “segredo” está na “repetição sistemática”. A recuperação deve assumir o papel fundamental e ainda mais nos períodos onde “não há tempo para treinar”, pelo acumular de jogos de 3 em 3 dias, aí ainda mais importante é a distinção entre o essencial e o acessório, dar exclusividade ao treino de detalhes menos relacionados e até opostos àquilo que é a forma de jogar da nossa equipa pode ser fatal, especialmente numa altura em que o dia do jogo é talvez o único dia verdadeiramente aquisitivo (numa dinâmica semanal de jogo 3 em 3 dias). O pormenor tem que ter sempre uma relação com o “pormaior”.

Percebe-se, à volta deste tema, uma necessidade que toda a gente tem em querer acrescentar o seu “grãozinho de areia” e fazer desses “grãzinhos” os protagonistas do processo, por vezes com o único propósito de reclamar para si o mérito quando chega a vitória. Tratam de pôr dentro do "saco” (equipa/jogador) aquilo que na área/perspectiva de cada um é importante. Entretanto encheu-se o “saco” de “tralhas”, e são “tralhas”, porque simplesmente não há nada que as ligue (ou mesmo que houvesse, investiu-se tanto tempo nisso que se descurou o que lhe dava sentido). Fica a equipa e o jogador cheio de pormenores sem uma base que os ligue e lhes dê sentido. Podem ser pormenores estratégicos, técnicos, físicos, etc. a questão a ser levantada é a pertinência de se incluir determinada coisa no treino em detrimento de outra? Que ligação tem isso com tudo o que temos feito? Que repercussões terá, na continuidade, o treinar pormenores incoerentes com a nossa cultura/identidade colectiva (hábitos/dinâmicas) e individual (corpo do jogador por exemplo)? É aqui que ganha extrema importância o hierarquizar/o priorizar, pensar naquilo que se deve incluir no treino tendo em conta o que nos tem orientado e perceber se incluir isto traz mais benefício ou prejuízo no médio prazo. Incoerência atrás de incoerência vai originar uma perda de fluidez na dinâmica da equipa, pela perda da sustentabilidade, pode não ser na semana seguinte porque uma incoerência até pode ser irrelevante, mas a bola de neve, se alimentada, irá continuar a crescer. Os princípios requerem manutenção semanal (desde que se respeite a recuperação que permite a aquisição dos mesmos), porque no fundo são aquilo que conecta os jogadores e a faz com que a equipa tenha vida própria.


A dinâmica da equipa está longe de ser uma redutora soma de pormenores, são princípios e sub-princípios de interacção que favorecem o aparecimento posterior dos pormenores coerentes... não temos dúvidas nenhumas que os detalhes vão acrescentar qualidade à dinâmica da equipa e que muita gente poderá ajudar a que a "parte" flua melhor no “todo” (assim se orientem por ele). Mas não deixa de ser um pormenor mesmo quando é aquilo que no final salta mais à vista por ser mais fácil de diferenciar. Nunca a parte existirá sem o todo, nem o todo sem as partes. Portanto que não se substitua um pelo outro. Os princípios sustentam-nos e os pormenores enriquecem-nos, assim haja coerência entre uns e outros.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Superar as dificuldades percebendo o que depende de nós


Facilmente o nosso inconsciente nos empurra para um "abismo das desculpas", é de certa forma uma reacção alérgica que se cria para nos proteger, mas no funda só acaba por nos prejudicar e impedir que se identifiquem e resolvam os verdadeiros problemas, só assim poderemos melhorar. Aquilo que parece atenuar a frustração da "perda", ou seja o atribuir a culpa a terceiros ou às vantagens prévias do adversário, e que muitas vezes é dito em voz alta como quem reclama por mais tempo no cargo ou no 11 titular (pois a culpa não é minha), por mais razão que tenhamos na atribuição dessa culpa a algo que está “fora” da nossa equipa ou do nosso desempenho no jogo, isto nunca deve tornar-se recorrente por uma razão simples: nada disto vai mudar só pelo facto de o assinalarmos e só nos faz perder o foco. Porque o vento não muda por falarmos disso, o calor é para todos, o árbitro não está no treino para o ensinarmos a apitar como achamos melhor e o facto da outra equipa ter mais tempo para recuperar não vai mudar por dizermos: “Pois é, estamos em desvantagem porque eles têm mais tempo para recuperar”.

Iremos sempre compreender a reacção durante o jogo de jogadores e treinadores (que passa em 5 segundos), mas chegar ao fim de cada jogo que nos corre mal e procurar algo externo que nos liberta da nossa responsabilidade... isto, na continuidade, só te torna pior, deixa-te sem rumo, sem direcção a seguir, porque a falta de noção da nossa responsabilidade impede-nos de melhorar aquilo que efectivamente depende de nós.

"Ok! O árbitro poderia ter feito melhor, mas há mais no jogo para além desses erros.” “A chuva estragou o campo, mas a verdade é que eles conseguiram resolver esse problema melhor do que nós." Estes devem ser os pensamentos reinantes, buscar as soluções que estão ao nosso alcance e não perder demasiado tempo a pensar: “estou a ser prejudicado”.

A responsabilidade não pode ser do vento, nem da chuva, nem da relva e ainda que o árbitro tenha errado não valerá muito a pena atribuir-lhe a culpa, isso não nos vai fazer melhorar com certeza. "O que depende de mim então?! O que tenho que fazer... o que temos que fazer melhor?" Estas são as questões que se devem colocar e trabalhar a partir daí para que as respostas e as soluções que encontramos (dentro de nós) surjam o mais rápido possível nos jogos para superarmos todas as dificuldades que aparecem. Como se fosse um sistema espontâneo de transcendência, que nos leva a melhorar a cada obstáculo.

Porque dentro de nós há sempre uma solução, para tudo aquilo que nós podemos controlar, para tudo aquilo em que, de forma determinante, podemos interferir. Mesmo quando a bola espirra no tufo da relva... há solução e ela está em mim e na minha equipa! É disto que temos que nos convencer e convencer os miúdos que agora estão a crescer, não se trata de uma verdade balofa existe mesmo solução para estes problemas... isto é um jogo não é uma doença. Agora, quando algo está fora do nosso controlo, então o melhor é voltarmo-nos novamente para o essencial - fazer o melhor que podemos com o que depende de nós - caso contrário a frustração sobe-nos à cabeça e deixamos de jogar/aprender. Por mais que nos custe, a mentalidade certa é perceber o mais rápido possível qual é a minha responsabilidade no que se está a passar. "O que é que, em função dos problemas circunstanciais que estão à nossa frente, podemos fazer?" É fácil? Não não é fácil, fácil é falar, se fosse fácil qualquer um chegava onde tem potencial para chegar e a verdade é que vemos muita gente que se fica pela metade do que poderia. Claramente não é fácil mudar a "mentalidade das desculpas", mas se não tentarmos nunca iremos ter jogadores/equipas que enfrentam o problema desde o assumir da responsabilidade.

Toni Nadal, tio e ex-treinador de Rafael Nadal, afixou nos corredores e balneários da academia do sobrinho a seguinte frase: "Nunca uma desculpa nos fez ganhar uma partida."

É nos momentos em que a solução do problema nos parece mais fácil, ou seja nos momentos em que todo o nosso inconsciente nos empurra para o "abismo da desculpa fácil", que o nosso consciente tem que assumir o comando e dizer, tal como o Maurizio Sarri: "Só quero pensar no nosso desempenho." e acrescentar "Não é só o árbitro ou o treinador ou o jogador ou o vento ou o relvado ou a bola, eu/nós também tenho/temos responsabilidade no que de mal está a acontecer" e a partir daqui é treinar/viver e corrigir o que podemos controlar.


a) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Everton) de Sarri ao serviço do Chelsea FC - Premier League 2018/2019
b) Conferência de imprensa (pós-jogo vs Brighton) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC – Meia-Final da FA CUP 2018/2019

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Analisar o desempenho para o melhorar


Guardiola: "Analisar e perceber o porquê de ganharmos/perdermos... é a única forma de melhorar."

Formar também é formar para a noção do erro. Noção de que o erro é algo natural no processo e que a atitude positiva é melhorar a partir dele. Saber que o erro não é insucesso é sim uma descoberta. E que quem nos convida a reflectir sobre o que se passou de mau no jogo não quer a nossa desgraça, pelo contrário quer ajudar. Aliás isto deveria ser algo aliciante...

Convém aqui distinguir aquilo que são os “erros técnicos” (falhas na concretização, na precisão e fineza do que se faz com a bola) dos erros de relação/entendimento do jogo. Parece-nos que os primeiros qualquer jogador/pessoa os percebe de forma instantânea – há uma percepção imediata no falhar um passe/finalização ou no Guarda-Redes falhar no agarrar a bola ou no perder a bola na tentativa de ultrapassar adversário em condução – já os segundos só são decifráveis quando se domina o jogo desde o ponto de vista das relações entre o "eu" e "toda a restante complexidade do jogo" (colegas, adversários, espaços, bola, etc.). Consideramos que é aqui que está a grande mais valia da análise, ajudar o jogador no sentido deste perceber o porquê de jogarmos de determinada forma e o porquê de em determinado lance as relações que se estabeleceram não terem resultado ou de terem resultado.

Conviver com esta procura constante do que não está bem, e por isso deve ser melhorado, exige sensibilidade por parte do treinador, pois (infelizmente) nem todos lidam com esta introspecção da mesma forma. Alguns não querem saber de análises para nada, já outros querem saber e exigem que se lhes apresente algo ou até eles irão ver o jogo mal cheguem a casa para perceber o que lhes correu mal ou o que correu bem e porquê. Esta vontade de melhorar é o que leva à transcendência diária.

O próximo passo tem que ser este, o de o jogador estar mais preocupado com as relações que estabelece em campo, porque é nas relações que está a maior complexidade. É no domínio da relação com aquilo que me rodeia que ganhamos tempo e espaço para cometer menos "erros técnicos".


a) entrevista exclusiva a Pep Guardiola (Man.City) publicada no canal do youtube Stadium Astro a 18/05/2018

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Viver à pressa é viver menos!


Não importa se é o Vinicius, o Quim o Zé ou o Manel. O que queremos é alertar para esta vertigem da pressa em que a nossa sociedade vive imersa. A pressa de chegar, a pressa de alcançar, a pressa de estar pronto, a pressa que rapidamente se transforma em pressão pela expectativa exagerada que se cria. Que não se confunda esta reflexão com o preconceito da idade, nem vale a pena deturpar, porque não se trata de nada parecido com isso.

Podíamos até falar daquilo que o Ajax (ou Barcelona) faz, mas o tema não é bem esse. O Ajax é um caso de um processo transversal a todas a equipas (escalões) do clube e que sobretudo prova o poder da especificidade e como ela favorece o aparecimento do talento e ajuda e muito à sua inclusão em níveis altos sem se dar por isso. A especificidade é esse contexto que dá sentido a determinado jogador e assim sendo deixa de ser apressada a inclusão do jovem para passar a ser uma consequência natural do processo de formação.

Ora em milhares de casos não é isto que se verifica, o que acontece é uma pressão social para que se dê a integração de juventude. Importa por isso perceber que a ambição equilibrada é aquela que gera compromisso diário sem gerar pressa, porque "a pressa é inimiga da perfeição" e quem quer andar a top tem que andar lá perto todos os dias, nos treinos, nos jogos, na mentalidade de quem se implica todo em cada momento útil para o desenvolvimento.

O culto da juventude existiu sempre, desde a procura da formula para o elixir da juventude até ao negócio do futebol que faz emergir a pressa do contracto milionário. Chega-se ao ridículo de se valorizar o trabalho de treinadores só porque deu uns minutinhos a um jovem (17 ou 18 anos) da formação. Isto por si só chega? A formação é muito mais do que dar uma oportunidadezinha isso é só um passo de um longo crescimento que se tem pela frente.

Nunca como hoje se deu tanta oportunidade aos jovens no futebol, nunca como hoje tantos jogadores ganharam tanto dinheiro com o futebol e ainda assim nunca tanto como hoje se exigiu oportunidades para os jovens... à força – é necessário perceber o contexto, que no caso do Ajax leva anos... claro que é possível, mas não se pode ignorar o “aqui e agora” e exigir aposta na formação a clubes que nem pensam sequer em preparar-se para criar uma identidade transversal dentro do clube desde os sub7 até à Equipa A, forçar a inclusão de miúdos da formação que vêm duma especificidade completamente diferente daquilo que é o jogo da Equipa A, é só ridículo. No entanto há muita pressa espalhada por aí neste sentido, muito lamento perdido, precisamente por se ignorar a realidade.

Há algo grave que advém daqui: usa-se muito a desculpa da carreira curta para convencer os jovens jogadores de que se não tiverem a oportunidade agora, ela pode nunca mais surgir. Mas as carreiras nunca foram tão longas e nunca se ganhou tanto dinheiro em tão pouco tempo de carreira (contextualizar com o nível de que estamos a falar).

"Lançar um jovem" exige sensibilidade para o tipo de mentalidade que tem esse jogador (sem correr o risco de o "lançar às feras"), tanto para lidar com o eventual fracasso, como para lidar com o possível triunfo e "elogio fácil" que poderá surgir no pós jogo. "Nasce uma estrela" que não se quer que seja uma "estrela cadente" que só pára no abismo da frustração ou no deslumbramento do estrelato. Lidar com as emoções das primeiras experiências do futebol sénior necessita de uma grande mentalidade e necessita que o crescimento seja alimentado diariamente por essa mentalidade. Raramente surgem jogadores como Rúben Neves, Bernardo Silva ou João Félix que parecem ter sido "adultos" a vida toda, dado a forma como encaram a sua profissão. Não se pode forçar algo que tem que ser conquistado e preparado com naturalidade.

A culpa é de todos os que exigimos, sem perceber que conquistar/manter as coisas tem que dar trabalho e que se trata de um processo de contínua formação e amadurecimento, que está muito para além do que se faz no jogo e tem muito da reação ao que se passa no jogo.

Temos que viver e formar para desfrutar do tempo que temos (que nem é pouco nem é muito, é o que temos), ao invés de fazermos da vida e da formação uma corrida apressada contra o tempo... na ânsia de alcançar nem desfrutamos da viagem, do caminho sem o qual é impossível chegar aos “destinos”. É uma corrida perdida antes de começar, essa contra o tempo, porque o esse arranja sempre uma forma de estar à nossa frente. Acreditem que poucos são os que vivem à frente do tempo. Qual é o problema disso? Nenhum, não há que desesperar por necessitarmos de mais tempo para nos prepararmos, a aprendizagem/desenvolvimento não é uma corrida para ver quem chega primeiro... que se desfrute do tempo, no tentar ser melhor do que já somos.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Competir é superação!


A importância da competição interna (dentro de mim e da equipa) para o desenvolvimento dos jogadores.

O sentir que quem pode ocupar o teu lugar na equipa é tão bom como tu faz-te competir no treino e no jogo, no sentido de dares o melhor de ti... sempre. Aqui o desejo de jogar é tão grande como a necessidade de melhorar para poder concretizar esse desejo.

A necessidade de nos desenvolvermos em função do nível dos que estão ao nosso lado, desde que não seja exclusivamente isso que nos move, é muito importante tendo em conta como funciona o ser humano no geral. Claro que o ideal é aliarmos a isto uma mentalidade que nos permita depender também da nossa vontade de sermos melhores a cada dia sem dependências externas, sem necessitarmos de nos comparar com os outros, mas isto de nos compararmos connosco próprios, e melhorar a partir daí, cansa. Portanto a nossa mente se puder descansar vai-nos puxar para patamares de relaxamento que nos colocam num nível "Suficiente".

Convém referir que, sendo este um tema que temos tratado aqui na página (a questão da importância da mentalidade para o desenvolvimento), há gente que consegue ter esta capacidade, esta paixão/"obsessão" por aprender na busca de serem melhores a cada dia e por isso destacam-se claramente dos demais. Ainda assim também temos que reconhecer o contexto (quem e o que nos rodeia) como catalisador do nosso próprio desenvolvimento. Olhar para os outros no sentido de nos deixarmos inspirar por aquilo que fazem de bom nunca será mau, o problema está quando buscamos nos outros o nível de exigência “suficiente” para nos destacarmos, aí ficaremos sempre aquém do nosso potencial.

Sentir diariamente que uma distracção (pormenor) poderá colocar a minha titularidade (que tanto prezo) em risco, e quando esta perda (da titularidade) é mais do que justa e clara, pela qualidade de quem joga na mesma posição, então não há desculpas que me salvem: "A responsabilidade é mesmo minha, depende de mim mostrar que estou preparado." Nestes casos só se é titular por mérito próprio e não por demérito dos outros - nos casos em que as diferenças de nível são grandes essa necessidade de “fazer por merecer” (mérito) ou nos vem de dentro ou não existe.

Isto contraria toda a lógica de que o mais importante é o dia do jogo, na formação e no desenvolvimento. O treino tem que ser olhado com muito valor, tal como o jogo e se assim for todos os jogadores (miúdos ou graúdos) estarão mais perto de melhorar e de se transcender. Competir internamente no dia a dia é algo que deve estar permanentemente presente. Há uns que competem no limite a cada exercício, isso é o que lhes permite serem "melhores do que ontem", outros competem quando há necessidade para ser melhor do que os da mesma posição.

É importante formar para depender mais do espírito competitivo, tendo como objectivo melhorar a cada dia e ao mesmo tempo permitirmos que os jogadores tenham a seu lado gente que lhes "morda os calcanhares". O “suficiente” não chega para quem se quer superar a cada dia e competir é o oposto de rebaixar os outros para sobressair, e esta confusão é o que leva muita gente a dizer que a competição é um mal maior da sociedade contemporânea. Não é a competição que é um mau princípio, o que está mal é o querer aniquilar a competição (quem nos rodeia) sem competir, não deixando espaço para nos inspirarmos pelo bom que os outros fazem.

Não há maiores referências do que a nossa própria transcendência e a qualidade daqueles que convivem connosco diariamente.


a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC - Premier League 2018/2019